sábado, 19 de outubro de 2019

XVI Parada da diversidade sexual LGBT de Cuiabá


Diário de campo

XVI Parada da diversidade sexual LGBT de Cuiabá

     Carlos Eduardo da Silveira


A XVI Parada da Diversidade sexual de Cuiabá 2018 teve como tema viver é um ato político: nosso voto, nossa voz, sendo realizada no dia 22 de setembro de 2018. Obtive informação da Parada através de publicações de amigos no facebook e de cartazes afixados em murais.
A Parada ocorreu em dois ambientes: Praça Ipiranga e Orla do Porto, tendo um percurso na Avenida da Prainha. A concentração ocorreu na Praça Ipiranga, a partir das 14h, sob sol de 38°, na qual ocorreram discursos políticos e manifestações políticas, tendo como palco um trio elétrico. Por volta das 16:30h teve início o percurso até a Orla do Porto, onde ocorreram a maior parte shows, cerca 30 shows, a maioria de drag queens. Na Orla havia trio elétrico localizado do lado da rua, e ao chegarem os participantes se aglomeravam. As músicas tocadas foram basicamente pop, eletro, axé e funk, sendo as músicas dos shows drags principalmente o estilo pop.
Cheguei ao evento por volta das 14:30h, e pude observar a chegada do público, buscando os lugares com mais sombra, ao som da música dos trio elétrico. A princípio representantes dos movimentos e organizadores estavam no trio, ou próximos auxiliando na organização. Houve discursos de candidatos nas eleições de 2018, que assinaram um termo de compromisso em atendimento aos interesses das pessoas LGBT. Durante esse momento, a parada adquiriu um caráter mais de reivindicação política. Encerrados os discursos, foi tocado o hino nacional, e depois houve o primeiro show drag queen com bate cabelo, o que gerou mais empolgação do público. Em seguida, foi anunciado para que os participantes se organizassem para a marcha até a Orla do Porto, ao som de muita música de dois trios elétricos. Estava no meio da multidão que havia se formado rapidamente, então fomos caminhando, com a alegria e o colorido dos participantes.
O público da parada é formado pela sigla LGBT – lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. O público LGBT é formado por diferentes “tribos” ou subgrupos culturais, compreendendo os seguintes:
Gays – homens que experimenta amor romântico ou atração sexual por outras homens. Neste grupo, existem outros subgrupos, como gays: afeminados (chamados por vezes de “bichas”) homossexual com características atribuídas ao gênero feminino; ursos: homens barbudos, corpulento e peludo, podendo projetar uma imagem robusta e masculinizada e podem se subdividir em diferentes categorias; barbies: homens gays que possuem corpo sarado, músculos fortes e abdômen definido; enrustidos ou discretos: geralmente são assumidos, e dificilmente vão a Parada, e buscam relacionamento com outros enrustidos ou discretos, e não gostam dos afeminados;
Drag queens (também conhecido como transformista) – personagens criados por artistas performáticos que se travestem, fantasiando-se cômica ou exageradamente com intuito profissional artístico;
Lésbicas – mulheres que experimenta amor romântico ou atração sexual por outras mulheres; variam de mulheres com características e gostos considerados femininos, a mulheres com características e gostos considerados masculinos;
Bissexuais – indivíduos que sente atração sexual por mais de um sexo;
Travestis – pessoas cuja identidade de gênero difere daquela que lhe foi designada no nascimento, assumindo um papel de gênero diferente daquele sugerido pela sociedade, e que objetiva transicionar para uma expressão ou identidade diferente.
Transexuais – pessoas cuja identidade de gênero difere daquela designada no nascimento, e que procuram fazer a transição para o gênero oposto através de intervenção médica, podendo ser redesignação sexual, ou apenas feminilização/masculinização, dependendo do gênero a ser transicionado;
Simpatizantes – pessoas heterossexuais que simpatizam com a causa LGBT, contribuindo no combate ao preconceito;
Mães pela diversidade – grupo de mães que apoiam seus filhos homossexuais, e buscam a aceitação e informação a outros pais que descobrem seus filhos LGBT; na Parada foram à frente, na ala das mães.
Outro grupo que não se caracteriza como participante da Parada, porém se depara com ela por acidente, são as pessoas um grupo de pessoas a parte, e que têm reações diversas ao presenciarem acidentalmente a festa. Esse público “por acidente” é formado pelas pessoas que trabalham em estabelecimentos próximos, transeuntes, estudantes de escolas, pessoas em pontos de ônibus e motoristas, ou seja, todas as pessoas que acidentalmente passam, trabalham ou andam em algum dos locais da cidade em que ocorre a Parada, e por isso se deparam com ela. Observei alguns comerciantes no Centro que olhavam com bastante curiosidade os participantes, sendo que alguns riam, se admiravam, e alguns até criticavam e zombavam. Uma senhora na porta da Igreja Católica começou a rezar em direção aos participantes, que ao perceberem não gostaram da atitude. Senhoras no ponto de ônibus olhavam com extrema surpresa, como se fosse algo de outro mundo. Trabalhadores saíam na porta das empresas ou comércios para assistir e até mesmo gravarem e fotografarem a Parada. Observei também que em uma escola localizada no percurso, os funcionários e os alunos saíram na entrada da escola para assistirem. Os participantes não se hesitavam em fazer performances e poses para estes curiosos “por acidente”.
Esse é importante para dar visibilidade às pessoas LGBTs enquanto grupo social, outsiders das normas dominantes, que exige respeito e dignidade, já que no espaço público da cidade, afirmam seu direito à cidadania, e forçam a vários setores da sociedade a refletirem sobre seus diferentes grupos sociais que a compõem. Esses curiosos “por acidente” muitas vezes nunca pararam para refletir sobre a questão LGBT, ou nunca tiverem acesso às informações ou debate sério sobre o assunto, e no momento da Parada, cria-se uma oportunidade para esta lacuna, que deveria ser amplamente debatido em diferentes momentos, e não apenas na Parada. Nesse momento a Parada cumpre seu papel como ato político de reivindicação de espaço e visibilidade social.
Em relação às roupas do público, observei que eram diversificadas, de acordo com a “tribo” ou categoria de identidade. As mais extravagantes eram as drag queens, com usas perucas, roupas coloridas e maquiagem. Transexuais e travestis também usavam roupas ou fantasias chamativas, destacando-se algumas com roupas curtas, lingeries e topless. Observei que algumas as fantasias remetiam a inversão aos papeis sociais de gênero masculino e feminino. Por exemplo, a fantasia do “Emílio” Muitas usavam diferentes roupas ou fantasias, variando de roupas comuns a saias, cuecas, lingeries, bermudas, etc., muitas vezes de gênero diferente do atribuído social mente. Nem todos usam fantasias ou roupas coloridas. Os fantasiados não se negam a poses para fotos, parece-me que se sentem valorizados ao mostrarem suas fantasias às câmeras.
Solicitei a alguns participantes para que tirasse fotos, e todos aceitaram de boa vontade, e a foto que mais me chamou atenção, foi uma com transexual/travesti com topless, que estava acompanhada de outras amigas também de topless e saias ou bermudas curtas. O fato de estarem com seus seios desnudos reafirmam que a feminidade não está caracterizada apenas em mulheres, seus órgãos genitais e/ou gestos de feminidade, mas que ser mulher é, em verdade, uma construção social e pode ser reivindicada por aquelas que mesmo não possuindo órgãos genitais femininos se sentem femininas (mulher).
Outro fato que me chamou a atenção foi do “Emílio” (versão masculina da personagem Emília de Monteiro Lobato), um homem alto e corpulento, que acompanhado de outra palhaça, inverte a lógica tradicional do papel da personagem original.
Outro ponto que destaco foi o uso do glitter como objeto de desmasculinazação de corpos masculinos, que ao usarem o produto em suas barbas, rompia-se toda a síntese de um homem macho e lhe dava ares de feminidade, que em outras épocas do ano não estão presentes.
Acredito que pelo fato de terem a identidade de gênero ou orientação sexual discriminada por parte da sociedade e inclusive pela família, e terem que se ocultar em vários ambientes sociais, é na parada que os participantes encontram um momento específico para a manifestação pública de suas orientações e identidades, sem serem vítimas de preconceito ou julgamentos. Por isso as fantasias e as cores para celebrarem suas identidades.
As primeiras impressões de alguém que vai ou assiste pela primeira vez a Parada são de estranhamento e surpresa. Observando algumas pessoas que por acaso passavam pelos locais de realização da parada, notei reações como espanto, surpresa, curiosidade, e até uma senhora fazendo orações para os participantes. Para alguns pode ser uma verdadeira experiência de choque cultural. Por ser um espaço de reinvindicação de direitos, e de sujeitos que muitas vezes não correspondem ao padrão da sociedade quanto às normas de gênero e orientação sexual, aos olhos dos mais conservadores pode parecer uma aberração, um pecado, contra os princípios morais, etc. Mas com a realização da festa, acredito que possa contribuir com a visibilidade das diferenças existentes na sociedade, e levar a reflexão das pessoas a questionarem os padrões dominantes.
Esta não é a primeira vez que fui a um a parada gay, porém me recordo que na primeira oportunidade de participar de uma, lembro-me bem dos sentimentos de surpresa e impacto causado, principalmente com a ruptura dos padrões sociais de gênero e orientação sexual. A maioria das pessoas acredita que homem deve gostar de mulher e mulher deve gostar de homem, e que se nasce homem ou mulher, constatado a partir do nascimento pelo órgão sexual. Porém, na realidade as pessoas não se encaixam nesses padrões estabelecidos, e em uma festa como a parada gay que esses novos padrões se manifestam de forma pública, e leva a reflexão da sociedade. Aos que não estão abertos ao novo, obviamente, vão sofrer forte impacto de suas crenças, assim como tive na primeira vez.
Para interagir-se com os participantes bastou participar junto a multidão, de maneira alegre, no qual todos são benvindos, independente se são LGBTs ou não. Observei que inicialmente os participantes interagiam menos, provavelmente ao calor, e a mediada que o tempo foi passando, a empolgação aumentava ao som da música. Observei que vários participantes iam a grupos, e alguns outros sozinhos, e que os grupos de identidades LGBT tendiam a se agrupar em sua “tribo” urbana.
Nos shows drags, o público se empolgava e interagia com as performances, ao som de música pop ou funk, e também com o famoso bate-cabelo, que agitava a plateia que coloria a orla. Observei que em Cuiabá existem muitas drag queens, que realizam seus shows, especialmente em ambientes LGBTs. 
No final do evento, com o público ainda mais empolgado que na concentração, fui embora, já cansada da festa da diversidade. A próxima irá ocorrer no próximo ano.
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