Diário de Campo
Gabriel Nunes
Primeiramente depois de organizarmos como grupo, queríamos achar um lugar que promovesse eventos culturais diferentes, que quebrasse clichês, mas que também fizesse parte das tribos urbanas de Cuiabá, do povo cuiabano. Desse modo ficamos em dúvida entre a praça da mandioca, que além de ser amplamente grande em sua diversidade, traz consigo a história de Cuiabá ou entre o Cavernas Rock Bar que além de termos alguma familiaridade com o local entre os integrantes do grupo, tem estado atuante na representação da cena underground há quase 14 anos, promovendo shows e unindo o cenário do rock em Cuiabá.
Mediante a diversidade de culturas e tribos da praça da mandioca (que poderia deixar o trabalho sem foco, extenso e superficial), optamos pela escolha do Cavernas devido sua representatividade e particularidade, considerando a indicação de um dos integrantes do grupo que achou ser mais proveitoso o estudo daquele ambiente, por conter um foco e por ter uma identidade marcante em sua tribo, assim entramos em consenso de que seria ali o ideal, por conseguinte elaboramos questões e formas de abordagem para com local escolhido.
O cavernas rock bar está situado na Rua Barão de Melgaço, 3138 - Centro Sul, Cuiabá - MT, 78005-420. Está no centro da cidade com boa localização. Segue a foto do Google Maps de sua localização:
Figura 1 - Mapa Caverna Rock Bar de Google Maps
Questões sobre o trabalho de campo anexo 1 e 2: Organização
Era dia 12 de junho, uma semana atipicamente fria para a baixada cuiabana, combinávamos como seria nosso trabalho, estávamos em greve estudantil e era uma boa oportunidade para adiantar o trabalho. Aproveitamos esse contexto para reunir na UFMT no dia 14 e começar com os preparativos pré-visita: o que faríamos; qual seria a abordagem; e ajustes do roteiro com perguntas que havíamos elaborado (segue anexo 1 e 2). Para nossa sorte, Kevin era familiarizado com o local e nos ajudou a esclarecer algumas perguntas que não eram apropriados para se fazer no ambiente.
Primeiramente equivocamos ao elaborar o questionário nos seguintes temas: Religião, sexualidade e a separação do gênero rock e do metal, assim como, as subdivisões do metal. Na questão religiosa haveriam muitos que repreenderiam pois éum ambiente com maioria ateia, ficando claro isso com a reação do Kevin ao ver a questão:
- Kevin: “Olha pra minha cara, vê se eu tenho cara de quem vai à igreja!”
Explicou ele sobre o que poderíamos ouvir. Em relação a sexualidade, poderia ocorrer a mesma recepção, afinal, estaríamos entrando num âmbito delicado para uma primeira abordagem, ou em consequência da brevidade do projeto.
A respeito da divisão do metal e do rock, e das subdivisões desse, Kevin nos explicou que lá é um ambiente específico para quem vive o metal. Não seria apropriado perguntar sobre rock ou focar a pesquisa nisso, pelo menos não a primeiro momento, devido a algumas rixas de vertentes, ele nos advertiu para deixarmos isso para um outro momento, até estabelecermos uma relação com o ambiente. Seguimos então para a visita dia 15 de junho.
Diário trabalho de campo dia 15 de junho: Primeira visita ao Cavernas bar
Decidido os ajustes do roteiro, optamos para usar o dia 15 como primeiro estudo etnográfico do local, assim frequentaríamos o local como observador participante, de forma a compreender as primeiras impressões do local, uma visão superficial das pessoas que frequentam ali e do ambiente, contribuindo para a continuidade do projeto e das questões que norteariam o tema de nosso trabalho, naquele momento.
Dessa forma, chegado o dia do evento, marcamos para estar no local a partir das 19 horas, que seria o horário que o cavernas bar abre no dia de semana. Ao adentrar o local, avistei primeiramente a Paola que ao perceber minha chegada, avisou ser dia de evento especial, o que ocorre uma cobrança na entrada. Não vi problema naquilo, era uma boa oportunidade de extrair o máximo de informações, já que tínhamos pensado em ir algum dia de evento especial, para ver o que difere nesses dias. Porém nem todo o grupo poderia ficar, até por não haverem se preparado para pagar a entrada e ficar até o final do evento.
Assim que entrei percebi um local escuro, com personagens característico do rock como a estátua da morte, caveiras, aranhas e até morcegos. Era um lugar aconchegante para mim pois eu sou participante da cultura, porém nunca havia me integrado a um grupo ou lugar como esse. Haviam quadros surrealistas, alguns também cubistas, máquina de jogos fliperama, armário com camisetas de bandas a venda, pôsteres de filmes com temática distópica, ficção científica e terror. Isso me deu alusão aos bares dos anos 90 que tinham essas características de terem jogos, o Cavernas preservou essa característica, quem já frequentou via nostalgia fazendo parte do lugar.
Na parte mais adentro, há um recinto onde as bandas tocam, tem o palco com os instrumentos, a cabine de configuração de som, e o espaço para os clientes ficarem vendo e ouvindo as bandas tocarem. O local tem uma boa isolação acústica e dentro do ambiente o som chega ser bem estridente, o lugar
não parecia ser tão grande e organizado, quem chega pela primeira vez se surpreende com a capacidade do local.
No espaço bar, há duas mesas de sinuca, era o que encontramos para interagir com o lugar até que chegasse mais pessoas. Pedimos cerveja, ouvimos um álbum de música que alguém colocou no jukebox (tem-se essa opção) era uma banda chamada UDO de Heavy metal, e fomos jogando, as pessoas que estão acostumadas com o lugar, são extremamente receptivas, mesmo sendo nossa primeira vez, houve uma boa aceitação da nossa presença. Achei o lugar um ambiente agradável com uma junção de atrativos que sem dúvidas nos deixa confortável.
Em razão do evento conversamos com o dono do local para saber o que haveria naquele dia, assim, explicando-o, disse que seria um aniversário que iniciaria às 22:00 horas, cujo a entrada seria cobrada o valor de R$ 10,00 reais. Como estávamos explorando o local, decidimos pesquisar pelo celular alguma possível divulgação daquele evento. Eis que encontramos no Jornal online “O Livre”, que o evento seria:
Figura 2 - Banner do evento "MEU AMIGO PEDRO" do site O Livre
“Entusiasta da cena roqueira em Cuiabá, Kleber Mello completaria mais um ano de vida e, para não passar em branco, os amigos irão se reunir no Cavernas Bar em evento rock’n’roll solidário, às 22h. Vai rolar Raul e muito jazz, blues e hard core com Wellington Berê, Blend Blues Trio, Skarros e um bandão formado por ex-integrantes das Bandas Central 357 e Klínica. A entrada é R$10 e os que adquirirem rifa também concorrem a um contrabaixo e um violão doados pela Mega Som para os que adquirirem rifas. O dinheiro arrecadado será revertido para a família como auxílio aos custos com o funeral.”
Fonte: https://www.olivre.com.br/sarau-arraia-e-balada- eletronica-agitam-fim-de-semana-na-capital-e-regiao/
Vimos ser um evento meio fechado, visto que na descrição diz “amigo Pedro”, não conhecíamos a pessoa e parecia um evento intimo demais para nós que estávamos chegando agora. Conversamos entre o grupo sobre a possibilidade de ficarmos até o final, mesmo tendo em vista esse imprevisto, contudo apenas eu e Mateus ficou para ver mais do evento. Eu particularmente achei importante permanecer e ter uma noção melhor de como são os eventos promovidos ali, além disso ver a ligação que um evento desse tem, era uma homenagem a um cliente, o espaço pareceu ter grande consideração pelo seus. Também pensei em como aquilo contribuiria na consumação da visão superficial, num próximo evento seria mais fácil aprofundar em outros detalhes.
A partir das 22 horas o pessoal começou a chegar, estavam vestidos bem idênticos aqueles shows que vemos na TV ou no youtube de bandas de rock, podia se perceber as vestimentas do movimento hardcore punk, era visível ver distinções de estilos e gêneros do rock expressos nas roupas, o pessoal chegava sempre em turma, pareciam ter bastante familiaridade e intimidade com o lugar. Doravante ao horário e público chegado, começou-se a servir petiscos, eram saborosos e o atendimento foi rápido, logo após, em torno das 23 horas, as bandas começaram a tocar.
A primeira banda, Skarros, é uma banda de Hardcore/Punk, assim se denominam. O som era agressivo e pesado, foi possível identificar na letra protestos contra o sistema e a corrupção. Estávamos sentados no bar durante o começo em que a banda tocou, a sonoridade do local era incrível, mesmo do
lado de fora poder-se-ia escutar tranquilamente. Por isso, lá fora haviam mesas e cadeiras também.
Entramos no recinto de espaço/show enquanto iniciado já a tocar e percebemos como havia dito antes que o som é bem alto, percebi que já era quase o final da apresentação da Skarros, logo após a segunda banda começou a tocar.
A segunda banda e última o qual podíamos ficar, por volta das 1 hora da manhã, era uma junção de duas bandas, Central 357 e Klinica, aparentemente uma banda de gênero rock nacional, faziam parodia principalmente de Raul seixas, o pessoal cantou bastante, foi a banda que emocionou fazendo homenagens ao falecido e lembrado amigo, ao focar na música “Meu amigo Pedro”, ao qual foi parodiada com outra letra por eles, fazendo referência a Kleber Mello, devido o contexto, o pessoal se emocionou e ficou em silêncio, tristes por lembrar do querido amigo.
Apesar da vivência do metal e de um objetivo público alvo, o cavernas é bem democrático quanto a escolha de músicas, o rock tem uma amplitude de sonoridades, é difícil não se identificar com algum, tem-se a opção de colocar uma música de sua escolha na TV e por isso existe a liberdade de escutar algo que goste, dentro do rock e metal, épossível perceber as pessoas a vontade pois não é como em outros lugares em que se sente pressão a consumir algo para permanecer ali, é tudo muito natural, os atendentes te deixam bem livres.
Chegado momento tive que ir embora, pois não havia me planejado ficar até o final, voltei para casa. Como primeiro contato achei uma experiência boa, diferente de outros bares da cidade. O Cavernas é quase um clube de encontro entre amigos que nesse cenário os trabalhadores fazem parte, há um contato íntimo entre cliente e ambiente, gostei do lugar, com certeza frequentaria mais vezes.
Segunda visita cavernas bar dia 12-07-2018: Primeiro contato verbal com o ambiente
Nesse dia combinamos de conversar com o dono do local, e com algumas pessoas que frequentam o lugar. Pensamos em filmar algumas entrevistas e até mesmo com o dono de lá, assim haveria um melhor registro da experiência, maior compreensão do ambiente e pessoas que convive ali.
Deste modo, conversando entre nós ali mesmo, percebemos que chegar filmando seria extremamente desconfortável, era preciso ter um contato verbal, familiarizar com as pessoas, precisávamos de um mínimo de confiança dos frequentadores e do dono, para que houvesse uma abertura para depois a eventual filmagem.
Esperamos todos os membros do grupo chegarem ao local para conversar com o dono, que tem o apelido e gosta de ser chamado por Cachorrão, para que todos tivessem o contato e pudesse aproveitar o máximo da conversa. Tendo em mente que falaríamos do nosso trabalho e marcaríamos um melhor horário para tirar fotos e gravar um vídeo com perguntas a ele. Não sabíamos muito bem como fazer isso, estávamos todos nervosos, com medo de dizer algo inapropriado ou até mesmo não saber fazer perguntas que garantiriam aproveito ao nosso trabalho. Eu mesmo não sabia o que falar e estava receoso de já ter esse contato.
Enquanto esperávamos a chegada dos colegas tentei prestar mais atenção no ambiente e notar mais coisas que não havia reparado, olhando para o chão percebi que havia nele um desenho de um demônio, já no caixa, além de caveiras via-se também bonequinhos de emojis do whatsapp, já o balcão de atendimento se espelha muito com as de tavernas antigas que vemos muito em filmes de época.
O pessoal que estava no local neste dia, estava assistindo o filme A Morte do Demônio, eu já me senti do lugar, durante o filme ria (as cenas que eram engraçadas, “tinha a graça”, por que apesar de ser um filme de terror, é antigo e dá vontade rir nas cenas que ao contrário desta, na época do filme era pra se ter medo) e talvez seja por isso que todos assistiam. É interessante o
acolhimento que o bar tem para com os seus clientes, as pessoas que estavam ali antes de nós chegarmos,haviam acabado de sair do trabalho, isto era18:30, e o happy hour daquelas pessoas eram no cavernas, o que fez pensar que o cavernas além de ser um bar, é um lugar de descanso para eles, lugar para ficar tranquilo, esquecer as preocupações do dia-a-dia.
Logo após todo o grupo chegar, Kevin falou com o dono do bar e pediu que quando ele tivesse um tempo senta-se conosco para conversar. O dono simpaticamente disse a ele que depois ia bater um papo com a gente. Assim ficamos jogando sinuca até o momento, e observando, nesse tempo percebi que nos dias de semana o pessoal costuma ir lá mais para papear e jogar um pouco do que ouvir música, até por não ter show de bandas nesses dias, mas o jukebox fica sempre disponível para se colocar música e sempre ligado com a programação aleatória de músicas de gênero metal.
Depois de esperar um tempo, o Cachorrão nos chamou para sentar numa mesa lá fora, sentamos e eu comecei juntamente com Mateus a explicar o que estávamos fazendo e qual o objetivo daquela pesquisa, ele ficou pensativo a primeiro momento julgando como proceder, eu fiquei meio desconfortável de começo não só por ter que falar mas também me colocando no lugar do dono do local de como pareceria intimidador sentar numa mesa com 5 pessoas num bar querendo fazer perguntas a ele. Mas isso passou logo que percebi ele a vontade e talvez ele já tivesse passado muitas vezes por isso.
É importante ressaltar que temos um trecho gravado dessa conversa, irei rescrever aqui como diálogo, o som não ficou nítido, um amigo do Kevin que gravou, ele não estava no nosso grupo, respeitamos o que Cachorrão nos disse para não publicar nada, por isso não insistimos nisso, todavia ocorreu que este amigo do Kevin começou a gravar sem que soubéssemos. Fica detalhado também que partes serão omitidas a pedido do dono, partes que ele disse para não colocarmos no diário, haverá aspas nos trechos gravados, os que não tiverem serão anamnese do ocorrido naquele dia. Siga abaixo a conversa:
Primeiramente cachorrão nos disse que não gostava de ser exposto até por não ter tido boas experiências do tipo, contando sobre uma vez ter dado entrevista com um pessoal acadêmico de publicidade, e que não houve certa honestidade com o compromisso entre entrevistado e entrevistador no que diz
respeito a um acordo de omitir alguns fatos ditos, que poderia ser interpretado de forma errônea. Mesmo assim o entrevistador não cumpriu o prometido e aconteceu das más interpretações se sobreporem. Assim recuamos um pouco, era um grande imprevisto, na minha particularidade fiquei pensando de que forma explicaríamos melhor nosso objetivo ali para que ele pudesse ficar mais tranquilo quanto exposição.
Assim eu disse que poderíamos marcar um horário melhor para essas perguntas e mandar as próprias perguntas por e-mail, desse modo ele poderia pensar sem que as suas respostas não fossem má interpretadas, de certa forma isso colaboraria também na questão do sobre carregamento de tarefas que ele mesmo tem com os eventos e trabalhos no bar, buscando o tempo mais flexível para ele. Continuando pedi também para que ele pudesse deixar tirar fotos do estabelecimento para o enriquecimento de detalhes do nosso trabalho, ele me pareceu bem-disposto a ajudar, só senti recuo quando se tratava de filmagens ou gravações, até por ter ocorrências negativas nesse sentido.
Depois do esclarecido perguntamos a ele qual seria o público que o cavernas bar tem como frequentador, e se há alguma limitação do tipo tencionar um público apenas. Ele respondeu que o cavernas bar é um local como qualquer outro bar, aberto a todos os públicos e que já houve muita interpretação senso comum de que fosse um local para motoqueiros, porém é um local muito voltado para o comércio e que ele faz o possível para acolher todos os públicos que frequentam o local. Disse também que já houve shows de outros gêneros como reggae e rap, porém sempre prezando pela essência do local que está expresso tanto no ambiente como no seu próprio dono, o metal.
Partindo mais a fundo sobre o assunto da identidade local ele ainda disse: “O Cavernas vive em um mundo bem eclético, por isso a maioria se sente bem, mas quando ouviam o Rap povo sumia, pois era um evento bem específico. Para o Hip Hop, rolou uns 4 ou 5 no decorrer dessa junção. Mas, tinham um 5 % do meu público que circulava entre o rock, rap e o reggae. Hoje eu faço questão de manter, mais o Metal, os eventos que rolam do rock são bem poucos.”
Leonardo então diz: É um local que está aberto para vários outros gêneros, porém não deixa de perder sua essência né!? Cachorrão diz enfaticamente: “Isso só depois que eu morrer”.
Em seguida ele nos relata de alguns problemas que já houve com públicos novos que chegavam no local: “Teve uma época que começou a vir uma gurizada para pegar mulher aqui no meu estabelecimento, e queria agarrar, assediava... Eu não permitia isso, não era o local, as vezes eu mesmo intervinha.” Essa imposição e pensamento é facilmente percebido; no cavernas você vê mulheres indo tranquilamente com amigas para bater papo e ouvir música, a mulher dentro daquele estabelecimento está segura desses incômodos, é um lugar respeitoso, talvez seja essa a chave para abundância de frequentadoras e até de modo geral frequentadores.
Agora não mais receoso, mas entusiasmado com a conversa perguntei ao cachorrão se já houvera ocorrências do público do Metal, que frequenta a muito tempo ali, reclamar de quem vem com outros estilos ou quando recebia bandas de outro gênero. Logo ele respondeu que teve uma época em que isto ocorreu:
“Na verdade, teve, mas não era uma galera que eu considerava, não eram pessoas que estava ali para compor o local, estavam criticando pôr criticar. Os meus amigos, o pessoal da minha banda, esses aí disseram: você pode abrir para outras vertentes. Na verdade, quando eu abri aqui era sóRock N’ Roll pesado e Metal. Banda de Rock autoral não tocava naquela época até então. Só no início de 2006, um camarada meu pediu para fazer os eventos dele aqui, e eu acabei aceitando. E foi bom, porque na época eu só tinha uma banda, e mais três bandas aqui em Cuiabá que vinham fazer shows no local, então eram as mesmas bandas e mesmos shows. O pessoal estava até cansado de tocar várias vezes no mesmo mês, até falavam, “Pô cara de novo, mas vamos lá”, eles topavam tocar mais para ajudar. Aí quando eu abri para o Rock autoral, houve essa troca, eu liberava o espaço, movimentavam meu bar e eles tinham aonde se apresentar. Essa união ocorreu por 10 anos, mesmo com o bar tendo foco no Metal. Era uma galera gente boa que trouxeram o público deles. Depois disso que começaram a abrir bares na cidade inteira e
foram migrando. Mas quando eles pedem para eu fazer evento, eu faço, contudo hoje o foco é o metal. (Cachorrão).
Cachorrão continuou:
“Teve até um cara que queria barrar essas pessoas de entrarem, falava: “Não vai entrar aqui não”. Eu falei para ele que se continuasse assim, ele que não iria entrar. Ele se mostrava ser Black Metal, mas não pertencia ao local e até mesmo ao que ele queria ser. Teve também um outro que veio me cobrar de fazer um evento Emo já que eu estava abrindo mais para outras vertentes, sinceramente ele não tinha nem moral de selecionar quem frequenta ou não o bar. As vezes a galera quer ser radical, se mostrando aquilo que não é, não percebendo que aquele pessoal ajudava o bar, nos ajudava!”
E assim encerramos a conversa, combinando já com Cachorrão dele entrar em contato com Kevin assim que houvesse tempo disponível para nós o levarmos mais perguntas e tirar fotos do cavernas, deixando mais claro as características e identidade do local. Na minha interpretação depois dessa conversa, observando melhor seu público, achei ser um ambiente que além de ter indivíduos respeitosos que cuidam do mesmo, também tem seu dono que cuida do público. Sem dúvidas, é evidente no cavernas a relação de respeito mútuo, uma boa receptibilidade, e atendimento aos clientes. Me senti acolhido, e isso acontece até mesmo com quem tem identidade dessemelhante ao local, é justamente esse diferencial que atrai pessoas.
Mesmo cachorrão estando ocupado naquele dia ajudando no atendimento do bar, ele se mostrou totalmente prestativo a nossa causa. Pensando além, este zelo que o local tem pelo seus clientes e seu compromisso de preservar a cena underground, leva a pensar a importância deste bar para seus seguidores, qual papel na vida aquele ambiente desenvolve para com seus clientes, e não é exagero levar para esse lado pois quando se trata de identidade é de fundamental importância a expressão da mesma, e o cavernas com certeza é local certo para quem se reconhece a este.
Ficamos mais um tempo no local ouvindo música, comendo petiscos, conversando sobre o que ocorrerá ali. Combinamos os próximos passos, de vir num evento dia 11 de agosto, depois disso logo cada um foi-se embora.
Terceira visita no Cavernas rock bar dia 11-08-2018: O Estranhamento
Neste dia estava marcado para nos encontrar no local para ter contato com os eventos em que o lugar promove, para observar, analisar e diferenciar dos dias normais, alguns do grupo não ficou até o final do primeiro evento, então esse dia era extremamente importante. Segue o banner do evento e bandas que tocaram:
Figura 3 - Banner do evento “SPEED METAL UNION” por: O livre
“Neste fim de semana, o Cavernas Bar honra a tradição montando o palco do Speed Metal Union – uma grande celebração entre bandas autorais de sonoridade voltada ao heavy e thrash metal característico dos anos 1980. A atração convidada da noite deste
sábado (11), que começa às 22h, será a banda Selvageria. A paulista divide palco com as mato-grossenses Burning In Hate e Total Desastre.
A entrada éR$ 20 e o ingresso antecipado sai a R$ 15.”
Fonte: https://www.olivre.com.br/cavernas-bar-reune-bandas-
autorais-do-heavy-e-thrash-metal-oitentista-no-sabado/
Diferentemente do evento que fomos na primeira visita no cavernas, este era maior e mais popular. Estimo que neste dia havia mais de 200 pessoas no local, e de primeiro contato já me choquei com a diferença de público. Haviam pessoas com estilo hardcore punk, rock anos 70, emo e metaleiro. Há diferentes faixas etárias que frequentam o local, nesse dia poderia se ver grupos de pessoas com meia idade entre 40 a 60 anos e também era possível ver muitos jovens entre 18 a 30 anos. Me senti meio deslocado agora pois não me vestia ou fazia parte da identidade local, apesar de ouvir e ser familiarizado com a cultura ambiente, era possível observar olhares das pessoas que me identificavam como novo ou não-local. Nesse sentido podemos dizer que houve um estranhamento das pessoas conosco, isso aconteceu nesse dia talvez porque um evento como esse reúne a maior parte da clientela do bar, possivelmente há pessoas que só irá ali em eventos, assim percebi o grande número de pessoas que frequenta ali, levantando a questão da identidade e sobretudo o que cachorrão havia dito sobre a união do rock e permanência do metal.
Chegamos a exatas 22 horas e uma boa parte do pessoal já havia chegado, estavam à espera da abertura do bar. Aberto o bar, ficamos do lado de fora, onde a maioria permaneceu até início do show, como o cavernas se encontra no Centro de Cuiabá e há um certo movimento nesse horário, as pessoas que passavam de carro ficavam olhando o movimento, chegavam a reduzir a velocidade para saber o que era ali e se impressionavam com os estilo das pessoas no lugar.
Ficamos observando e conversando sobre que passo dar nesse dia, qual rumo a nossa pesquisa tomaria a partir dali, pois já havíamos concluído sobre a
cultura e identidade do local, mas não poderíamos conversar com as pessoas pois o dono havia nos restringido da ideia de vídeo, gravação e exposição do local, apesar de que conversar com Cachorrão trouxe grandes esclarecimentos quanto as questões que norteiam essa pesquisa. Decidimos terminar o diário com aquele evento e mandar para a professora dar uma olhada, nos avaliar tirando dúvidas quanto o material que já havíamos recolhido.
Em certo momento decidimos entrar em decorrência da proximidade do show, além de que, queríamos ver como estava lá dentro, não podíamos perder nada. O bar estava cheio, tanto dentro como fora havia um bom número de pessoas, e o espaço-show já havia uma parcela significativa. A primeira banda a tocar, Burning In Hate estava organizando os instrumentos, afinando e ajustando os sons. Havia uma cortina preta que separava ela do público enquanto ela se preparava para o início.
Figura 4 - Logo da banda Burning in Hate por: Google imagens
Assim se iniciando, abriram-se as cortinas e a banda começou a se apresentar, o pessoal estava entusiasmado, logo de começo já se animaram e começaram a balançar a cabeça e a correr, iniciavam e terminavam as músicas com o símbolo do metal a famosa mãozinha de chifre. É bom esclarecer que a forma como se expressam na hora do show é assim, mexendo a cabeça, correndo e pulando. Quase não se entendia muito as letras das músicas, assim como no primeiro evento com a banda Skarros, essa banda de metal usa o recurso vocal:
Vocal gutural: (do latim guttur, que significa garganta, goela), em música, é uma técnica vocal que produz um som rouco, grave ou profundo, que se obtém através do apoio diafragmático (comumente
usados na maioria dos estilos de canto), que é uma técnica de respiração, juntamente com distorções no som produzido nas pregas vocais e laringe, que produz um som grave e rouco, com uma agressividade característica. O estilo é muito usado em bandas de metal de estilo death metal, metalcore, deathcore e thrash metal. Também é bastante comum no black metal, gothic metal e em algumas variantes do symphonic metal.
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Vocal_gutural
A Burning in Hate é uma banda de speed e thrash metal e por isso é característico uma rapidez no som e agressividade, geralmente com letras que tratam de problema sociais e sobretudo controle do Estado. Conforme a velocidade do som as pessoas agiam no ritmo, houve uma hora que o baixista da banda Total Desastre, o Marreta, foi convidado para cantar, existe uma ligação entre eles, aparentemente eles já tocaram várias vezes no cavernas, com a entrada dele o ritmo diminuiu, talvez por sair do speed metal para o thash, eu achei mais agradável, o som era mais limpo ao meu gosto.
A banda terminou, o pessoal aproveitou pra tomar um ar e beber uma cerveja, afinal haviam se agitado bastante, e logo mais entraria a Total Desastre, banda do dono do cavernas, Cachorrão. Segue foto e algumas informações da banda:
Figura 5 - Foto da banda Total Desastre por: Cidadão Cultura
Depois de organizado, a próxima banda começou a tocar, como já havia dito a Total Desastre tem um ritmo mais lento, e o som é mais limpo. A banda tem em sua composição uma mulher como vocalista, achei a voz dela muito agradável, até mesmo nos falsetes, o rouco não é estridente e é menos agudo. Na guitarra temos um índio, seu rosto estava pintado como um, achei interessante a representatividade de sua cultura no local, prova que o bar é aberto a todas raças e etnias, e além disso na sua essência, a composição da banda/dono do cavernas tem um índio, um fator de relevante observação. Para mim está foi a melhor banda da noite, gostei do toque e acima de tudo da voz da vocalista.
Vale destacar que o dono do cavernas ter uma banda tem uma certa importância no sentido de demonstrar a identidade do local, do dono, e sua essência. Além disso existe o fator de segurança em que a banda pode tocar no bar quando não houver outra, isso tampouco deixa ela como segunda opção, Total Desastre é uma excelente banda, talvez uma das melhores que passou por ali, ademais honra o compromisso de manter vivo a cultura, o local, por isso se justifica bem a colocação do cachorrão sobre sua responsabilidade quanto a isso, só se perde depois que ele morrer.
Assim terminando, voltamos para o espaço/bar para que a atração final e mais esperada fosse organizada, a banda Selvageria que é de São Paulo. Segue a foto da banda:
Figura 6 - Foto da banda Selvageria tirada pelo site O livre
Com a entrada da atração do dia, o pessoal vibrou, esta banda era a mais conhecida nacionalmente e esperada naquele dia, ela tem marcas diferenciadas das outras, segue um padrão visual de bandas hardcore punk da década de 80, diferentemente das anteriores que tem um traço mais do metal na sua visão e estilo, Selvageria vem com roupas e gestos diferenciados. No entanto na música segue à risca a descrição, thrash metal e speed metal, acho que o mais marcante é o falsete do vocalista que chega ser bem agudo e longo. Sua canção mais conhecida é trovão de aço que remete a destruição e guerra, seu som visivelmente é inspirado na banda norte-americana de thrash metal, Slayer.
De todas as bandas, essa foi a que mais interagiu com o público, enquanto a Burning in Hate falava sobre suas letras e estabelecia uma relação de amizade, e a Total Desastre demonstrava respeito e segurança no palco (típico de sua experiência ao se apresentar várias vezes ali), Selvageria tentou conquistar o publico e conhecê-lo, se apresentando e animando-a.
Enfim a banda foi a atração final do evento, realmente ela conseguiu levantar a plateia, o término do show foi por volta das 3 horas da manhã, no entanto as pessoas costumam permanecer no lugar até 5 horas bebendo e conversando, ainda ouvindo música pelo jukebox dessa vez. Eu nesse caso permaneci no local até umas 3:30 da manhã observando, porém, visto que uma boa parte do pessoal foi embora e em virtude do horário, também me retirei.
Como análise desta ultima visita, reforcei muito mais a identidade do local, a cena underground de Cuiabá, onde o Cavernas tem tido um papel provedor dessa cultura, dessa união das tribos do rock onde suas vertentes se reúnem e tornam-se uma só. A importância desses encontros faz com que a expressão de sua identidade não desapareça, tornando possível ao individuo integrar-se como participante daquele grupo, onde em locais no nosso dia-a- dia não é possível. O cavernas contempla um grupo que não é representado em maioria nos bares de Cuiabá, ele se torna opção e não exclui curiosos, pessoas que não são familiarizados com o metal e o rock.
A representatividade do local é ampla, como já foi dito é abrangente o numero de mulheres, homens, até o índio da banda do Cachorrão, todos recebido com respeito, que éo maior diferencial do lugar. Cachorrão diz ser a
música e a cerveja gelada a grande distinção do local, já eu vejo a respeitabilidade das pessoas, a tolerância e o bom atendimento o que atrai o público. Além do acolhimento que o Cavernas tem com seu cliente fiel, como já observado na ocasião em que assistiam filmes, e ocasiões que Kevin disse assistirem futebol, a união de amigos para homenagear outro que se foi. O lugar deixa de ser uma escolha de visita eventual para se tornar um happy hour, onde depois do trabalho, após uma semana cansativa, o cliente descansa e desestressa no ambiente. Destarte é explicito a importância que o Cavernas Rock Bar exerce enquanto provedor/protetor da cultura underground, sua maior qualidade como local de encontro éa imposição de respeito por qualquer um e acolhimento de seus clientes como um lugar pós trabalho, um porto de descanso e lazer.
Quarta visita Cavernas Bar, dia 21-09-2018: Visita da professora orientadora ao Cavernas Bar
Após conversarmos sobre o andamento de nosso trabalho e enviarmos nosso diário a professora, pensamos em chama-la para ir conosco neste evento no dia 21 de setembro, simpática e muito entusiasmada ela aceitou. Primeiramente quero ressaltar a importância dela ir no lugar devido a reação que o dono e as pessoas teriam para com a presença dela, afinal o dono já nos conhecia e sabia que estávamos realizando pesquisa, embora ele tivesse aceitado, percebe-se ainda o receio por parte dele quanto a exposição que poderíamos provocar. Em segundo plano, é importante a orientação que podemos obter a partir dessa visita, pois apesar de não termos uma visão senso comum, carece-nos ainda alguns conceitos antropológicos que apenas a professora poderia notar tendo estes em mente.
O evento do dia era Rock e Blues, segue o banner do mesmo:
Figura 7 - Evento Rock e Blues - Foto extraída do facebook do Cavernas
Chegamos no local por volta das 22:30 horas e já se encontrava com uma quantidade considerável de pessoas, principalmente do lado de fora, havia uma grande quantidade já sentado em volta de mesas e alguns até mesmo em pé do outro lado. Percebi um certo olhar para o nosso grupo, visto que nesse dia estávamos com a professora, os funcionários principalmente, que já sabiam que estávamos fazendo trabalho, podia se notar que olhavam.
Tentamos deixar aquilo o mais natural possível, afinal não podíamos afetar o ambiente, assim, como de costume Kevin foi comprar ficha de sinuca e cerveja para jogarmos e observar, até que o show começasse de fato. Eu me senti receoso com medo do Cachorrão não receber bem a professora, Kevin já havia nos dito que ele foi comprar fichas de sinuca, e o mesmo mal olhou para seu rosto. Contudo, como já havíamos comentado que um dia traríamos a professora, isso nos deu alguma segurança de leva-la e apresentar o ambiente a ela.
Convém elucidar para como as pessoas nos olhavam por estarmos conversando com a professora, não sabiam correlacionar aquilo, não era normal o grupo de jovens falar com alguém mais experiente, a professora também se tornou alvo de olhares por não estar vestida igual aos do ambiente, muitos passavam e ficavam observando, até pelo fato dela estar com mochila, aquilo de nenhuma forma era familiar a aquelas pessoas. Lembro-me da professora nos dizer que ela teve que cumprimentar uma pessoa de tanto que esta olhou para ela.
Dito isso, destaco para as observações que farei desse dia de visita ao redor da professora, visto que para o pessoal do cavernas, era ela a diferente. Já aproveitando para dizer que além desses olhares para o novo ali, presenciamos algo importante, a receptibilidade que as mulheres têm para com as outras. Quando estávamos ainda no bar, uma mulher convidou a professora para tomar uma bebida, é interessante essa união que o gênero tem, pois diferentemente de nós homens que já havia ido 3 vezes no cavernas, não ocorreu este convite. Isto com a professora não ocorreu só uma vez, quando estávamos no espaço/show e a professora dançava, uma outra mulher falou com ela oferecendo bebida, provando que as mulheres do cavernas são muito mais receptivas entre elas do que os homens são entre eles.
O que pode-se notar de diferente neste dia foi as vestimentas, diferentemente do ultimo evento, nesse dia as pessoas se vestiam menos extremo, muitos dali estavam vestido como nós, como alguém que vai apenas numa festa, não era tão extremo quanto da última, não me senti diferente, contudo haviam alguns que estavam caracteristicamente vestidos a moda Rock N’ Roll.
No momento que começou a tocar, a banda daquele dia foi Os Canalhas, o pessoal curtia o som parado mesmo e observando, comparando-se ao evento anterior a este que fomos, nesse dia as pessoas não dançaram (bateram cabeça) como naquele dia, no Rock N’ Roll e Blues acontece da pessoa prestar mais atenção aos acordes da música e curtir, do que dançar. A banda cantou músicas conhecidas como Sympathy for the Devil (Empatia pelo Diabo) dos Rolling Stones e algumas da famosa banda Led Zeppelin
A banda interagia com o público, perguntava se nós queríamos mais música, e apresentava a próxima canção. É importante destacar a variedade de publico do cavernas, de como se diferencia de um evento para outro, e como a identidade de cada publico é reafirmada dependendo da vertente que estará tocando no dia. Isso demonstra a diversidade que o rock e o metal unem, e que apesar de serem parecidos e terem alguma relação, há muitas características dos seus públicos que se divergem.
Depois de algum tempo ouvindo a banda no espaço/show voltamos para o lado de fora, pois, apesar de gostar daquelas músicas, o som é tão potente que passado algum momento fica pesado de escutar. Lembro-me da professora nos dizer que o cavernas não é simplesmente um lugar que as pessoas vão para escutar música, é um lugar para se vivenciar esse estilo, as pessoas vão ali para se encontrar, o rock e o metal é mais que um gênero, há aqueles que ouvem mas não vivenciam, contudo aquelas pessoas são nitidamente parte desse show e está ali para manter essa cultura viva, trocando suas vivencias umas com as outras.
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