quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Festa de Santo Antônio do Pedregal


DIÁRIO DE CAMPO: FESTA DE SANTO ANTÔNIO, NO BAIRRO PEDREGAL – CUIABÁ/MT
Rafael Perin dos Reis 
         Por desencontros de datas e conversações entre os membros do grupo de pesquisa de campo erigido para satisfazer a principal proposta avaliativa da disciplina de Antropologia Urbana (inserida no contexto do semestre letivo 2018/1 do curso de Ciências Sociais da UFMT Campus Cuiabá), não pude participar dos festejos de Santo Antônio do Pedregal que ocorreram entre os meses de maio e junho de 2018. Frente ao exposto, propusemos aos colegas do grupo a realização de entrevistas com alguns atores da festividade em análise, os quais nos fossem acessíveis através da intermediação de um dos nossos membros, que acabou por incorporar o papel de “informante nativo” (por ser moradora do bairro e participante da comunidade religiosa católica de tal localidade há várias décadas). Sendo assim, empreendemos a primeira rodada de entrevistas no dia 08 de setembro de 2018 (Sábado), das 14:00h as 16:00h (aproximadamente), com quatro moradores do bairro do Pedregal, localizado na cidade de Cuiabá/MT.
         Marcamos como ponto de encontro dos membros do grupo e de realização de duas entrevistas o pequeno espaço aberto em frente à Capela de Santo Antônio do Pedregal (inserida na jurisdição eclesiástica da Paróquia Sagrada Família e concomitantemente da Arquidiocese de Cuiabá), no qual deveriam estar todos os envolvidos às 14:00h. No translado até a chegada ao destino combinado, deparo-me com um detalhe da paisagem urbana que tipifica os dilemas das diferenças nos modos de vida e de ocupação dos espaços citadinos nas sociedades contemporâneas.
Seguindo pela Avenida Archimedes Pereira Lima (mais conhecida como Estrada do Moinho), no sentido Coxipó – Av. Miguel Sutil, um pouco antes de adentrar em certa rua à direta da mesma para ter acesso ao bairro do Pedregal, visualizo no lado esquerdo da via em questão dois grandes conjuntos de condomínios verticais (provavelmente acessíveis apenas à parcela populacional pertencente às classes econômicas média-alta e alta). Em uma mesma imagem, dois modelos de urbanização conflitantes e coexistentes na totalidade social brasileira: à direita, uma comunidade estruturada por habitações horizontais supostamente “precarizadas e/ou pauperizadas” (a depender do ponto de vista analítico utilizado), pertencentes a membros das classes populares; e a esquerda, um conjunto de edifícios habitacionais projetado para satisfazer os anseios dos sujeitos oriundos de classes mais abastadas economicamente, localizado em um grande espaço “vago”. Podemos considerar que essa última característica propícia uma maior expansão dessa modalidade de apropriação do espaço urbano. A mesma já é realidade em bairros “elitizados” da capital mato-grossense, alguns deles também localizados, por sinal, à esquerda da referida Avenida, que antecedem, geograficamente, àquele que estávamos empreendendo nossa pesquisa.
Cheguei ao local indicado às 13:30h e aguardei pela vinda dos outros envolvidos no empreendimento “proto-etnográfico”. Perpassada por ruas de marcante “ondulação” (sequências de subidas e descidas íngremes), a parte frontal do espaço da Capela de Santo Antônio do Pedregal figura como uma verdadeira “praça em miniatura”. Temos ali presente três a quatro bancos de madeira, dispostos entre a escadaria que dá acesso ao pátio do templo e algumas árvores frondosas dispostas na calçada. Logo à frente, um movimentado ponto de ônibus, pelo qual os transeuntes se assentavam para aguardar a linha de transporte coletivo que contempla o bairro ou simplesmente para conversar com algum conhecido e “apreciar a paisagem”. Ao lado da via que passa em frente à referida igreja, tem-se presente modelos variados de comércio (vestuário, alimentação, estética e embelezamento etc.), com destaque para os “razoavelmente” movimentados bares e/ou lanchonetes da região. O fluxo do trânsito era intenso, mesmo para um dia de sábado, com carros, motos e outros veículos sempre fluindo pela via principal.
Na área externa da igreja, destaca-se em sua fachada uma imagem de Santo Antônio disposta em um espaço aberto na parede, protegida do contato exterior por uma chapa de vidro ou acrílico, acima da porta central que dá acesso ao espaço interno da mesma. Todo o amplo terreno do templo é circunscrito por cercas metálicas vazadas na parte da frente e por um extenso muro em suas laterais e fundos. Por fim, os outros quatro membros do grupo (um homem e três mulheres) acabaram chegando, juntamente com os dois primeiros entrevistados do dia: a senhora E. B. de M. (38 anos, solteira, irmã da nossa colega “informante nativa”) e o jovem F. (15 anos, solteiro). Ambas as entrevista com os mesmos ocorreram no ambiente em frente à igreja da Comunidade Católica de Santo Antônio, descrito anteriormente.
Começamos o trabalho com a fala da senhora E. Ela relata que participa dos festejos locais desde 2015 e a mesma pode nos repassar a atual estruturação dos mesmos. Segundo a senhora E., a festa de Santo Antônio do Pedregal é antecedida em duas semanas por um ritual envolvendo orações e outras práticas espirituais, denominado “Trezena”. Através da ação da principal “benzedeira e rezadora” da comunidade, dona M. da P., são escolhidas treze famílias para receberem a imagem “peregrina” em suas respectivas residências. No final de maio, realiza-se a primeira celebração religiosa específica em honra de Santo Antônio: realiza-se uma missa sucedida pelo levantamento do mastro e pela procissão de translado da imagem do santo (carregada em um ardor e acompanhada pela bandeira da mesma figura sagrada) para a primeira casa escolhida para a realização da “Trezena”. A partir daí, a imagem será levada de casa em casa até o final dos treze dias de trabalhos espirituais. Após o décimo-terceiro dia da “Trezena”, a imagem “peregrina” é levada de volta para o interior da igreja e a comunidade se empenha nas práticas de oração e súplica durante, aproximadamente, cinco dias.
Alguns pontos sobre a dinâmica da “Trezena” podem ser destacados a partir da fala da senhora E. Cada uma das treze famílias escolhidas para “receber o santo em casa” devem contribuir de alguma maneira com a realização da festa de santo (ou materialmente, como doação em dinheiro, alimentos ou produtos diversos, ou com serviços prestados voluntariamente na organização e na execução do evento). A escolhida dessas famílias se dá através de um pretenso “sorteio democrático, regido pela eleição do Espírito Santo”, mas que, segundo nossa primeira entrevistada, a voz decisória sempre é a da influente liderança comunitária, dona M. da P. O roteiro de rezas, contendo ladainhas, terços, reflexões etc., que são executadas na “Trezena” foi compilado em um documento impresso para facilitar os trabalhos dos participantes. Após a exposição de tal pontuação, pude perceber também a similaridade nas vestimentas “informais” da senhora E. e do jovem F. Ambos estavam trajados com camisetas “oficiais” da comunidade paroquial da Sagrada Família, contendo na parte da frente a imagem impressa de Santo Antônio, bermudas (ou shorts) jeans e sandálias de borracha.
         Segundo a senhora E., após o quinto dia de orações com a imagem do santo na igreja, realiza-se um tríduo de missas (sexta-feira, sábado e domingo) que é acompanhado pela execução de três dias de festividades em comemoração a Santo Antônio do Pedregal. No período noturno desses dias, após a realização da celebração religiosa, dá-se a execução de atividades variadas, como: bailão noturno (na noite de sábado), bingo (na noite de domingo), barracas de bebidas (incluindo as de teor alcoólico) e alimentos diversos, pula-pula (em todas as noites de festejos) entre outras. A festa de santo no bairro Pedregal iniciou-se há 40 anos, sendo que o próprio nome oficial da localidade é, segundo a entrevistada, “Comunidade Santo Antônio do Pedregal”. Ela relata que há alguns anos, a festa era composta por quatro dias (incluía-se o dia de quinta-feira), porém acabou sendo reduzido para a atual formatação pelos seguintes fatores: ocorrência de brigas e eventos de violência nas proximidades da festa e, durante certo período, a proibição da venda de bebidas alcoólicas, que levou a diminuição do público participante e, consequentemente, da arrecadação do evento.
         Breve foi o contato com o jovem F., que relatou ter participado pela primeira vez (2018) das atividades realizadas em comemoração a Santo Antônio do Pedregal – “Trezena”, tríduo de missas e festejos. Ele relatou que no ano de 2018 também foi a primeira ocasião em que o grupo de jovens da comunidade participou da coordenação do evento. Tal grupo, intitulado “Sentinelas do Amanhã”, é formado por 30 membros, entre doze e trinta anos de idade – em média, que se reúnem todos os primeiros e terceiros domingos de cada mês, às 17:30h. Tanto o jovem F. como à senhora E. expressaram nutrir “sentimentos positivos frente à demonstração da fé depositada na figura do santo”, especialmente em agradecimento as causas – “graças” – alcançadas através de sua interseção. Por volta das 14:30h, finalizamos os trabalhos em frente à igreja, nos despedimos do jovem F. e fomos todos (a senhora E. e os cinco membros do grupo de pesquisa) para a residência do próximo entrevistado. Deslocando-nos por ruas e esquinas do interior do bairro (observando em certos locais pessoas conversando nas calçadas, grupos de homens “provavelmente” embriagados discutindo algum assunto ao fundo e algumas crianças brincando ao lado da via) chegamos ao local indicado e fomos recebidos pelo senhor W. T. (71 anos).
Ao entrar na casa, pude perceber alguns elementos de cunho religioso – como crucifixos, imagens e quadros de figuras sagradas católicas – e características das habitações urbanas periféricas brasileiras – extenso quintal ao largo da construção de alvenaria, construção inacabada de edícula (ou “puxadinho”) aos fundos da residência principal etc. Fomos convidados a nos sentar à mesa localizada aos fundos da residência, para realizar a entrevista. O senhor W., que nos havia recebido trajando apenas bermudas de brim e sandálias de borracha, vagarosamente vestiu uma camisa de botão branca, retirou um rifle de caça de cima da mesa para o por em um móvel ao lado e sentou-se para iniciarmos os trabalhos. Destaco que a presença do inesperado elemento bélico acima citado causou certo estranhamento e apreensão a alguns membros do grupo de pesquisa, mas logo foi ignorado durante a transcorrência das falas.
O senhor W. pode ser considerado um dos principais fundadores da comunidade do Pedregal, tanto na esfera religiosa como na sociopolítica. Ele inicia seu relato dizendo que “veio do interior de Mato Grosso para Cuiabá na data de 07 de maio de 1976”. Ele e mais oito famílias se acomodaram em estruturas habitacionais compostas de barracas de lona, constituindo assim o “grilo” da atual região que abriga o bairro. Através dos contatos que o Senhor W. tinha junto a funcionários públicos da Prefeitura de Cuiabá, do Governo do Estado e da Polícia do Exército, além de políticos da época, iniciou-se a regularização fundiária da região. Esse processo foi marcado por conflitos e tensões ligados as tentativas de reintegração de posse, despejo, como também pela desapropriação dos terrenos, doação dos mesmos aos recém-chegados moradores e estruturação dos aparelhos de serviço urbano públicos. O entrevistado relata o constante envolvimento das lideranças comunitárias a fim de ajudarem a todos os membros da comunidade que chegavam para assentar-se (como, por exemplo, mutirão de coleta e distribuição de pães para as famílias mais necessitadas).
Ainda no ano de 1976, deu-se início também a comunidade católica do Pedregal, a partir da realização da primeira missa na casa do senhor W., com a presença do padre da paróquia da região e de outras quarente pessoas. O entrevistado relata que ele e sua família já participavam anteriormente de movimentos religiosos e acabaram por se tornar os primeiros líderes da recém-formada comunidade eclesiástica. O primeiro clérigo a prestar os serviços religiosos na região designou que agentes de igrejas próximas (São Judas Tadeu e Nossa Senhora de Fátima) viessem ao Pedregal para treinar as lideranças comunitárias nos assuntos pastorais, além de ajuda-los com insumos materiais. Os fiéis católicos eram “conclamados” a participar das celebrações religiosas na comunidade através de um “alto-falante alimentado por pilhas”. O senhor W. afirma que auxiliou na organização de grupos de jovens durante os anos que liderou ou auxiliou na liderança da comunidade religiosa, além de ter contato com grupo semelhante estabelecido na UFMT (“Grupo Rondon”). Através de suas amizades e influências no âmbito social, político e religioso, o entrevistado fomentou a construção do templo, durante três fases.

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