sábado, 19 de outubro de 2019

Batalha de Rap



Batalha de Rap
Diário de Campo
Alanis Castro de Paiva

Quando sugeri o trabalho de campo em uma batalha de rap, não imaginava a imensidão que isso proporcionaria, frequento há mais de um ano em vários locais, mas nunca havia tido tanto prazer em estar em uma como naquela quinta-feira.
Chegamos lá, eu e meu grupo, meio receosos de fazer entrevistas. Nunca havia passado por uma situação dessas e acredito que eles também não; eu não podia imaginar como o pessoal poderia receber a gente, e se estariam dispostos a conceder entrevistas. Apesar de saber um pouco sobre o estilo de “vida” deles, nunca vi nem conheci de perto o tamanho da causa, e a força que ela tem.
Fomos para a batalha de ônibus, chegamos lá e ficamos assistindo um pouco na roda. A roda é composta por a plateia, e dentro ficam os mc’s, jurados e apresentador. A batalha é composta de regras, tempo para atacar, direito de resposta, e tudo isso em 2 rounds, se o público pede mais 1, vai para 3. Os mc’s passam seu tempo rimando cronometrado, entre 10 e 15 segundos, passando disso o apresentador faz um gesto com a mão e eles precisam imediatamente parar. Quando o ataque e contra-ataque acontece, os jurados votam e decidem quem começa o próximo round, se já for o último, o mc que o jurado decidiu é classificado para a próxima fase. Mas claro que o público vota, e como ocorre essa votação do público? Bom, o apresentador diz em voz alta: “atenção para a votação, pessoal. Quem gostou mais da rima de A grita e levanta a mão” nisso ele conta todas as mãos que foram levantadas e pede pra abaixar. Logo em seguida: “Quem gostou mais da rima do B, favor gritar e levantar a mão”, e repete o processo. Quem estiver com mais pessoas e com o jurado a favor, ganha a fase.
Tá bom, entendi, mas como são construídas essas rimas? Bom, cada mc fala e rima da maneira que achar melhor, entrevistando um dos “fundadores” da batalha da Alencastro fiz a seguinte pergunta: “Tem algum tipo de regra para o mc que for rimar, saber que não pode falar certo tipo de coisa?” E descobri que sim! A batalha, em geral, não permite nenhum tipo de discriminação, seja ela qual for. O machismo, a homofobia, e muito menos o racismo. A própria plateia cobre o mc de vaias, o que leva automaticamente a eliminação da fase.
Falando em discriminação, falamos em tudo que envolve um individuo ou uma sociedade a ser excluída, e isso acontece de varias formas, em vários lugares, de todas as maneiras, e não seria diferente numa batalha de rap. De todas, repito, todas as pessoas entrevistadas ali naquela quinta feira, nos disseram exatamente a mesma coisa: “A policia é racista” ou “A batalha tem estereótipos horríveis”, mas por que isso? Bom, a batalha de rap acontece geralmente em praças; praça da Alencastro, praça do pedra 90, praça da Bispo, e em muitos outros lugares do Brasil. Acontece entre 19:30 da noite e vai até 21:00/21:30, não é um horário fixo, mas é o horário que a maioria delas, ou quase todas, iniciam, esse horário a policia geralmente ronda a praça inteira, para, olha, observa. Para eles, todas as pessoas que estão ali são vagabundas, são jovens que estão perturbando a paz da vizinhança e usando drogas, quando na verdade, são jovens em uma faixa etária de 16 a 25 anos, são adultos, pais de família também que buscam ali um meio de entretenimento, ou até de refugio contra uma sociedade levantada em prol de conservadorismo. Falamos com algumas pessoas que nos disseram de um ocorrido, onde alguém que até hoje não se sabe quem, jogou uma garrafa numa viatura da policia que estava estacionada, logo a praça estava cheia de policiais, rotam, policias locais, e começaram a invadir o movimento, jogando bomba de gás e atirando com bala de borracha. Um policial subiu em um lugar e separou homens de mulheres, e tudo que a gente mais ouviu foi: “eles queriam revistar as pessoas. E pegaram principalmente todos os negros que estavam no local, e a humilhação foi nítida. Jogaram as coisas de mulheres e homens no chão, revistando, mandando pegar e ir embora”. A partir desse ocorrido, nos disseram que o público na batalha caiu drasticamente: “Então, a policia é racista. Teve uma vez que ocorreu que eles foram bem agressivos, e a gente nota que em outros lugares, caros, com pessoas finas, não acontece esse tipo de abordagem, as vezes eles nem vão, mas aqui por ser um espaço basicamente de pessoas negras, pessoas mais novas, eles se acham no direito de vir aqui e tentar fazer com que isso aqui acabe, um dos motivos pelo qual o pessoal ta aqui, creio eu, é por que na praça onde acontecia a batalha eles não se sentem a vontade de estar lá, e as pessoas estão evitando ir nos espaços para não serem agredidos por policiais, Cuiabá está fazendo um processo de “higienização”, retirando tanto quanto moradores de rua quanto festas e movimentos em praças”. –Eduarda E Paula.
“Geralmente é policia, enquadro. Muita gente vazou, mas tem muita gente que ainda está aqui ou vem de fora, assim como eu, para fortalecer o evento. Mas antigamente era muito maior, ninguém quer sair de casa pra ser enquadrado pela policia” – Ingrid, 20 anos, Sinop.
Analisando todas as entrevistas, dando a eles lugar de fala, eu pude observar que além de indignados com toda essa sociedade, eles também buscam lugares de fala, eles buscam ali uma espécie de refugio. É como ter um dia cansativo, cheio de problemas e frustrações e conseguir achar em algo um alivio, distração e modo de lutar por o que acredita. Claro, nem todas as pessoas são revolucionárias assim, algumas estão ali apenas para beber sua cerveja e ir para casa, e eles querem ter essa liberdade de escolha, de poder ir e vir sem serem abordados por que não estão fazendo outra atividade.
A batalha é uma roda cultural, criada por jovens, negros, minorias, pessoas de todas as idades, estilo, gênero musical, que buscam mudar alguma coisa através do rap, ou não, é isso que temos que saber, as vezes a pessoa só está ali por que se sente bem em estar, e tudo bem.
Encontramos pessoas de todos os tipos, pessoas param para olhar, assistem um pouco com seus filhos, dão risada das tiradas das rimas feitas pelos mc’s, a famosa “gastação” que é quando um mc brinca com outro indicando alguma “zueira” sobre a camiseta que ele está, sobre algum tipo de coisa, e eles ficam se “gastando”, no final os mc’s se cumprimentam e até sorriem um do outro, por saber que não passa de brincadeira.
Expressões usadas na roda por a plateia são diversas: “Mata ele!” no sentido de: Acabe com ele na rima. O apresentador grita “Dois mc’s no bang o que que ces quer ver?” e a plateia responde: “SANGUE!”, no sentido de querer uma rima boa de ambos os lado.
O ambiente lá era descontraído, as pessoas sorriam, se divertiam, sem drogas nenhumas e nem cometendo nenhum tipo de crime, usar qualquer tipo de droga na roda é proibido, por que como o Pedro disse: “Po cara, isso suja o movimento, tá ligado?”. Eles usam gírias de todas as formas, mas sempre mostrando que da pra entender, deixando claro do que as coisas se tratam.
Falamos sobre a dificuldade que os mc’s que se dedicam a música enfrentam, e de todas as respostas, a que mais me tocou foi do Evandro, de São Paulo, que tem uma gravadora caseira, ele tem um grupo de mc’s, e ele diz que a maior dificuldade enfrentada é o racismo, o grupo é composto por pessoas negras. Evandro disse que o que eles falam soa como mimimi, e que se for um branco falando ele vai ser escutado. Diz que o rap veio dos negros, mas são os brancos que levam crédito sobre isso. “o rap branco vende mais. As pessoas consumem mais o rap branco. E acaba que a gente não consegue patrocionio por que um branco já ta la”.
As pessoas que estão lá geralmente vão de transporte público, são de outros bairros, e frequentam a Alencastro por ser uma das grandes batalhas de Cuiabá, onde acontece muitos eventos como seletivas pra estadual, nacional, aniversário da batalha. A luz de lá era bem fraca e o ambiente meio escuro, por ser uma praça escura. Muitas estatuas no local, a roda se reuniu embaixo de uma, algumas pessoas ficaram sentadas, mas a maioria em pé, e quando outras estavam muito distantes o apresentador chamava elas pra votar e assistir de perto, pediam silencio quando a plateia estavam em conversa paralela, para assim prestarem atenção nas rimas e não votar errado.
Se eu pudesse descrever essa quinta feira, eu diria que foi uma das melhores. Onde pude ver pessoas acreditando e lutando por algo, não deixando que a policia estrague o role, estão ali todas as quintas, aos sábados, e a semana inteira. Se vestindo da maneira que desejam, falando e agindo como jovens, rindo de dois caras dentro de uma roda trocando rimas, levantando a mão e aplaudindo quando algum mc contra-ataca alguém que foi preconceituoso. Vi mães com seus filhos no colo, namorados abraçados, eu enxerguei a batalha de uma forma como eu nunca tinha visto antes, quando eu só ia pra assistir. Eu assisti também, assisti a proporção disso tudo, assisti o poder que esses jovens tem, assisti de perto um pouco de uma revolução que acontece a semana inteira em vários lugares, no Brasil todo.
Assisti o medo, quando a policia passava devagar pelo local, medo de que aquilo fosse acabado. Pude ver de perto pessoas passando e olhando torto, achando que ali se concentravam pessoas sem ter o que fazer, “drogados”, quando ninguém estava consumindo nada.
A batalha de rap é cultura. São abordados temas sociais, gênero, homofobia, e tudo é baseado em respeito. Respeito por pessoas que estão todo dia, respeito por pessoas que vão uma vez no ano, respeito por o ser humano em geral. Eu vi gays, vi mulheres negras, brancas, crianças, jovens, pré adolescentes, e todos apenas em pé assistindo as rimas  votando no melhor mc. Quem ganha sai de lá com uma folha onde tem o nome de todos os que ganharam, e são patrocinados por uma barraca de cachorro quente na frente, onde o vencedor tem direito a um.
As coisas não são o que parecem, e pessoalmente é triste saber que todos esses estereótipos e perseguição são voltados sem uma construção de fato verdadeira. É também admirável ver a energia e força que eles tem de estar ali semanalmente, depois de tantas abordagens e humilhações. “Todo lugar tem venda de droga, infelizmente na batalha também tem. Mas não é relacionado a batalha. Com ou sem batalha eles vão fazer isso. Não me falaram que policia reprime. Eu vi.”

“É importante a gente tá aqui, somando com esse espaço. Os espaços em Cuiabá são bem elitizados, aqui não, são pessoas pobres, negras, e eles estão aqui falando da realidade deles” – Paula.
A batalha é uma roda cultural, com temas importantes, rimas boas, e mc’s que querem crescer e poder fazer rap nacional. Um se espelha no outro, um cresce e ajuda o outro. Patrocinio ainda é difícil, mas sempre que da eles tiram do bolso deles para fazer acontecer. O que mais me motivou a querer fazer esse trabalho foi exatamente isso, a humildade. São todos por todos. E todos pela rima. Sem maldade, sem preconceitos, sem drogas na roda. É apenas rima.

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