A festa na Casa Beira Rio
Diário de Campo 08/10/2018
Nicolas Alexandre Amorim dos Santos
Era uma tarde como
qualquer outra, mas que a utilizamos para nos preparar para a ida à uma festa. Havia,
além de mim, mais quatro pessoas, integrantes do grupo que iriam realizar a
atividade como uma tarefa do curso de antropologia. Como uma estrepolia dos
mórbidos dias e do lânguido estado que percorre fases de minha vida e de meu
ser, o meu todo apresentou-se-me como que dessemelhante diante daquela
atividade antropológica de conhecer o diferente.
Da tarde veio o momento
crepuscular do dia. Quando todos estavam prontos, decidimos pegar um Uber, isso
é, pegar uma carona com um motorista que, por meio da tecnologia de seu
celular, recebe uma chamada de pessoas que estão próximas dele e que ele se dispõe
a levar a um determinado lugar. Uma espécie de motorista particular, a maneira
de um táxi, mas com suas devidas peculiaridades. Enfim pegamos e chegamos demasiado
cedo na festa e no caminho íamos escutando um pagode de uma rádio local e fui
discutindo sobre música com uma das pessoas do grupo de estudantes que estava
ao meu lado. O assunto foi mudando e, logo, estávamos mais próximos do local da
festa, na Casa Rio, no bairro cuiabano de Beira Rio.
Enfim chegamos e ouvi
alguns comentários sobre possibilidades de chuvas e fomos interagindo enquanto aguardávamos
as pessoas da festa nos receberem na portaria. Comentários eram proferidos para
que não houvesse tanto silêncio e eu até recitei algumas canções, devido ao
assunto sobre música surgir subitamente. Eis que então, entramo-nos todos ao
recinto. Era um espaço bem grande, de um aspecto colonial, “provavelmente”,
pensei, “escravos já haviam vivido por aqui”. Algumas luzes estavam sendo
testadas, juntamente com o som. Nós estávamos conhecendo o ermo de todo o
casarão que em pouco tempo haveria de ser preenchido, o que de fato aconteceu,
consumando as nossas expectativas.
Os responsáveis pela
festa nos receberam, estavam se distraindo um pouco, antes da festa começar,
assistindo um programa de televisão. Em meio a uma enorme e turbulenta cidade,
tudo pode acontecer e está acontecendo, assim como na minha mente e na vida.
Tudo muito rápido, subitamente rápido, mas ao mesmo tempo, lento, estranha e
inexplicavelmente lenta.
Fizemos uma pequena
entrevista sobre a visão dos organizadores, a respeito daquilo que é organizado
por eles. No começo, houve um certo receio, mas depois, se abriram mais. Vendo
que estava tudo tranquilo, não havendo nada a se preocupar, agiram todos,
então, amigavelmente. Ficamos sabendo da história do casarão e a minha
suspeita, relativa a escravidão e o local, estava certa. Findada a entrevista,
eles foram para uma reunião e ficamos à vontade para esperarmos a festa.
Não demorou para surgir
um ingurgitamento de uma fila, devido ao fato de, até um certo horário, a
entrada ser gratuita. Foi, aos poucos, chegando gente e ajeitando-se em um
determinado canto. Alguns estavam com um semblante revelador de cansaço, seja
por virem do trabalho ou de alguma uma aula ou do percurso realizado para ali
estarem. Todos de acordo, contudo, que ali era lugar para esquecer o cotidiano,
deixar de lado aquele todo corriqueiro construtor de cansaço. Ali poderiam ser
o que bem são ou querem ser, mas que algo impedia serem fora dali. Haveriam de
relaxar, entregarem-se a catarse e beijarem quem há de aceitar o beijo, com
respeito, obviamente.
Havia um público variado
de pessoas, mas a predominância era de um público denominado “alternativo”, por
possuir um estilo mais excêntrico. Alguns trouxeram suas próprias bebidas. Meu
grupo fez isso, mas pediu sanduíches ali dentro. Estavam à vontade, tranquilos,
curtindo o que já dizia Horácio: “Carpe Diem”, o que quer dizer, “Cultives o
Dia”.
A noite se estendia e com ela o número de
pessoas, procedentes de diversos grupos sociais, mas com uma certa
predominância de um público LGBTQ, pois as festas na Casa Rio, atendem mais tal
público. Vendo as pessoas, a cultura carregada nelas, a cultura que se criava
ali, poderia entender boas coisas da sociedade e miscigenação desse mundo
globalizado. Em minha mente surgem também momentos reminiscente de como as
festas eram em épocas passadas, de uma região do mundo para outro, de uma
comunidade para outra, desde os Romanos até as Raves do século XXI. Eis que me
surge uma reflexão: “A profundidade sempre está escondida no todo, andando
sorrateiramente, olhando os cantos e recantos da realidade, de soslaio.
Deixando os olhos e mentes curiosas, demasiadamente agitadas. Qual a criança,
repleta de candura e ávida a receber um docinho”.
A festa fluiu; encontrei conhecidos. Os integrantes e eu fizemos algumas perguntas para as
pessoas, que acharam um tanto insólito alguém lhes interrogar. Houve reclamações a respeito do público heterossexual que, presunçosamente, acha-se
no direito de importunar as pessoas para um beijo ou algo do tipo, havendo,
lastimavelmente, vários relatos de assédio.
Ficamos depois, livres
para desfrutarmos da experiência de estar ali como aquelas pessoas, não mais
como alguém que está analisando e interrogando, apenas nos deixamos levar pelas
músicas, as pessoas e o ambiente. Deixamos fluir, experienciamos a catarse até
por volta das 4 horas da madrugada e fomos, eu e mais uma integrante, dormir na
casa do namorado de um outro. Vimos muito de uma outra parte da realidade, das
pessoas, da busca do deleite, da falta de preocupações com o vindouro e
findado. Havia diversão e tranquilidade.
Regressado, no outro dia
para minha casa, ao relembrar de tudo o que sucedera, conclui a experiência
refletindo sobre as pessoas e suas histórias, o cotidiano de cada um, surgindo
então, um pensamento: Se há tantas coisas que sucede a alguém, imaginemos,
então, a um aglomerado! O que dizer, assim, da história da humanidade? A vida é
um amontoado de histórias e experiências das mais diversas, para todas as
preferências, desde a mais boba e inocente até a tragédia. Cada uma diferente
com algumas semelhanças, de uma complexidade incomensurável. A história da
famigerada humanidade é, talvez, a dos conhecimentos advindos de experiências,
todas limitando-se a uma determinada circunstância que épocas vindouras lhes
darão suas devidas qualidades e defeitos. Assim como os indivíduos dão aos
outros seus atributos respectivos a imagem de que cada um tem, sobre cada um.
É parte da experiência de observação participante o registro das impressões do pesquisador. Contudo, essas pré noções devem ser sobre o impacto das vivências sobre o autor e não puramente subjetivas. O diário deve conter descrições o mais objetivas possível do que foi observado, considerando variáveis como localização, horário, clima psicológico, como relativo ao tempo atmosférico. Atentar-se, sobretudo, para indicadores como sexo, gênero, classe etária, classe social, estilo de vida dos frequentadores. O diário deve ser exaustivo em detalhes, pois algo que pode não fazer sentido em momento, em outro, poderá ser fundamental para uma interpretação da cena.
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