Diário de Campo
Eliane Botelho de Arruda
Primeiro dia da festa de Santo Antônio do
Pedregal
No primeiro dia de festa estava muito frio mesmo assim pude
observar o quanto as pessoas estavam animadas, teve jantar, barracas de
guloseimas, quadrilha e um breve relato do senhor Florentino sobre como era a
festa antigamente e como acontece nos dias atuais, ele disse que chegou no
bairro Pedregal em mil novecentos e setenta e nove e de início se envolveu com
a comunidade católica para participar da festa do padroeiro do bairro,
antigamente a festa era cheia de pessoas mas com o passar dos anos foi diminuindo
o número das pessoas devido a mudanças na coordenação a cada quatro anos, com
isso há desavenças quanto a organização da festa.
Entrevista com a senhora Elenice
Conversamos com a senhora Elenice que nos relatou como
funciona a trezena onde treze famílias são sorteadas para receber a trezena,
essas trezes famílias ajudam com os materiais e mão de obra para a organização
da festa, cada família recebe a visita do Santo que passa o dia e a noite na
casa de cada família. Teve um ano que o padre proibiu bebida alcoólica na festa
devido a brigas e com isso diminuiu a quantidade de pessoas, essa proibição foi
apenas um ano, o baile acontece no sábado que enche de gente, domingo encerra a
festa com um bingo e almoço, todos os demais dias tem barraca de comida, bebidas,
brechó, açaí e pula-pula, Dona Elenice participa da festa há muitos anos, mas
como festeira apenas quatro anos, ela diz que se sente emocionada ao ir na casa
das pessoas e ouvir as promessas cumpridas pelo santo, ela relato que foi o
senhor Vilson que trouxe a imagem para a
igreja e que na época precisou ser restaurada.
Entrevista com o Senhor Vilson Toze
O senhor Vilson contou sobre o começo dos trabalhos na
comunidade e percebi o quanto ele fica emocionado ao relembrar como tudo
iniciou, a comunidade começou com ele em 07 de maio de 1976, quando chegou ao
bairro haviam nove famílias. Morou numa barraca durante dois meses, barraca que
ganhou do Coronel Meireles. A prefeitura regulou os lotes por meio do senhor
Vilson. O exército ia derrubar as barracas, mas Garcia Neto, governador da
época interveio e impediu. No mesmo período o bairro Alvorada passava pela
mesma situação, Rodrigues Palmas, prefeito, e Frederico Muller, engenheiro,
prometeram maquinários para fazer demarcação dos lotes e abrir as ruas. A área
tinha dono e a possibilidade de desapropriação era grande, as casas eram todas
feitas de madeiras. O padre Emílio da paróquia do Rosário trazia pão seco para
distribuir aos moradores. Nessa parte do relato fiquei emocionada em estar
diante de um senhor que conheceu pessoas que fizeram parte da história de Mato
Grosso o senhor Vilson nos disse que o início da comunidade cristã, nesse período, se
deu com a chegada do padre Teodoro à comunidade, onde as primeiras missas foram
na casa do senhor Vilson, que já participava de um movimento religioso de
Jaciara, e assim foi instituído presidente da comunidade cristã, e seu irmão,
coordenador.
O padre Teodoro deu assistência no aprendizado como
coordenador, outras pessoas da igreja São Judas Tadeu também foram para ensinar
senhor Vilson, levando lampião para começar os trabalhos da igreja, os ex
moradores do bairro Quarta-Feira também foram, com isso formaram o grupo de
jovens.
Senhor Vilson
trabalhou na UFMT e conheceu alunos do projeto Rondon, esses alunos ajudavam a
comunidade. A igreja continuou na porta da casa dele, que foi feita de lona. O
local lotava de pessoas, na época, não havia um livro caixa e nem dízimo, então
não havia um controle do dinheiro que entrava. O dono de uma madeireira se
propôs a dar material para fazer a igreja, então Sr. Vilson foi até a
prefeitura pedir o lote para construção, após três anos a igreja estava pronta,
onde teve o nome de “Santo Antônio” escolhido pelo Sr. Vilson. O padre Teodoro
deu o nome do bairro de Pedregal pois havia muitas pedras no local. A festa foi
feita no centro comunitário e o dinheiro foi para terminar o que restava.
Incialmente, a festa durava apenas um dia, depois passou a durar dois dias,
sábado e domingo.
Para Sr. Vilson, ser chamado de presidente significava algo
que exaltava a pessoa e ele não gostava, pois ele pensava que o termo
‘presidente’ não era sinônimo de humildade. Então, ele sugeriu que chamassem os
líderes de coordenadores. Os gastos com alto falantes e pilhas eram muito
altos.
No começo, a novena tinha duração de cinco dias, passando
depois a ser de quinta a domingo. A festa tinha participação da comunidade com
missas todos dias, não havia bingos, mas tinha muitas prendas, bebidas, etc. Posteriormente,
os dias de festa diminuíram devido a mudança nos coordenadores. Devido ao
crescimento do bairro, tiveram que mudar de paróquia.
Em 1985, passou a novena para trezena (13 casas), visitar a
casa dos treze moradores, onde o Espírito Santo é quem dirige e envia para as
casas desses moradores. É contada a história de Santo Antônio, a oração começa
na casa e o terço é na caminhada no dia de Santo Antônio, depois vão para
igreja. Dona Maria, 60 anos, presente no dia da entrevista, relata que o santo
não faz milagres, mas intercede pelos fiéis.
O bispo Dom Bonifácio ficou sabendo da intenção dos fiéis
em construir a igreja de tijolos e pediu verba da Alemanha, a verba veio apenas
para construção e não para a mão de obra, então os fiéis construíram a igreja
com a ajuda dos homens e mulheres da comunidade. Porém, a igreja não tinha o
santo, no bairro Araés havia um centro de terreiro e eles tinham uma imagem
deformada do santo e assim o Sr. Vilson que trabalhava na UFMT conheceu uma
pessoa que restaurava a imagem, Dona Terezinha, fez o pedido para o material de
restauração e a mão de obra foi concedida. A imagem pesava 50 kg e foi trazida
do Araés até o Pedregal. Dona Terezinha, Dona Lourdes e Sr. Vilson levaram a
imagem para igreja e consagraram. A
igreja ficou como o bispo Dom Bonifácio havia pedido.
O sentimento de Sr. Vilson é de alegria de ter contribuído
por todos esses anos, e até hoje ele é ministro da palavra. Ele relata os
milagres após as orações que são feitas. Dona Maria também diz ter sentimento
de alegria, pois desde Minas Gerais ela já fazia os trabalhos e deu
continuidade aqui em Mato Grosso, ela relata também os milagres recebidos por
meio das orações. Para ela, quando sai com a imagem não é adorar e sim uma
peregrinação, a imagem apenas representa a fé deles.
Entrevista com o senhor Florentino de
Miranda
O senhor Florentino é uma pessoa
experiente e fiquei horas ouvindo sobre
como ele e os filhos começaram a participar da organização dos festejos
de Santo Antônio, foi em 29 de março de 1979, ano em que mudou para o bairro,
havia quatro noites de festas, quinta a domingo, com bingos, quentão, salgados
e pessoas que trabalhavam na cozinha. O coordenador, Sr. Júlio, do bispo Dom
Bonifácio, fazia grupos para cada dia da festa, ao final da festa cada um tinha
uma função na organização de limpeza, caixa, etc. Aos sábados a festa se
prolongava mais que nos dias anteriores. A rua frente à igreja era fechada para
a festa acontecer. No domingo havia missa pela manhã, e ao final da festa os
coordenadores faziam um balanço de tudo que havia sido feito, cada coordenador
trabalhava de uma forma.
Houve um ano que tiraram a bebida
alcoólica da festa, pois o coordenador Júlio disse que na igreja não era lugar
de bebidas, com isso, a festa não teve muita renda, assim foram durante dois
anos. Posteriormente veio outro coordenador que tirou um dia de festa, passando
a ser de sexta a domingo. O domingo passou a ter almoço e bingo e não mais os
grupos de apoio que haviam antes. As pessoas de hoje em dia não participam da
organização da festa, porém o Sr. Florentino ainda sim trabalha. Antigamente os leilões duravam quatro dias, e
as pessoas podiam levar prendas como frango assado, leitão recheado, etc. Hoje
em dia os leilões não ocorrem mais.
Na década de 90 o muro da igreja caiu e foi preciso
reconstruir, assim o fizeram. A festa ocorria na parte de frente da igreja e o
baile aos fundos, assim não havia interação entre as duas partes. Cada pessoa
que doava uma prenda era identificada para ser falado durante o bingo, se ninguém
arrematasse a prenda a pessoa que doou era obrigada a arrematar a prenda. O Sr.
Florentino relata que leva sua prenda durante a festa, mas não está sendo
leiloada e a coordenação não explica qual destino deram a prenda.
O Sr. Florentino ainda traz definições de novenário e
festeiro, sendo novenário a pessoa que leva a prenda e festeiro o que organiza
a festa. Ele se diz novenário e festeiro. Hoje em dia, há bebidas alcoólicas
nas festas pois são a maior fonte de renda da festa, há ainda, bingos e
quadrilhas. Não há mais leilões por falta de leiloeiros e falta de prendas. Não
há exigências para ser leiloeiro. Ele diz ainda que a falta de pessoas na
organização se dá por falta de motivação e também de direção.
Nos últimos vinte anos a festa tem enfraquecido, todo ano
são visitadas treze casas para fazer a trezena, essas pessoas já são escolhidas
no primeiro dia após a missa e sai com andar nas treze casas até chegar a
igreja. No dia 13 de junho acontece a missa na igreja. Toda renda da festa vai
para a igreja e paróquia, por fim, Sr. Florentino relata que as pessoas da
geração dele já estão de idade e não conseguem fazer as mesas coisas de antes.
Ao final desse trabalho posso me considerar outra pessoa, com uma visão
mais ampla em relação a religiosidade das pessoas, a experiência que tive ao
ouvir relatos de fé e de como elas se
dedicam a essa festa há décadas me fez pensar
como somos intolerantes com quem não partilha da mesma fé, essa devoção
ao Santo faz com que eles se emocionem ao falar dele e o brilho em seus olhos é
perceptível, esse trabalho me encheu de alegria e gratidão porque pude conhecer
pessoas maravilhosas e de um jeito que jamais imaginei
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