Diário de Campo
Rafael Perin dos Reis
Por
desencontros de datas e conversações entre os membros do grupo de pesquisa de
campo erigido para satisfazer a principal proposta avaliativa da disciplina de
Antropologia Urbana (inserida no contexto do semestre letivo 2018/1 do curso de
Ciências Sociais da UFMT Campus Cuiabá),
não pude participar dos festejos de Santo Antônio do Pedregal que ocorreram
entre os meses de maio e junho de 2018. Frente ao exposto, propusemos aos
colegas do grupo a realização de entrevistas com alguns atores da festividade
em análise, os quais nos fossem acessíveis através da intermediação de um dos
nossos membros, que acabou por incorporar o papel de “informante nativo” (por
ser moradora do bairro e participante da comunidade religiosa católica de tal
localidade há várias décadas). Sendo assim, empreendemos a primeira rodada de
entrevistas no dia 08 de setembro de 2018 (Sábado), das 14:00h as 16:00h
(aproximadamente), com quatro moradores do bairro do Pedregal, localizado na cidade
de Cuiabá/MT.
Marcamos como ponto de encontro dos
membros do grupo e de realização de duas entrevistas o pequeno espaço aberto em
frente à Capela de Santo Antônio do Pedregal (inserida na jurisdição
eclesiástica da Paróquia Sagrada Família e concomitantemente da Arquidiocese de
Cuiabá), no qual deveriam estar todos os envolvidos às 14:00h. No translado até
a chegada ao destino combinado, deparo-me com um detalhe da paisagem urbana que
tipifica os dilemas das diferenças nos modos de vida e de ocupação dos espaços
citadinos nas sociedades contemporâneas.
Seguindo
pela Avenida Archimedes Pereira Lima (mais conhecida como Estrada do Moinho),
no sentido Coxipó – Av. Miguel Sutil, um pouco antes de adentrar em certa rua à
direta da mesma para ter acesso ao bairro do Pedregal, visualizo no lado
esquerdo da via em questão dois grandes conjuntos de condomínios verticais
(provavelmente acessíveis apenas à parcela populacional pertencente às classes
econômicas média-alta e alta). Em uma mesma imagem, dois modelos de urbanização
conflitantes e coexistentes na totalidade social brasileira: à direita, uma
comunidade estruturada por habitações horizontais supostamente “precarizadas
e/ou pauperizadas” (a depender do ponto de vista analítico utilizado),
pertencentes a membros das classes populares; e a esquerda, um conjunto de
edifícios habitacionais projetado para satisfazer os anseios dos sujeitos
oriundos de classes mais abastadas economicamente, localizado em um grande
espaço “vago”. Podemos considerar que essa última característica propícia uma
maior expansão dessa modalidade de apropriação do espaço urbano. A mesma já é
realidade em bairros “elitizados” da capital mato-grossense, alguns deles também
localizados, por sinal, à esquerda da referida Avenida, que antecedem, geograficamente,
àquele que estávamos empreendendo nossa pesquisa.
Cheguei
ao local indicado às 13:30h e aguardei pela vinda dos outros envolvidos no
empreendimento “proto-etnográfico”. Perpassada por ruas de marcante “ondulação”
(sequências de subidas e descidas íngremes), a parte frontal do espaço da
Capela de Santo Antônio do Pedregal figura como uma verdadeira “praça em
miniatura”. Temos ali presente três a quatro bancos de madeira, dispostos entre
a escadaria que dá acesso ao pátio do templo e algumas árvores frondosas
dispostas na calçada. Logo à frente, um movimentado ponto de ônibus, pelo qual
os transeuntes se assentavam para aguardar a linha de transporte coletivo que
contempla o bairro ou simplesmente para conversar com algum conhecido e
“apreciar a paisagem”. Ao lado da via que passa em frente à referida igreja,
tem-se presente modelos variados de comércio (vestuário, alimentação, estética
e embelezamento etc.), com destaque para os “razoavelmente” movimentados bares
e/ou lanchonetes da região. O fluxo do trânsito era intenso, mesmo para um dia
de sábado, com carros, motos e outros veículos sempre fluindo pela via
principal.
Na área
externa da igreja, destaca-se em sua fachada uma imagem de Santo Antônio
disposta em um espaço aberto na parede, protegida do contato exterior por uma
chapa de vidro ou acrílico, acima da porta central que dá acesso ao espaço
interno da mesma. Todo o amplo terreno do templo é circunscrito por cercas
metálicas vazadas na parte da frente e por um extenso muro em suas laterais e
fundos. Por fim, os outros quatro membros do grupo (um homem e três mulheres)
acabaram chegando, juntamente com os dois primeiros entrevistados do dia: a
senhora E. B. de M. (38 anos, solteira, irmã da nossa colega “informante
nativa”) e o jovem F. (15 anos, solteiro). Ambas as entrevista com os mesmos
ocorreram no ambiente em frente à igreja da Comunidade Católica de Santo
Antônio, descrito anteriormente.
Começamos
o trabalho com a fala da senhora E. Ela relata que participa dos festejos
locais desde 2015 e a mesma pode nos repassar a atual estruturação dos mesmos.
Segundo a senhora E., a festa de Santo Antônio do Pedregal é antecedida em duas
semanas por um ritual envolvendo orações e outras práticas espirituais,
denominado “Trezena”. Através da ação da principal “benzedeira e rezadora” da
comunidade, dona M. da P., são escolhidas treze famílias para receberem a
imagem “peregrina” em suas respectivas residências. No final de maio,
realiza-se a primeira celebração religiosa específica em honra de Santo
Antônio: realiza-se uma missa sucedida pelo levantamento do mastro e pela
procissão de translado da imagem do santo (carregada em um ardor e acompanhada
pela bandeira da mesma figura sagrada) para a primeira casa escolhida para a
realização da “Trezena”. A partir daí, a imagem será levada de casa em casa até
o final dos treze dias de trabalhos espirituais. Após o décimo-terceiro dia da
“Trezena”, a imagem “peregrina” é levada de volta para o interior da igreja e a
comunidade se empenha nas práticas de oração e súplica durante,
aproximadamente, cinco dias.
Alguns
pontos sobre a dinâmica da “Trezena” podem ser destacados a partir da fala da
senhora E. Cada uma das treze famílias escolhidas para “receber o santo em
casa” devem contribuir de alguma maneira com a realização da festa de santo (ou
materialmente, como doação em dinheiro, alimentos ou produtos diversos, ou com
serviços prestados voluntariamente na organização e na execução do evento). A
escolhida dessas famílias se dá através de um pretenso “sorteio democrático,
regido pela eleição do Espírito Santo”, mas que, segundo nossa primeira
entrevistada, a voz decisória sempre é a da influente liderança comunitária, dona
M. da P. O roteiro de rezas, contendo ladainhas, terços, reflexões etc., que
são executadas na “Trezena” foi compilado em um documento impresso para
facilitar os trabalhos dos participantes. Após a exposição de tal pontuação,
pude perceber também a similaridade nas vestimentas “informais” da senhora E. e
do jovem F. Ambos estavam trajados com camisetas “oficiais” da comunidade
paroquial da Sagrada Família, contendo na parte da frente a imagem impressa de
Santo Antônio, bermudas (ou shorts) jeans e sandálias de borracha.
Segundo a senhora E., após o quinto
dia de orações com a imagem do santo na igreja, realiza-se um tríduo de missas
(sexta-feira, sábado e domingo) que é acompanhado pela execução de três dias de
festividades em comemoração a Santo Antônio do Pedregal. No período noturno
desses dias, após a realização da celebração religiosa, dá-se a execução de
atividades variadas, como: bailão noturno (na noite de sábado), bingo (na noite
de domingo), barracas de bebidas (incluindo as de teor alcoólico) e alimentos
diversos, pula-pula (em todas as noites de festejos) entre outras. A festa de
santo no bairro Pedregal iniciou-se há 40 anos, sendo que o próprio nome
oficial da localidade é, segundo a entrevistada, “Comunidade Santo Antônio do
Pedregal”. Ela relata que há alguns anos, a festa era composta por quatro dias
(incluía-se o dia de quinta-feira), porém acabou sendo reduzido para a atual
formatação pelos seguintes fatores: ocorrência de brigas e eventos de violência
nas proximidades da festa e, durante certo período, a proibição da venda de
bebidas alcoólicas, que levou a diminuição do público participante e,
consequentemente, da arrecadação do evento.
Breve foi o contato com o jovem F.,
que relatou ter participado pela primeira vez (2018) das atividades realizadas
em comemoração a Santo Antônio do Pedregal – “Trezena”, tríduo de missas e
festejos. Ele relatou que no ano de 2018 também foi a primeira ocasião em que o
grupo de jovens da comunidade participou da coordenação do evento. Tal grupo, intitulado
“Sentinelas do Amanhã”, é formado por 30 membros, entre doze e trinta anos de
idade – em média, que se reúnem todos os primeiros e terceiros domingos de cada
mês, às 17:30h. Tanto o jovem F. como à senhora E. expressaram nutrir
“sentimentos positivos frente à demonstração da fé depositada na figura do
santo”, especialmente em agradecimento as causas – “graças” – alcançadas
através de sua interseção. Por volta das 14:30h, finalizamos os trabalhos em
frente à igreja, nos despedimos do jovem F. e fomos todos (a senhora E. e os
cinco membros do grupo de pesquisa) para a residência do próximo entrevistado.
Deslocando-nos por ruas e esquinas do interior do bairro (observando em certos
locais pessoas conversando nas calçadas, grupos de homens “provavelmente”
embriagados discutindo algum assunto ao fundo e algumas crianças brincando ao
lado da via) chegamos ao local indicado e fomos recebidos pelo senhor W. T. (71
anos).
Ao entrar
na casa, pude perceber alguns elementos de cunho religioso – como crucifixos,
imagens e quadros de figuras sagradas católicas – e características das
habitações urbanas periféricas brasileiras – extenso quintal ao largo da
construção de alvenaria, construção inacabada de edícula (ou “puxadinho”) aos
fundos da residência principal etc. Fomos convidados a nos sentar à mesa
localizada aos fundos da residência, para realizar a entrevista. O senhor W.,
que nos havia recebido trajando apenas bermudas de brim e sandálias de
borracha, vagarosamente vestiu uma camisa de botão branca, retirou um rifle de
caça de cima da mesa para o por em um móvel ao lado e sentou-se para iniciarmos
os trabalhos. Destaco que a presença do inesperado elemento bélico acima citado
causou certo estranhamento e apreensão a alguns membros do grupo de pesquisa,
mas logo foi ignorado durante a transcorrência das falas.
O senhor
W. pode ser considerado um dos principais fundadores da comunidade do Pedregal,
tanto na esfera religiosa como na sociopolítica. Ele inicia seu relato dizendo
que “veio do interior de Mato Grosso para Cuiabá na data de 07 de maio de
1976”. Ele e mais oito famílias se acomodaram em estruturas habitacionais
compostas de barracas de lona, constituindo assim o “grilo” da atual região que
abriga o bairro. Através dos contatos que o Senhor W. tinha junto a
funcionários públicos da Prefeitura de Cuiabá, do Governo do Estado e da
Polícia do Exército, além de políticos da época, iniciou-se a regularização
fundiária da região. Esse processo foi marcado por conflitos e tensões ligados
as tentativas de reintegração de posse, despejo, como também pela desapropriação
dos terrenos, doação dos mesmos aos recém-chegados moradores e estruturação dos
aparelhos de serviço urbano públicos. O entrevistado relata o constante
envolvimento das lideranças comunitárias a fim de ajudarem a todos os membros
da comunidade que chegavam para assentar-se (como, por exemplo, mutirão de
coleta e distribuição de pães para as famílias mais necessitadas).
Ainda no
ano de 1976, deu-se início também a comunidade católica do Pedregal, a partir
da realização da primeira missa na casa do senhor W., com a presença do padre
da paróquia da região e de outras quarente pessoas. O entrevistado relata que
ele e sua família já participavam anteriormente de movimentos religiosos e
acabaram por se tornar os primeiros líderes da recém-formada comunidade
eclesiástica. O primeiro clérigo a prestar os serviços religiosos na região
designou que agentes de igrejas próximas (São Judas Tadeu e Nossa Senhora de
Fátima) viessem ao Pedregal para treinar as lideranças comunitárias nos
assuntos pastorais, além de ajuda-los com insumos materiais. Os fiéis católicos
eram “conclamados” a participar das celebrações religiosas na comunidade
através de um “alto-falante alimentado por pilhas”. O senhor W. afirma que
auxiliou na organização de grupos de jovens durante os anos que liderou ou
auxiliou na liderança da comunidade religiosa, além de ter contato com grupo
semelhante estabelecido na UFMT (“Grupo Rondon”). Através de suas amizades e
influências no âmbito social, político e religioso, o entrevistado fomentou a
construção do templo, durante três fases.
A
primeira estrutura erguida para estabelecer a igreja era composta de madeira e
lona. Com a ajuda de empresários e madeireiros que eram membros da Paróquia
Nossa Senhora do Carmo e certo engenheiro da Prefeitura de Cuiabá, no final dos
anos 1970 e início da década de 1980 demarcou-se o atual terreno da capela e
erigiu-se uma nova estrutura, composta de tábuas de madeira. Posteriormente, o
senhor W. relata protagonismo ao reassumir a coordenação da comunidade
religiosa e encabeçar a reestruturação do templo com “materiais” (de
alvenaria). Através da ação do bispo à época, Dom Bonifácio Piccinini, foi
disponibilizado a comunidade o projeto de engenharia e a verba para aquisição
dos materiais de construção (recurso este oriundo da Alemanha). Os moradores,
capitaneados pelas lideranças locais, se comprometeram a bancar a mão- de-obra
através da realização de mutirões para viabilizar a construção do novo
edifício. Tal mecanismo de solidariedade comunitária envolvia a todos, pois
enquanto “os homens construíam, as mulheres auxiliavam na preparação e
fornecimento de alimentos etc.”.
O senhor
W. relata que no ano de 1976 foi-se escolhido como padroeiro da igreja, através
da sugestão do próprio entrevistado, Santo Antônio e que o padre à época (Pe.
Teodoro) denominou a região com a alcunha de “pedregal”, formando-se assim a
nomenclatura da comunidade: Santo Antônio do Pedregal. Outra proposição de
autoria do entrevistado foi a modificação da nomenclatura dos cargos de
liderança na comunidade religiosa, passando de “presidente” para “coordenador”,
pois era necessário que todos os fiéis católicos se pautassem pela “humildade”
nas relações coletivas.
Também o
senhor W. proclama ter sido aquele que liderou os esforços da comunidade religiosa
para acrescentar à igreja a imagem principal de seu padroeiro (exposta na parte
superior da fachada do edifício, acima da porta central). Através de sua rede
de contatos, o entrevistado conseguiu transladar (juntamente com outros homens)
uma imagem de 60 kg de Santo Antônio, desgastada e deteriorada, de um “terreiro
do bairro Araés” até a casa de uma restauradora (dona T.). Na universidade, por
ser membro do corpo de funcionários, conseguiu o contato de tal profissional
por meio da ação de sua colega de trabalho, dona “Pretinha”. Enquanto que dona
T. ofereceu seus serviços, o senhor W. e outros membros da comunidade custearam
a aquisição dos materiais necessários ao processo de restauração, que durou
vinte dias. Após o término do serviço, a imagem foi consagrada e posta no local
que atualmente se encontra.
Nesse
mesmo sentido, o crucifixo que adorna o interior do templo, logo atrás do
altar, foi conseguido através de uma “doação” que certo candidato a cargo
político fizera, por meio da ação “mediadora” do grupo de jovens em tempos
passados. O projeto arquitetônico da igreja seguiu a risca o “gosto” de Dom
Bonifácio, sendo que existia planos para que a comunidade de Santo Antônio do
Pedregal ser elevada ao status de paróquia, que, por motivos não esclarecidos,
os mesmos acabaram por não serem concretizados. O senhor W. afirma que também
auxiliou ativamente na construção dos edifícios da escola e da associação dos
moradores do bairro, além de fomentar a organização de grupos de esporte.
No meio
da entrevista com o senhor W., entrou em cena a dona M. da P. (66 anos),
outrora citada pela primeira entrevistada que também estava sentada a mesa,
pois havia sido convidada por nossa colega “informante nativa” para falar sobre
a festa de santo estudada. Com cumprimentos típicos das formas de socialização
rurais brasileiras (“compadre e comadre”), ambos se acomodaram lado a lado e
pudemos extrair algumas informações da dona M. Ela relata que a “Trezena” foi
instituída no ano de 1985, pois anteriormente era composta por nove dias e, no
início da festa de Santo Antônio do Pedregal, se realizavam apenas cinco dias
de orações ritualísticas. Através da já citada pré-seleção “do Espírito Santo”
das treze casas a serem visitadas pela imagem “peregrina”, busca-se “abranger o
máximo possível todas as residências da comunidade”. Durante a “Trezena”,
conta-se e medita-se sobre “a vida e o exemplo de Santo Antônio” e o
“Evangelho”, além de realizar-se, durante a caminhada de uma casa escolhida
para outra, a reza do terço e de outras orações.
Movidos
pela dinâmica “do agradecimento pelas graças recebidas através do intermédio da
entidade sagrada”, uma média de trezentas a quatrocentas pessoas se reúnem na
igreja para celebrarem o dia posterior ao encerramento da “Trezena”, no qual se
translada a imagem de Santo Antônio para dentro do templo, além do restante dos
dias de oração interna e, principalmente, o tríduo de missas que precede as
festividades. Outro ponto forte levantado tanto por dona M. como pelo senhor
W., em vários momentos das entrevistas, foi o discurso “ecumênico” ligados a
polêmica dos protestantes evangélicos frente a veneração católica das imagens
sacras. Resumidamente, ambos enfatizaram que tais objetos sagrados são apenas
“lembranças, memórias e meios auxiliares” de ligar mais satisfatoriamente a fé,
a consciência e as práticas dos fiéis ao plano da
transcendência/espiritualidade. Eles também deram testemunho de seus
sentimentos positivos ligados ao “alcance de graças através da intercessão de
Santo Antônio”.
Ao
continuar sua fala principal, o senhor W. relata que a primeira festa de Santo
Antônio do Pedregal ocorreu no ano de 1980, no centro comunitário. Já em 1982,
o evento passou a ocorrer na igreja e nas ruas do entorno. A festa teve uma
média de dois dias de duração, porém houve época em que se realizavam quatro
dias de atividades (quinta-feira, sexta-feira, sábado e domingo). Os festejos
noturnos eram antecedidos pela celebração da missa do respectivo dia e sucedido
pela quermesse sendo que o ponto central das atividades se concentrava na noite
de sábado. Contínuas mudanças de coordenação, a divisão do território paroquial
em que se localizava a totalidade da comunidade católica do Pedregal entre duas
paróquias (Nossa Senhora do Rosário e Sagrada Família) e o “cansaço das
lideranças e membros da comunidade em organizar extensos festejos” provocaram a
diminuição dos dias de comemoração. Nesse mesmo sentido, o senhor W. considera
que a referida mudança nos cargos de liderança da comunidade religiosa, a diversidade,
divergência e consequente atrito entre as visões e as práticas dos grupos
pastorais, a divisão territorial paroquial e a associação de eventos de
violência, como assassinatos, com a realização da festa acabaram por modificar
tal evento, no tocante a diminuição da “intensidade de participação” da
população local.
Ao final
das entrevistas, o senhor W. e a dona M. decidiram “interceder” em benefício do
nosso grupo de pesquisa, entoando variadas orações estabelecidas no arcabouço
espiritual católico (Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória, Santo Anjo etc.), como
também preces espontâneas que visavam “atingir” a predileção dos santos (em
especial Santo Antônio) e anjos, da Virgem Maria e de Jesus Cristo pelos
entrevistadores ali presentes. Após tal apoteose, nos despedimos dos
entrevistados e regressamos a igreja. Impossibilitado de estender minha
presença para além das 16:00h, finalizei minha participação em tal
empreendimento “proto-etnográfico”.
Todavia,
o mesmo foi novamente acionado no dia 12 de setembro de 2018, entre 18:45h e
19:45h (aproximadamente), quando o grupo decidiu entrevistar o senhor F. de M.
(70 anos, pai de nossa colega “informante nativa”) em sua residência. Sua
primeira participação na festa de Santo Antônio do Pedregal ocorreu no dia 29
de março de 1979. Naquele tempo, realizavam-se quatro dias de festividades
(quinta-feira, sexta-feira, sábado e domingo). Eram dispostas barracas para
venda de produtos diversos, organizado o bingo, o leilão e o bailão. Segundo o
entrevistado, o trabalho de organização e execução do evento era dividido entre
quatro grupos, os quais cada grupo que trabalhasse em um dia poderia festejar
no dia subsequente. Cada grupo era formado por dez a doze pessoas, que ficavam
responsáveis por todos os trabalhos necessários, desde a recepção das pessoas
até a limpeza dos espaços utilizados após o encerramento da festa. O dinheiro
arrecadado recebia uma atenção especial, no tocante a grupos externos
auxiliarem os responsáveis pelo caixa a contabilizar e a transportar tal recurso
a uma “casa segura”. Tradicionalmente, o consumo de bebidas alcoólicas era
liberado e “naturalizado” na consciência e nas práticas dos moradores, mesmo
que o discurso doutrinário oficial do catolicismo tenha algumas reservas quanto
ao uso “exagerado” de tal substância. As danças e os lances do leilão ocorriam
nas ruas do entorno da igreja, que eram fechadas para a realização do evento. O
mesmo tinha início após a celebração da missa do dia (executada a partir das
18:00h) e poderia se estender até as 00:00h.
O senhor
F. também relata que, com o tempo, “as mudanças de coordenação sempre
modificavam a organização da festa”, afetando a dimensão da mesma. O fato mais
importante nesse sentido foi a assunção de um jovem coordenador da comunidade
religiosa, oriundo da vertente “carismática” do catolicismo, que impôs,
contrariando a vontade da maioria dos membros, a proibição da venda e consumo
de bebidas alcoólicas na festa. Para ele, “uma festa de igreja” não poderia
conter tal tipo de elemento. Tal circunstância fez com que, de imediato, a
participação da comunidade e os lucros angariados pelo evento diminuíssem
consideravelmente. Além disso, os conflitos de visões entre os membros antigos
e a nova geração levaram a desgastes que “desmotivaram” parte considerável do
primeiro grupo (composto, em sua maioria, por fundadores do bairro do Pedregal)
em continuar envolvidos na organização ou mesmo na participação do evento. Com
o tempo, tal realidade acabou por desencadear outras mudanças, como: diminuição
para três e, posteriormente, dois dias de festividades; encerramento do evento
logo após a realização do bingo, por volta das 20:00h; abolição da rotatividade
dos grupos de trabalho, desmobilizando e diminuindo ainda mais o número dos “festeiros”
que se propunham em contribuir livremente com seu tempo, seu trabalho e suas
doações materiais para organizar a festa; a não realização, em especial nos
dois últimos anos (2016 e 2017) do tradicional leilão, desestimulando os
chamados “novenários” a doar suas prendas em honra ao santo e incentivar
materialmente o festejo, além de praticamente extinguir o papel dos
“leiloeiros” – pessoas de elevada capacidade “carismática” que “cantavam tais
prendas ao público; a mudança da execução do bailão e de outras atividades para
a parte dos fundos do edifício religioso, praticamente não mais utilizando as
ruas ao entorno, que eram os pontos de “referência” dos participantes, pois “a
festa, antigamente, ocorria apenas na frente da igreja" entre outras.
O senhor
F. relata que acompanha a “Trezena” há três anos, descrevendo a organização da
mesma. Ele também diz ter participado ativamente na construção da igreja, ao
longo das décadas. Por fim, o mesmo reitera que a festa de Santo Antônio “é uma
grande referência nas relações sociais travadas pelos membros da comunidade” e
continua a descrever os pontos desagregadores, segundo sua visão, entre a
geração dos mais velhos e a geração dos jovens que geraram e continuar a
originar mudanças estruturais no evento. Finalizamos a entrevista e. após as
devidas despedidas, demos por encerrado nossa breve, porém intensa e
proveitosa, “experiência de campo”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário