quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Festa de Santo Antonio, Bairro Pedregal – Cuiabá/MT


Diário de Campo
Rafael Perin dos Reis
Por desencontros de datas e conversações entre os membros do grupo de pesquisa de campo erigido para satisfazer a principal proposta avaliativa da disciplina de Antropologia Urbana (inserida no contexto do semestre letivo 2018/1 do curso de Ciências Sociais da UFMT Campus Cuiabá), não pude participar dos festejos de Santo Antônio do Pedregal que ocorreram entre os meses de maio e junho de 2018. Frente ao exposto, propusemos aos colegas do grupo a realização de entrevistas com alguns atores da festividade em análise, os quais nos fossem acessíveis através da intermediação de um dos nossos membros, que acabou por incorporar o papel de “informante nativo” (por ser moradora do bairro e participante da comunidade religiosa católica de tal localidade há várias décadas). Sendo assim, empreendemos a primeira rodada de entrevistas no dia 08 de setembro de 2018 (Sábado), das 14:00h as 16:00h (aproximadamente), com quatro moradores do bairro do Pedregal, localizado na cidade de Cuiabá/MT.
            Marcamos como ponto de encontro dos membros do grupo e de realização de duas entrevistas o pequeno espaço aberto em frente à Capela de Santo Antônio do Pedregal (inserida na jurisdição eclesiástica da Paróquia Sagrada Família e concomitantemente da Arquidiocese de Cuiabá), no qual deveriam estar todos os envolvidos às 14:00h. No translado até a chegada ao destino combinado, deparo-me com um detalhe da paisagem urbana que tipifica os dilemas das diferenças nos modos de vida e de ocupação dos espaços citadinos nas sociedades contemporâneas.
Seguindo pela Avenida Archimedes Pereira Lima (mais conhecida como Estrada do Moinho), no sentido Coxipó – Av. Miguel Sutil, um pouco antes de adentrar em certa rua à direta da mesma para ter acesso ao bairro do Pedregal, visualizo no lado esquerdo da via em questão dois grandes conjuntos de condomínios verticais (provavelmente acessíveis apenas à parcela populacional pertencente às classes econômicas média-alta e alta). Em uma mesma imagem, dois modelos de urbanização conflitantes e coexistentes na totalidade social brasileira: à direita, uma comunidade estruturada por habitações horizontais supostamente “precarizadas e/ou pauperizadas” (a depender do ponto de vista analítico utilizado), pertencentes a membros das classes populares; e a esquerda, um conjunto de edifícios habitacionais projetado para satisfazer os anseios dos sujeitos oriundos de classes mais abastadas economicamente, localizado em um grande espaço “vago”. Podemos considerar que essa última característica propícia uma maior expansão dessa modalidade de apropriação do espaço urbano. A mesma já é realidade em bairros “elitizados” da capital mato-grossense, alguns deles também localizados, por sinal, à esquerda da referida Avenida, que antecedem, geograficamente, àquele que estávamos empreendendo nossa pesquisa.
Cheguei ao local indicado às 13:30h e aguardei pela vinda dos outros envolvidos no empreendimento “proto-etnográfico”. Perpassada por ruas de marcante “ondulação” (sequências de subidas e descidas íngremes), a parte frontal do espaço da Capela de Santo Antônio do Pedregal figura como uma verdadeira “praça em miniatura”. Temos ali presente três a quatro bancos de madeira, dispostos entre a escadaria que dá acesso ao pátio do templo e algumas árvores frondosas dispostas na calçada. Logo à frente, um movimentado ponto de ônibus, pelo qual os transeuntes se assentavam para aguardar a linha de transporte coletivo que contempla o bairro ou simplesmente para conversar com algum conhecido e “apreciar a paisagem”. Ao lado da via que passa em frente à referida igreja, tem-se presente modelos variados de comércio (vestuário, alimentação, estética e embelezamento etc.), com destaque para os “razoavelmente” movimentados bares e/ou lanchonetes da região. O fluxo do trânsito era intenso, mesmo para um dia de sábado, com carros, motos e outros veículos sempre fluindo pela via principal.
Na área externa da igreja, destaca-se em sua fachada uma imagem de Santo Antônio disposta em um espaço aberto na parede, protegida do contato exterior por uma chapa de vidro ou acrílico, acima da porta central que dá acesso ao espaço interno da mesma. Todo o amplo terreno do templo é circunscrito por cercas metálicas vazadas na parte da frente e por um extenso muro em suas laterais e fundos. Por fim, os outros quatro membros do grupo (um homem e três mulheres) acabaram chegando, juntamente com os dois primeiros entrevistados do dia: a senhora E. B. de M. (38 anos, solteira, irmã da nossa colega “informante nativa”) e o jovem F. (15 anos, solteiro). Ambas as entrevista com os mesmos ocorreram no ambiente em frente à igreja da Comunidade Católica de Santo Antônio, descrito anteriormente.
Começamos o trabalho com a fala da senhora E. Ela relata que participa dos festejos locais desde 2015 e a mesma pode nos repassar a atual estruturação dos mesmos. Segundo a senhora E., a festa de Santo Antônio do Pedregal é antecedida em duas semanas por um ritual envolvendo orações e outras práticas espirituais, denominado “Trezena”. Através da ação da principal “benzedeira e rezadora” da comunidade, dona M. da P., são escolhidas treze famílias para receberem a imagem “peregrina” em suas respectivas residências. No final de maio, realiza-se a primeira celebração religiosa específica em honra de Santo Antônio: realiza-se uma missa sucedida pelo levantamento do mastro e pela procissão de translado da imagem do santo (carregada em um ardor e acompanhada pela bandeira da mesma figura sagrada) para a primeira casa escolhida para a realização da “Trezena”. A partir daí, a imagem será levada de casa em casa até o final dos treze dias de trabalhos espirituais. Após o décimo-terceiro dia da “Trezena”, a imagem “peregrina” é levada de volta para o interior da igreja e a comunidade se empenha nas práticas de oração e súplica durante, aproximadamente, cinco dias.
Alguns pontos sobre a dinâmica da “Trezena” podem ser destacados a partir da fala da senhora E. Cada uma das treze famílias escolhidas para “receber o santo em casa” devem contribuir de alguma maneira com a realização da festa de santo (ou materialmente, como doação em dinheiro, alimentos ou produtos diversos, ou com serviços prestados voluntariamente na organização e na execução do evento). A escolhida dessas famílias se dá através de um pretenso “sorteio democrático, regido pela eleição do Espírito Santo”, mas que, segundo nossa primeira entrevistada, a voz decisória sempre é a da influente liderança comunitária, dona M. da P. O roteiro de rezas, contendo ladainhas, terços, reflexões etc., que são executadas na “Trezena” foi compilado em um documento impresso para facilitar os trabalhos dos participantes. Após a exposição de tal pontuação, pude perceber também a similaridade nas vestimentas “informais” da senhora E. e do jovem F. Ambos estavam trajados com camisetas “oficiais” da comunidade paroquial da Sagrada Família, contendo na parte da frente a imagem impressa de Santo Antônio, bermudas (ou shorts) jeans e sandálias de borracha.
            Segundo a senhora E., após o quinto dia de orações com a imagem do santo na igreja, realiza-se um tríduo de missas (sexta-feira, sábado e domingo) que é acompanhado pela execução de três dias de festividades em comemoração a Santo Antônio do Pedregal. No período noturno desses dias, após a realização da celebração religiosa, dá-se a execução de atividades variadas, como: bailão noturno (na noite de sábado), bingo (na noite de domingo), barracas de bebidas (incluindo as de teor alcoólico) e alimentos diversos, pula-pula (em todas as noites de festejos) entre outras. A festa de santo no bairro Pedregal iniciou-se há 40 anos, sendo que o próprio nome oficial da localidade é, segundo a entrevistada, “Comunidade Santo Antônio do Pedregal”. Ela relata que há alguns anos, a festa era composta por quatro dias (incluía-se o dia de quinta-feira), porém acabou sendo reduzido para a atual formatação pelos seguintes fatores: ocorrência de brigas e eventos de violência nas proximidades da festa e, durante certo período, a proibição da venda de bebidas alcoólicas, que levou a diminuição do público participante e, consequentemente, da arrecadação do evento.
            Breve foi o contato com o jovem F., que relatou ter participado pela primeira vez (2018) das atividades realizadas em comemoração a Santo Antônio do Pedregal – “Trezena”, tríduo de missas e festejos. Ele relatou que no ano de 2018 também foi a primeira ocasião em que o grupo de jovens da comunidade participou da coordenação do evento. Tal grupo, intitulado “Sentinelas do Amanhã”, é formado por 30 membros, entre doze e trinta anos de idade – em média, que se reúnem todos os primeiros e terceiros domingos de cada mês, às 17:30h. Tanto o jovem F. como à senhora E. expressaram nutrir “sentimentos positivos frente à demonstração da fé depositada na figura do santo”, especialmente em agradecimento as causas – “graças” – alcançadas através de sua interseção. Por volta das 14:30h, finalizamos os trabalhos em frente à igreja, nos despedimos do jovem F. e fomos todos (a senhora E. e os cinco membros do grupo de pesquisa) para a residência do próximo entrevistado. Deslocando-nos por ruas e esquinas do interior do bairro (observando em certos locais pessoas conversando nas calçadas, grupos de homens “provavelmente” embriagados discutindo algum assunto ao fundo e algumas crianças brincando ao lado da via) chegamos ao local indicado e fomos recebidos pelo senhor W. T. (71 anos).
Ao entrar na casa, pude perceber alguns elementos de cunho religioso – como crucifixos, imagens e quadros de figuras sagradas católicas – e características das habitações urbanas periféricas brasileiras – extenso quintal ao largo da construção de alvenaria, construção inacabada de edícula (ou “puxadinho”) aos fundos da residência principal etc. Fomos convidados a nos sentar à mesa localizada aos fundos da residência, para realizar a entrevista. O senhor W., que nos havia recebido trajando apenas bermudas de brim e sandálias de borracha, vagarosamente vestiu uma camisa de botão branca, retirou um rifle de caça de cima da mesa para o por em um móvel ao lado e sentou-se para iniciarmos os trabalhos. Destaco que a presença do inesperado elemento bélico acima citado causou certo estranhamento e apreensão a alguns membros do grupo de pesquisa, mas logo foi ignorado durante a transcorrência das falas.
O senhor W. pode ser considerado um dos principais fundadores da comunidade do Pedregal, tanto na esfera religiosa como na sociopolítica. Ele inicia seu relato dizendo que “veio do interior de Mato Grosso para Cuiabá na data de 07 de maio de 1976”. Ele e mais oito famílias se acomodaram em estruturas habitacionais compostas de barracas de lona, constituindo assim o “grilo” da atual região que abriga o bairro. Através dos contatos que o Senhor W. tinha junto a funcionários públicos da Prefeitura de Cuiabá, do Governo do Estado e da Polícia do Exército, além de políticos da época, iniciou-se a regularização fundiária da região. Esse processo foi marcado por conflitos e tensões ligados as tentativas de reintegração de posse, despejo, como também pela desapropriação dos terrenos, doação dos mesmos aos recém-chegados moradores e estruturação dos aparelhos de serviço urbano públicos. O entrevistado relata o constante envolvimento das lideranças comunitárias a fim de ajudarem a todos os membros da comunidade que chegavam para assentar-se (como, por exemplo, mutirão de coleta e distribuição de pães para as famílias mais necessitadas).
Ainda no ano de 1976, deu-se início também a comunidade católica do Pedregal, a partir da realização da primeira missa na casa do senhor W., com a presença do padre da paróquia da região e de outras quarente pessoas. O entrevistado relata que ele e sua família já participavam anteriormente de movimentos religiosos e acabaram por se tornar os primeiros líderes da recém-formada comunidade eclesiástica. O primeiro clérigo a prestar os serviços religiosos na região designou que agentes de igrejas próximas (São Judas Tadeu e Nossa Senhora de Fátima) viessem ao Pedregal para treinar as lideranças comunitárias nos assuntos pastorais, além de ajuda-los com insumos materiais. Os fiéis católicos eram “conclamados” a participar das celebrações religiosas na comunidade através de um “alto-falante alimentado por pilhas”. O senhor W. afirma que auxiliou na organização de grupos de jovens durante os anos que liderou ou auxiliou na liderança da comunidade religiosa, além de ter contato com grupo semelhante estabelecido na UFMT (“Grupo Rondon”). Através de suas amizades e influências no âmbito social, político e religioso, o entrevistado fomentou a construção do templo, durante três fases.
A primeira estrutura erguida para estabelecer a igreja era composta de madeira e lona. Com a ajuda de empresários e madeireiros que eram membros da Paróquia Nossa Senhora do Carmo e certo engenheiro da Prefeitura de Cuiabá, no final dos anos 1970 e início da década de 1980 demarcou-se o atual terreno da capela e erigiu-se uma nova estrutura, composta de tábuas de madeira. Posteriormente, o senhor W. relata protagonismo ao reassumir a coordenação da comunidade religiosa e encabeçar a reestruturação do templo com “materiais” (de alvenaria). Através da ação do bispo à época, Dom Bonifácio Piccinini, foi disponibilizado a comunidade o projeto de engenharia e a verba para aquisição dos materiais de construção (recurso este oriundo da Alemanha). Os moradores, capitaneados pelas lideranças locais, se comprometeram a bancar a mão- de-obra através da realização de mutirões para viabilizar a construção do novo edifício. Tal mecanismo de solidariedade comunitária envolvia a todos, pois enquanto “os homens construíam, as mulheres auxiliavam na preparação e fornecimento de alimentos etc.”.
O senhor W. relata que no ano de 1976 foi-se escolhido como padroeiro da igreja, através da sugestão do próprio entrevistado, Santo Antônio e que o padre à época (Pe. Teodoro) denominou a região com a alcunha de “pedregal”, formando-se assim a nomenclatura da comunidade: Santo Antônio do Pedregal. Outra proposição de autoria do entrevistado foi a modificação da nomenclatura dos cargos de liderança na comunidade religiosa, passando de “presidente” para “coordenador”, pois era necessário que todos os fiéis católicos se pautassem pela “humildade” nas relações coletivas.
Também o senhor W. proclama ter sido aquele que liderou os esforços da comunidade religiosa para acrescentar à igreja a imagem principal de seu padroeiro (exposta na parte superior da fachada do edifício, acima da porta central). Através de sua rede de contatos, o entrevistado conseguiu transladar (juntamente com outros homens) uma imagem de 60 kg de Santo Antônio, desgastada e deteriorada, de um “terreiro do bairro Araés” até a casa de uma restauradora (dona T.). Na universidade, por ser membro do corpo de funcionários, conseguiu o contato de tal profissional por meio da ação de sua colega de trabalho, dona “Pretinha”. Enquanto que dona T. ofereceu seus serviços, o senhor W. e outros membros da comunidade custearam a aquisição dos materiais necessários ao processo de restauração, que durou vinte dias. Após o término do serviço, a imagem foi consagrada e posta no local que atualmente se encontra.
Nesse mesmo sentido, o crucifixo que adorna o interior do templo, logo atrás do altar, foi conseguido através de uma “doação” que certo candidato a cargo político fizera, por meio da ação “mediadora” do grupo de jovens em tempos passados. O projeto arquitetônico da igreja seguiu a risca o “gosto” de Dom Bonifácio, sendo que existia planos para que a comunidade de Santo Antônio do Pedregal ser elevada ao status de paróquia, que, por motivos não esclarecidos, os mesmos acabaram por não serem concretizados. O senhor W. afirma que também auxiliou ativamente na construção dos edifícios da escola e da associação dos moradores do bairro, além de fomentar a organização de grupos de esporte.
No meio da entrevista com o senhor W., entrou em cena a dona M. da P. (66 anos), outrora citada pela primeira entrevistada que também estava sentada a mesa, pois havia sido convidada por nossa colega “informante nativa” para falar sobre a festa de santo estudada. Com cumprimentos típicos das formas de socialização rurais brasileiras (“compadre e comadre”), ambos se acomodaram lado a lado e pudemos extrair algumas informações da dona M. Ela relata que a “Trezena” foi instituída no ano de 1985, pois anteriormente era composta por nove dias e, no início da festa de Santo Antônio do Pedregal, se realizavam apenas cinco dias de orações ritualísticas. Através da já citada pré-seleção “do Espírito Santo” das treze casas a serem visitadas pela imagem “peregrina”, busca-se “abranger o máximo possível todas as residências da comunidade”. Durante a “Trezena”, conta-se e medita-se sobre “a vida e o exemplo de Santo Antônio” e o “Evangelho”, além de realizar-se, durante a caminhada de uma casa escolhida para outra, a reza do terço e de outras orações.
Movidos pela dinâmica “do agradecimento pelas graças recebidas através do intermédio da entidade sagrada”, uma média de trezentas a quatrocentas pessoas se reúnem na igreja para celebrarem o dia posterior ao encerramento da “Trezena”, no qual se translada a imagem de Santo Antônio para dentro do templo, além do restante dos dias de oração interna e, principalmente, o tríduo de missas que precede as festividades. Outro ponto forte levantado tanto por dona M. como pelo senhor W., em vários momentos das entrevistas, foi o discurso “ecumênico” ligados a polêmica dos protestantes evangélicos frente a veneração católica das imagens sacras. Resumidamente, ambos enfatizaram que tais objetos sagrados são apenas “lembranças, memórias e meios auxiliares” de ligar mais satisfatoriamente a fé, a consciência e as práticas dos fiéis ao plano da transcendência/espiritualidade. Eles também deram testemunho de seus sentimentos positivos ligados ao “alcance de graças através da intercessão de Santo Antônio”.
Ao continuar sua fala principal, o senhor W. relata que a primeira festa de Santo Antônio do Pedregal ocorreu no ano de 1980, no centro comunitário. Já em 1982, o evento passou a ocorrer na igreja e nas ruas do entorno. A festa teve uma média de dois dias de duração, porém houve época em que se realizavam quatro dias de atividades (quinta-feira, sexta-feira, sábado e domingo). Os festejos noturnos eram antecedidos pela celebração da missa do respectivo dia e sucedido pela quermesse sendo que o ponto central das atividades se concentrava na noite de sábado. Contínuas mudanças de coordenação, a divisão do território paroquial em que se localizava a totalidade da comunidade católica do Pedregal entre duas paróquias (Nossa Senhora do Rosário e Sagrada Família) e o “cansaço das lideranças e membros da comunidade em organizar extensos festejos” provocaram a diminuição dos dias de comemoração. Nesse mesmo sentido, o senhor W. considera que a referida mudança nos cargos de liderança da comunidade religiosa, a diversidade, divergência e consequente atrito entre as visões e as práticas dos grupos pastorais, a divisão territorial paroquial e a associação de eventos de violência, como assassinatos, com a realização da festa acabaram por modificar tal evento, no tocante a diminuição da “intensidade de participação” da população local.
Ao final das entrevistas, o senhor W. e a dona M. decidiram “interceder” em benefício do nosso grupo de pesquisa, entoando variadas orações estabelecidas no arcabouço espiritual católico (Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória, Santo Anjo etc.), como também preces espontâneas que visavam “atingir” a predileção dos santos (em especial Santo Antônio) e anjos, da Virgem Maria e de Jesus Cristo pelos entrevistadores ali presentes. Após tal apoteose, nos despedimos dos entrevistados e regressamos a igreja. Impossibilitado de estender minha presença para além das 16:00h, finalizei minha participação em tal empreendimento “proto-etnográfico”.
Todavia, o mesmo foi novamente acionado no dia 12 de setembro de 2018, entre 18:45h e 19:45h (aproximadamente), quando o grupo decidiu entrevistar o senhor F. de M. (70 anos, pai de nossa colega “informante nativa”) em sua residência. Sua primeira participação na festa de Santo Antônio do Pedregal ocorreu no dia 29 de março de 1979. Naquele tempo, realizavam-se quatro dias de festividades (quinta-feira, sexta-feira, sábado e domingo). Eram dispostas barracas para venda de produtos diversos, organizado o bingo, o leilão e o bailão. Segundo o entrevistado, o trabalho de organização e execução do evento era dividido entre quatro grupos, os quais cada grupo que trabalhasse em um dia poderia festejar no dia subsequente. Cada grupo era formado por dez a doze pessoas, que ficavam responsáveis por todos os trabalhos necessários, desde a recepção das pessoas até a limpeza dos espaços utilizados após o encerramento da festa. O dinheiro arrecadado recebia uma atenção especial, no tocante a grupos externos auxiliarem os responsáveis pelo caixa a contabilizar e a transportar tal recurso a uma “casa segura”. Tradicionalmente, o consumo de bebidas alcoólicas era liberado e “naturalizado” na consciência e nas práticas dos moradores, mesmo que o discurso doutrinário oficial do catolicismo tenha algumas reservas quanto ao uso “exagerado” de tal substância. As danças e os lances do leilão ocorriam nas ruas do entorno da igreja, que eram fechadas para a realização do evento. O mesmo tinha início após a celebração da missa do dia (executada a partir das 18:00h) e poderia se estender até as 00:00h.
O senhor F. também relata que, com o tempo, “as mudanças de coordenação sempre modificavam a organização da festa”, afetando a dimensão da mesma. O fato mais importante nesse sentido foi a assunção de um jovem coordenador da comunidade religiosa, oriundo da vertente “carismática” do catolicismo, que impôs, contrariando a vontade da maioria dos membros, a proibição da venda e consumo de bebidas alcoólicas na festa. Para ele, “uma festa de igreja” não poderia conter tal tipo de elemento. Tal circunstância fez com que, de imediato, a participação da comunidade e os lucros angariados pelo evento diminuíssem consideravelmente. Além disso, os conflitos de visões entre os membros antigos e a nova geração levaram a desgastes que “desmotivaram” parte considerável do primeiro grupo (composto, em sua maioria, por fundadores do bairro do Pedregal) em continuar envolvidos na organização ou mesmo na participação do evento. Com o tempo, tal realidade acabou por desencadear outras mudanças, como: diminuição para três e, posteriormente, dois dias de festividades; encerramento do evento logo após a realização do bingo, por volta das 20:00h; abolição da rotatividade dos grupos de trabalho, desmobilizando e diminuindo ainda mais o número dos “festeiros” que se propunham em contribuir livremente com seu tempo, seu trabalho e suas doações materiais para organizar a festa; a não realização, em especial nos dois últimos anos (2016 e 2017) do tradicional leilão, desestimulando os chamados “novenários” a doar suas prendas em honra ao santo e incentivar materialmente o festejo, além de praticamente extinguir o papel dos “leiloeiros” – pessoas de elevada capacidade “carismática” que “cantavam tais prendas ao público; a mudança da execução do bailão e de outras atividades para a parte dos fundos do edifício religioso, praticamente não mais utilizando as ruas ao entorno, que eram os pontos de “referência” dos participantes, pois “a festa, antigamente, ocorria apenas na frente da igreja" entre outras.
O senhor F. relata que acompanha a “Trezena” há três anos, descrevendo a organização da mesma. Ele também diz ter participado ativamente na construção da igreja, ao longo das décadas. Por fim, o mesmo reitera que a festa de Santo Antônio “é uma grande referência nas relações sociais travadas pelos membros da comunidade” e continua a descrever os pontos desagregadores, segundo sua visão, entre a geração dos mais velhos e a geração dos jovens que geraram e continuar a originar mudanças estruturais no evento. Finalizamos a entrevista e. após as devidas despedidas, demos por encerrado nossa breve, porém intensa e proveitosa, “experiência de campo”.


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