quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Festa de Santo Antonio, Bairro Pedregal

Diário de Campo 

Eliane Botelho de Arruda
Primeiro dia da festa de Santo Antônio do Pedregal
No primeiro dia de festa estava muito frio mesmo assim pude observar o quanto as pessoas estavam animadas, teve jantar, barracas de guloseimas, quadrilha e um breve relato do senhor Florentino sobre como era a festa antigamente e como acontece nos dias atuais, ele disse que chegou no bairro Pedregal em mil novecentos e setenta e nove e de início se envolveu com a comunidade católica para participar da festa do padroeiro do bairro, antigamente a festa era cheia de pessoas mas com o passar dos anos foi diminuindo o número das pessoas devido a mudanças na coordenação a cada quatro anos, com isso há desavenças quanto a organização da festa.

Entrevista com a senhora Elenice
Conversamos com a senhora Elenice que nos relatou como funciona a trezena onde treze famílias são sorteadas para receber a trezena, essas trezes famílias ajudam com os materiais e mão de obra para a organização da festa, cada família recebe a visita do Santo que passa o dia e a noite na casa de cada família. Teve um ano que o padre proibiu bebida alcoólica na festa devido a brigas e com isso diminuiu a quantidade de pessoas, essa proibição foi apenas um ano, o baile acontece no sábado que enche de gente, domingo encerra a festa com um bingo e almoço, todos os demais dias tem barraca de comida, bebidas, brechó, açaí e pula-pula, Dona Elenice participa da festa há muitos anos, mas como festeira apenas quatro anos, ela diz que se sente emocionada ao ir na casa das pessoas e ouvir as promessas cumpridas pelo santo, ela relato que foi o senhor Vilson que trouxe a imagem  para a igreja e que na época precisou ser restaurada.

Entrevista com o Senhor Vilson Toze
 O senhor Vilson  contou sobre o começo dos trabalhos na comunidade e percebi o quanto ele fica emocionado ao relembrar como tudo iniciou, a comunidade começou com ele em 07 de maio de 1976, quando chegou ao bairro haviam nove famílias. Morou numa barraca durante dois meses, barraca que ganhou do Coronel Meireles. A prefeitura regulou os lotes por meio do senhor Vilson. O exército ia derrubar as barracas, mas Garcia Neto, governador da época interveio e impediu. No mesmo período o bairro Alvorada passava pela mesma situação, Rodrigues Palmas, prefeito, e Frederico Muller, engenheiro, prometeram maquinários para fazer demarcação dos lotes e abrir as ruas. A área tinha dono e a possibilidade de desapropriação era grande, as casas eram todas feitas de madeiras. O padre Emílio da paróquia do Rosário trazia pão seco para distribuir aos moradores. Nessa parte do relato fiquei emocionada em estar diante de um senhor que conheceu pessoas que fizeram parte da história de Mato Grosso o senhor Vilson nos disse que o  início da comunidade cristã, nesse período, se deu com a chegada do padre Teodoro à comunidade, onde as primeiras missas foram na casa do senhor Vilson, que já participava de um movimento religioso de Jaciara, e assim foi instituído presidente da comunidade cristã, e seu irmão, coordenador.
O padre Teodoro deu assistência no aprendizado como coordenador, outras pessoas da igreja São Judas Tadeu também foram para ensinar senhor Vilson, levando lampião para começar os trabalhos da igreja, os ex moradores do bairro Quarta-Feira também foram, com isso formaram o grupo de jovens.
Senhor  Vilson trabalhou na UFMT e conheceu alunos do projeto Rondon, esses alunos ajudavam a comunidade. A igreja continuou na porta da casa dele, que foi feita de lona. O local lotava de pessoas, na época, não havia um livro caixa e nem dízimo, então não havia um controle do dinheiro que entrava. O dono de uma madeireira se propôs a dar material para fazer a igreja, então Sr. Vilson foi até a prefeitura pedir o lote para construção, após três anos a igreja estava pronta, onde teve o nome de “Santo Antônio” escolhido pelo Sr. Vilson. O padre Teodoro deu o nome do bairro de Pedregal pois havia muitas pedras no local. A festa foi feita no centro comunitário e o dinheiro foi para terminar o que restava. Incialmente, a festa durava apenas um dia, depois passou a durar dois dias, sábado e domingo.
Para Sr. Vilson, ser chamado de presidente significava algo que exaltava a pessoa e ele não gostava, pois ele pensava que o termo ‘presidente’ não era sinônimo de humildade. Então, ele sugeriu que chamassem os líderes de coordenadores. Os gastos com alto falantes e pilhas eram muito altos.
No começo, a novena tinha duração de cinco dias, passando depois a ser de quinta a domingo. A festa tinha participação da comunidade com missas todos dias, não havia bingos, mas tinha muitas prendas, bebidas, etc. Posteriormente, os dias de festa diminuíram devido a mudança nos coordenadores. Devido ao crescimento do bairro, tiveram que mudar de paróquia.
Em 1985, passou a novena para trezena (13 casas), visitar a casa dos treze moradores, onde o Espírito Santo é quem dirige e envia para as casas desses moradores. É contada a história de Santo Antônio, a oração começa na casa e o terço é na caminhada no dia de Santo Antônio, depois vão para igreja. Dona Maria, 60 anos, presente no dia da entrevista, relata que o santo não faz milagres, mas intercede pelos fiéis.
O bispo Dom Bonifácio ficou sabendo da intenção dos fiéis em construir a igreja de tijolos e pediu verba da Alemanha, a verba veio apenas para construção e não para a mão de obra, então os fiéis construíram a igreja com a ajuda dos homens e mulheres da comunidade. Porém, a igreja não tinha o santo, no bairro Araés havia um centro de terreiro e eles tinham uma imagem deformada do santo e assim o Sr. Vilson que trabalhava na UFMT conheceu uma pessoa que restaurava a imagem, Dona Terezinha, fez o pedido para o material de restauração e a mão de obra foi concedida. A imagem pesava 50 kg e foi trazida do Araés até o Pedregal. Dona Terezinha, Dona Lourdes e Sr. Vilson levaram a imagem para igreja e consagraram.  A igreja ficou como o bispo Dom Bonifácio havia pedido.
O sentimento de Sr. Vilson é de alegria de ter contribuído por todos esses anos, e até hoje ele é ministro da palavra. Ele relata os milagres após as orações que são feitas. Dona Maria também diz ter sentimento de alegria, pois desde Minas Gerais ela já fazia os trabalhos e deu continuidade aqui em Mato Grosso, ela relata também os milagres recebidos por meio das orações. Para ela, quando sai com a imagem não é adorar e sim uma peregrinação, a imagem apenas representa a fé deles. 

Entrevista com o senhor Florentino de Miranda
            O senhor Florentino é uma pessoa experiente e fiquei horas ouvindo sobre  como ele e os filhos começaram a participar da organização dos festejos de Santo Antônio, foi em 29 de março de 1979, ano em que mudou para o bairro, havia quatro noites de festas, quinta a domingo, com bingos, quentão, salgados e pessoas que trabalhavam na cozinha. O coordenador, Sr. Júlio, do bispo Dom Bonifácio, fazia grupos para cada dia da festa, ao final da festa cada um tinha uma função na organização de limpeza, caixa, etc. Aos sábados a festa se prolongava mais que nos dias anteriores. A rua frente à igreja era fechada para a festa acontecer. No domingo havia missa pela manhã, e ao final da festa os coordenadores faziam um balanço de tudo que havia sido feito, cada coordenador trabalhava de uma forma.
            Houve um ano que tiraram a bebida alcoólica da festa, pois o coordenador Júlio disse que na igreja não era lugar de bebidas, com isso, a festa não teve muita renda, assim foram durante dois anos. Posteriormente veio outro coordenador que tirou um dia de festa, passando a ser de sexta a domingo. O domingo passou a ter almoço e bingo e não mais os grupos de apoio que haviam antes. As pessoas de hoje em dia não participam da organização da festa, porém o Sr. Florentino ainda sim trabalha.  Antigamente os leilões duravam quatro dias, e as pessoas podiam levar prendas como frango assado, leitão recheado, etc. Hoje em dia os leilões não ocorrem mais.
Na década de 90 o muro da igreja caiu e foi preciso reconstruir, assim o fizeram. A festa ocorria na parte de frente da igreja e o baile aos fundos, assim não havia interação entre as duas partes. Cada pessoa que doava uma prenda era identificada para ser falado durante o bingo, se ninguém arrematasse a prenda a pessoa que doou era obrigada a arrematar a prenda. O Sr. Florentino relata que leva sua prenda durante a festa, mas não está sendo leiloada e a coordenação não explica qual destino deram a prenda.
O Sr. Florentino ainda traz definições de novenário e festeiro, sendo novenário a pessoa que leva a prenda e festeiro o que organiza a festa. Ele se diz novenário e festeiro. Hoje em dia, há bebidas alcoólicas nas festas pois são a maior fonte de renda da festa, há ainda, bingos e quadrilhas. Não há mais leilões por falta de leiloeiros e falta de prendas. Não há exigências para ser leiloeiro. Ele diz ainda que a falta de pessoas na organização se dá por falta de motivação e também de direção.
Nos últimos vinte anos a festa tem enfraquecido, todo ano são visitadas treze casas para fazer a trezena, essas pessoas já são escolhidas no primeiro dia após a missa e sai com andar nas treze casas até chegar a igreja. No dia 13 de junho acontece a missa na igreja. Toda renda da festa vai para a igreja e paróquia, por fim, Sr. Florentino relata que as pessoas da geração dele já estão de idade e não conseguem fazer as mesas coisas de antes.
Ao final desse trabalho posso me considerar outra pessoa, com uma visão mais ampla em relação a religiosidade das pessoas, a experiência que tive ao ouvir relatos de fé e de como elas  se dedicam a essa festa há décadas me fez pensar  como somos intolerantes com quem não partilha da mesma fé, essa devoção ao Santo faz com que eles se emocionem ao falar dele e o brilho em seus olhos é perceptível, esse trabalho me encheu de alegria e gratidão porque pude conhecer pessoas maravilhosas e de um jeito que jamais imaginei

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