Diário de campo
XVI Parada da diversidade sexual LGBT de Cuiabá
A
XVI Parada da Diversidade sexual de Cuiabá 2018 teve como tema viver é um ato
político: nosso voto, nossa voz, sendo realizada no dia 22 de setembro de 2018.
Obtive informação da Parada através de publicações de amigos no facebook e de cartazes
afixados em murais.
A
Parada ocorreu em dois ambientes: Praça Ipiranga e Orla do Porto, tendo um
percurso na Avenida da Prainha. A concentração ocorreu na Praça Ipiranga, a partir
das 14h, sob sol de 38°, na qual ocorreram discursos políticos e manifestações
políticas, tendo como palco um trio elétrico. Por volta das 16:30h teve início
o percurso até a Orla do Porto, onde ocorreram a maior parte shows, cerca 30
shows, a maioria de drag queens. Na Orla havia trio elétrico localizado do lado
da rua, e ao chegarem os participantes se aglomeravam. As músicas tocadas foram
basicamente pop, eletro, axé e funk, sendo as músicas dos shows drags
principalmente o estilo pop.
Cheguei
ao evento por volta das 14:30h, e pude observar a chegada do público, buscando
os lugares com mais sombra, ao som da música dos trio elétrico. A princípio
representantes dos movimentos e organizadores estavam no trio, ou próximos
auxiliando na organização. Houve discursos de candidatos nas eleições de 2018,
que assinaram um termo de compromisso em atendimento aos interesses das pessoas
LGBT. Durante esse momento, a parada adquiriu um caráter mais de reivindicação
política. Encerrados os discursos, foi tocado o hino nacional, e depois houve o
primeiro show drag queen com bate
cabelo, o que gerou mais empolgação do público. Em seguida, foi anunciado para
que os participantes se organizassem para a marcha até a Orla do Porto, ao som
de muita música de dois trios elétricos. Estava no meio da multidão que havia
se formado rapidamente, então fomos caminhando, com a alegria e o colorido dos
participantes.
O
público da parada é formado pela sigla LGBT – lésbicas, gays, bissexuais,
travestis e transexuais. O público LGBT é formado por diferentes “tribos” ou
subgrupos culturais, compreendendo os seguintes:
Gays
– homens que experimenta amor romântico ou atração sexual por outras homens.
Neste grupo, existem outros subgrupos, como gays: afeminados (chamados por
vezes de “bichas”) homossexual com características atribuídas ao gênero
feminino; ursos: homens barbudos, corpulento e peludo, podendo projetar uma
imagem robusta e masculinizada e podem se subdividir em diferentes categorias; barbies:
homens gays que possuem corpo sarado, músculos fortes e abdômen definido;
enrustidos ou discretos: geralmente são assumidos, e dificilmente vão a Parada,
e buscam relacionamento com outros enrustidos ou discretos, e não gostam dos
afeminados;
Drag
queens (também conhecido como transformista) – personagens
criados por artistas performáticos que se travestem, fantasiando-se cômica ou
exageradamente com intuito profissional artístico;
Lésbicas
– mulheres que experimenta amor romântico ou atração sexual por outras
mulheres; variam de mulheres com características e gostos considerados
femininos, a mulheres com características e gostos considerados masculinos;
Bissexuais
– indivíduos que sente atração sexual por mais de um sexo;
Travestis
– pessoas cuja identidade de gênero difere daquela que lhe foi designada no
nascimento, assumindo um papel de gênero diferente daquele sugerido pela
sociedade, e que objetiva transicionar para uma expressão ou identidade
diferente.
Transexuais
– pessoas cuja identidade de gênero difere daquela designada no nascimento, e
que procuram fazer a transição para o gênero oposto através de intervenção
médica, podendo ser redesignação sexual, ou apenas
feminilização/masculinização, dependendo do gênero a ser transicionado;
Simpatizantes
– pessoas heterossexuais que simpatizam com a causa LGBT, contribuindo no
combate ao preconceito;
Mães pela diversidade
– grupo de mães que apoiam seus filhos homossexuais, e buscam a aceitação e informação
a outros pais que descobrem seus filhos LGBT; na Parada foram à frente, na ala
das mães.
Outro
grupo que não se caracteriza como participante da Parada, porém se depara com
ela por acidente, são as pessoas um grupo de pessoas a parte, e que têm reações
diversas ao presenciarem acidentalmente a festa. Esse público “por acidente” é
formado pelas pessoas que trabalham em estabelecimentos próximos, transeuntes,
estudantes de escolas, pessoas em pontos de ônibus e motoristas, ou seja, todas
as pessoas que acidentalmente passam, trabalham ou andam em algum dos locais da
cidade em que ocorre a Parada, e por isso se deparam com ela. Observei alguns
comerciantes no Centro que olhavam com bastante curiosidade os participantes,
sendo que alguns riam, se admiravam, e alguns até criticavam e zombavam. Uma
senhora na porta da Igreja Católica começou a rezar em direção aos
participantes, que ao perceberem não gostaram da atitude. Senhoras no ponto de
ônibus olhavam com extrema surpresa, como se fosse algo de outro mundo.
Trabalhadores saíam na porta das empresas ou comércios para assistir e até
mesmo gravarem e fotografarem a Parada. Observei também que em uma escola
localizada no percurso, os funcionários e os alunos saíram na entrada da escola
para assistirem. Os participantes não se hesitavam em fazer performances e
poses para estes curiosos “por acidente”.
Esse
é importante para dar visibilidade às pessoas LGBTs enquanto grupo social,
outsiders das normas dominantes, que exige respeito e dignidade, já que no
espaço público da cidade, afirmam seu direito à cidadania, e forçam a vários
setores da sociedade a refletirem sobre seus diferentes grupos sociais que a
compõem. Esses curiosos “por acidente” muitas vezes nunca pararam para refletir
sobre a questão LGBT, ou nunca tiverem acesso às informações ou debate sério
sobre o assunto, e no momento da Parada, cria-se uma oportunidade para esta
lacuna, que deveria ser amplamente debatido em diferentes momentos, e não
apenas na Parada. Nesse momento a Parada cumpre seu papel como ato político de
reivindicação de espaço e visibilidade social.
Em
relação às roupas do público, observei que eram diversificadas, de acordo com a
“tribo” ou categoria de identidade. As mais extravagantes eram as drag queens, com usas perucas, roupas
coloridas e maquiagem. Transexuais e travestis também usavam roupas ou
fantasias chamativas, destacando-se algumas com roupas curtas, lingeries e
topless. Observei que algumas as fantasias remetiam a inversão aos papeis
sociais de gênero masculino e feminino. Por exemplo, a fantasia do “Emílio”
Muitas usavam diferentes roupas ou fantasias, variando de roupas comuns a
saias, cuecas, lingeries, bermudas, etc., muitas vezes de gênero diferente do
atribuído social mente. Nem todos usam fantasias ou roupas coloridas. Os
fantasiados não se negam a poses para fotos, parece-me que se sentem
valorizados ao mostrarem suas fantasias às câmeras.
Solicitei
a alguns participantes para que tirasse fotos, e todos aceitaram de boa
vontade, e a foto que mais me chamou atenção, foi uma com transexual/travesti
com topless, que estava acompanhada de outras amigas também de topless e saias
ou bermudas curtas. O fato de estarem com seus seios desnudos reafirmam que a
feminidade não está caracterizada apenas em mulheres, seus órgãos genitais e/ou
gestos de feminidade, mas que ser mulher é, em verdade, uma construção social e
pode ser reivindicada por aquelas que mesmo não possuindo órgãos genitais
femininos se sentem femininas (mulher).
Outro
fato que me chamou a atenção foi do “Emílio” (versão masculina da personagem
Emília de Monteiro Lobato), um homem alto e corpulento, que acompanhado de
outra palhaça, inverte a lógica tradicional do papel da personagem original.
Outro
ponto que destaco foi o uso do glitter como objeto de desmasculinazação de
corpos masculinos, que ao usarem o produto em suas barbas, rompia-se toda a
síntese de um homem macho e lhe dava ares de feminidade, que em outras épocas
do ano não estão presentes.
Acredito
que pelo fato de terem a identidade de gênero ou orientação sexual discriminada
por parte da sociedade e inclusive pela família, e terem que se ocultar em
vários ambientes sociais, é na parada que os participantes encontram um momento
específico para a manifestação pública de suas orientações e identidades, sem
serem vítimas de preconceito ou julgamentos. Por isso as fantasias e as cores
para celebrarem suas identidades.
As
primeiras impressões de alguém que vai ou assiste pela primeira vez a Parada são
de estranhamento e surpresa. Observando algumas pessoas que por acaso passavam
pelos locais de realização da parada, notei reações como espanto, surpresa,
curiosidade, e até uma senhora fazendo orações para os participantes. Para
alguns pode ser uma verdadeira experiência de choque cultural. Por ser um
espaço de reinvindicação de direitos, e de sujeitos que muitas vezes não
correspondem ao padrão da sociedade quanto às normas de gênero e orientação
sexual, aos olhos dos mais conservadores pode parecer uma aberração, um pecado,
contra os princípios morais, etc. Mas com a realização da festa, acredito que
possa contribuir com a visibilidade das diferenças existentes na sociedade, e
levar a reflexão das pessoas a questionarem os padrões dominantes.
Esta
não é a primeira vez que fui a um a parada gay, porém me recordo que na
primeira oportunidade de participar de uma, lembro-me bem dos sentimentos de
surpresa e impacto causado, principalmente com a ruptura dos padrões sociais de
gênero e orientação sexual. A maioria das pessoas acredita que homem deve
gostar de mulher e mulher deve gostar de homem, e que se nasce homem ou mulher,
constatado a partir do nascimento pelo órgão sexual. Porém, na realidade as
pessoas não se encaixam nesses padrões estabelecidos, e em uma festa como a
parada gay que esses novos padrões se manifestam de forma pública, e leva a
reflexão da sociedade. Aos que não estão abertos ao novo, obviamente, vão
sofrer forte impacto de suas crenças, assim como tive na primeira vez.
Para
interagir-se com os participantes bastou participar junto a multidão, de
maneira alegre, no qual todos são benvindos, independente se são LGBTs ou não. Observei
que inicialmente os participantes interagiam menos, provavelmente ao calor, e a
mediada que o tempo foi passando, a empolgação aumentava ao som da música.
Observei que vários participantes iam a grupos, e alguns outros sozinhos, e que
os grupos de identidades LGBT tendiam a se agrupar em sua “tribo” urbana.
Nos
shows drags, o público se empolgava e
interagia com as performances, ao som de música pop ou funk, e também com o
famoso bate-cabelo, que agitava a plateia que coloria a orla. Observei que em
Cuiabá existem muitas drag queens, que realizam seus shows, especialmente em
ambientes LGBTs.
No
final do evento, com o público ainda mais empolgado que na concentração, fui
embora, já cansada da festa da diversidade. A próxima irá ocorrer no próximo
ano.
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