Diário de Campo
ANNA KARULLINE RIBEIRO BRANDAO
Bar de motociclistas
— Primeira
abordagem.
Ao chegar no local, em uma quarta-feira por
volta das 19:00 já se tem uma idéia do ambiente seu design externo do prédio
que além de cores fortes também se encontra diversos tipos de motos
estacionadas na entrada.
Na parte interna chama atenção pelo estilo
de música que varia entre rock e metal misturado com as cores escuras e luz
ambiente, visualmente muito agradável. As pessoas se acomodam em mesas junto
com seu grupo de amigos ou perto do balcão. Não parece ser um lugar propenso a
grandes aglomerações ou de agito, na verdade, a imagem que passou foi de um
lugar para pessoas próximas terem um momento de conversa e para beber, o que
incentiva a idéia de formar grupos por afinidade.
Ao fundo dá pra ver a parte que fica a
oficina de motos e no segundo andar está a barbearia, ambos também são
responsáveis por atrair um público mais diferenciado ao local. Ao conversar com
os freqüentadores do local as respostas não são muito diferentes, eles afirmam
freqüentar o local por ser um ambiente agradável e ter pessoas com o mesmo
estilo de vida, isso em uma mesa onde só tinha motociclista, termo usado pra
identificar o pessoal que possui motos e fazem parte desse movimento. Em outra
mesa uma pessoa que curtia o estilo de musica, a recepção e a aceitação do local
mesmo não fazendo parte do movimento. Afirma este também que não se sente
incomodado por não fazer parte do mesmo, mas que gosta de conhecer lugares
diferentes.
A primeira impressão
que o local pode passar é de ser um lugar fechado ao publico que não compactue
do mesmo estilo, mas ao adentrar e conhecer melhor é possível perceber que essa
separação, por mais que sejam perceptíveis visualmente, aqueles que são
motociclistas e os que não são então não há uma rejeição social de ambas as
partes. Alguns freqüentadores também são pessoas que moram por perto, mas
simpatizantes do movimento.
As pessoas embora
estranhassem um pouco aquela abordagem repentina num momento distraído, ainda
assim, após breves explicações do motivo das perguntas elas se mostraram mais
abertas e colaborativas. Porém, eu achei que por serem pessoas com gostos muito
parecidos, as respostas foram parecidas também e breves, então mesmo indo mais
de um dia, era como se a informação fosse limitada, pelo menos foi o que eu
senti. Talvez mais experiência na área me ajudasse a obter mais informações ou
talvez mais tempo convivendo com aquelas pessoas, como foi o caso dos
funcionários e o dono do local que após eu ter comparecido diversas vezes
(devido o dono ser muito ocupado e raramente estar presente), eu acabei ficando
mais próxima e a conversa se desenvolveu de uma forma mais natural.
Em outro dia pela manhã eu tenho uma
conversa com o dono, logo percebo que é um
negocio de família e que todos os funcionários são parentes exceto pelo pessoal
que trabalha na oficina, arrumando as motos e a barbearia no segundo andar que
é terceirizada. Todos possuem o mesmo estilo de roupa, o que me chamou atenção
embora não caracterize o estilo em si. Minha primeira pergunta é sobre de onde
surgiu a idéia de abrir um estabelecimento diferenciado, ele afirma que a idéia
em si, de juntar um bar com moto já existia fora de Cuiabá, ele apenas trouxe
com intuito de ter um lugar próprio com esse estilo e poder oferecer um espaço
assim para pessoas que se identificarem com o local. Houve um incentivo ao
começar a trabalhar com a marca Harley Davidson que gerou também esse
conhecimento de mercado necessário para abrir o negocio, possuindo assim muita
influencia da cultura americana inclusive na parte visual. Perguntei também o
estilo que predomina no local, afirmando logo que o local não se encontra em um
estilo, mas sim em um modo de vida, pois aqueles que o freqüentavam viviam
daquilo e transformam numa forma de viver o seu dia a dia, segundo o dono. E o
mesmo em certo momento repreende a frase “motoqueiros”, ingenuamente usada por
mim diversas vezes. Ele explica que hoje em dia o nome mais correto seria
“motociclistas” e que “motoqueiros” gera um pouco de preconceito, tanto para
quem escuta como pra quem faz parte do movimento que se sentem um pouco
ofendidos com essa nomenclatura.
Pergunto se pessoas com estilos
iguais se sentem mais a vontade no seu estabelecimento do que em outros lugares
aleatórios e se pessoas que não se encaixam nesses padrões se sentiria a
vontade nesse lugar. Achei importante essa pergunta porque como eu fiz esse
trabalho de forma individual, seria interessante ter uma outra visão sobre essa
questão. O dono explica que ao chegar num lugar similar e encontrar pessoas com
os mesmos interesses tanto sobre musica quanto sobre as motos eles se sentem
mais a vontade. Ele afirma que vários de seus clientes não são exatamente
desses que compartilham do mesmo estilo, mas freqüentam e se sentem muito á
vontade mesmo com um ambiente diferente do comum, sem se sentirem excluídos ou
algo do tipo. Assegura também que não há nenhum tipo de repressão ou
preconceito, tanto de cliente para cliente como em relação á cliente e dono ou
funcionários. Apesar da idéia de motociclista serem pessoas mais fechadas e não
muito amigáveis, minha convivência com eles mostrou o contrario sobre esse
pré-conceito que eu tinha, todos eles pareciam simpáticos. Aproveitei para perguntar se eles sofrem
algum tipo de preconceito em relação as outras pessoas e ele explica que hoje
em dia não tanto quanto antes e que essa aceitação tem acontecido mais no
decorrer dos anos devido a uma acessibilidade maior ao conhecimento e
informação das pessoas saber ao certo o que é o movimento de motociclistas e o
que é vandalismo, bagunça e outros comportamentos que as pessoas achavam que
fazia parte.
Pode ser também um dos motivos pelo qual
eles não gostam de ser chamados de motoqueiros, pelo nome já carregar em si uma
imagem diferente do que as idéias de motociclistas seriam. Em certo momento,
ele explica que nenhum lugar (bar, casa de festa, pub etc...) por mais que seja
caracterizado por um estilo, raramente vai ser um lugar fechado só pra um tipo
de pessoa, por mais que o dono seja alguém extremista, não é comercialmente
viável e não geraria renda, as pessoas se preocupam mais com se manter.
Por fim, eu penso
que a distinção dos motociclistas se dá mais pelo visual já que é visualmente
notável a diferença entre os demais, mas na questão da personalidade não há uma
diferença tão forte, eles tem gostos e um estilo diferente, mas isso não os
tornar um grupo muito fechado.
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