Diário de Campo
Casa Rio
Myllana Aguiar da Silva Lourenço
Estávamos em 8 pessoas, dentre elas 5 participantes do
trabalho de campo. Nos encontramos na UFMT por volta de 19h para discutirmos
questionamentos referentes ao trabalho e também para nos arrumarmos. Saímos
todos de Uber e chegamos na Casa Rio enquanto ainda estavam arrumando o local.
Neste dia, o céu estava aberto e muito bonito. Fomos recebidos gentilmente
pelos organizadores e nos conceberam uma entrevista de quase uma hora de
duração. Já de início alertaram que a entrevista precisava ser breve, pois tinham
reunião. Achei interessante o contexto histórico da Casa Rio que nos contaram,
e de quantas mudanças o local já passou.
Após a entrevista, ficamos todos sentados num canto. Observei
alguns organizadores limpando o local, ajustando a iluminação e o som. Era de
noite, então as luzes coloridas tinham destaque naquele vermelho das paredes.
A entrada era gratuita até um certo horário, portanto logo
antes que desse a hora de abrir a Casa Rio, já havia uma fila muito grande. Na
entrada, cada um foi revistado respeitosamente pelos seguranças. O evento
permitia que cada um trouxesse a própria bebida e muitos trouxeram. Alguns, ao
entrar sozinhos, iam para o bar do local comprar algo ou já se fixavam em um
canto e observavam. Os que entravam em grupo, no geral, já tinham a própria
bebida e escolhiam um canto para beberem.
Não demorou muito tempo para que já tivesse muita gente. Na
parte da frente, onde ficava o som, todos dançavam e bebiam. Foi interessante
observar que pareciam dançar como se ninguém olhasse, quase não percebi
vergonha, pareciam estar familiarizados. No espaço do bar, poucos dançavam, o
que fazia com que parecesse um palco para aqueles que queriam mostrar sua
dança. No meio e nos fundos, onde haviam bancos, era o espaço da conversa.
Vários grupos se situavam ali, aparentemente, para escapar da altura do som e
poderem conversar.
Já por volta de meia-noite, o efeito do álcool era notável. A
sensação que dava era de liberdade de expressão, liberdade de si. Isso também
foi observável nas entrevistas que fizemos com pessoas aleatórias dentro da
festa. O motivo mais recorrente para estarem ali era que naquele local sentiam
que podiam ser elas mesmas, era como uma fuga do julgamento da sociedade. O que
vi eram pessoas que dançavam da forma que sabiam, beijavam quem queriam, se
vestiam com as roupas que gostavam, tudo isso sem se importar com o que alguém
ia pensar, pois sabiam que ninguém estava ali para reparar em nada disso.
A reclamação recorrente dos entrevistados foi, justamente,
com heterossexuais que “se acham”. Eles e elas diziam que ali, na Casa Rio, era
diferente das festas tradicionais. Que aquele local era um espaço de
acolhimento para os LGBTQs que não encontravam espaço em outras baladas mais
tradicionais e “hétero”. Diziam que, nessas outras festas, havia um padrão de
aparência, muitas brigas sem motivo aparente, discriminação e olhares tortos.
Observei que na Casa Rio, naquela noite, não houve nenhuma briga e as pessoas
eram muito diferentes entre si, mas não pareciam se sentir julgadas. O padrão
de idade era jovem, na faixa de 18-25 anos, mas ouvimos relatos de pessoas mais
velhas indo lá, de jovens levando os pais para conhecer e assim por diante. A
festa tinha temática LGBTQ, mas pareceu-me ser bem misto e acolhedor para todos
que quisessem. Encontramos lá casais heterossexuais, casais LGBTQ e solteiros
de sexualidades variadas.
Havia lá uma regra local baseada no respeito e segurança. Os
organizadores e os participantes nos contaram que qualquer tipo de assédio lá é
repudiado e repreendido por todos. As mulheres (cis e trans) que conversamos
eram as que mais focavam nesse aspecto, pois para elas é algo que diferencia a
Casa Rio. Os LGBTQs entrevistados admiravam que, ali, sentiam-se respeitados e
se sentiam normais, como de fato o são. Percebi que ali era um espaço de fuga
para muitos que buscavam um alívio para os problemas diários, em maior parte
familiares, mas também sociais em geral.
Eu e meu grupo fomos embora por volta das 4h. Neste horário,
ainda haviam alguns dançando e muitos deitados ou sentados no chão, descansando
ou cochilando. Os que passaram mal foram ajudados pelos produtores, pois eles
afirmaram desde o início que não deixariam ninguém desamparado ali.
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