Batalha de Rap
Diário de Campo
Alanis Castro de Paiva
Quando sugeri o trabalho de campo em uma batalha de rap, não
imaginava a imensidão que isso proporcionaria, frequento há mais de um ano em
vários locais, mas nunca havia tido tanto prazer em estar em uma como naquela
quinta-feira.
Chegamos lá, eu e meu grupo, meio receosos de fazer
entrevistas. Nunca havia passado por uma situação dessas e acredito que eles
também não; eu não podia imaginar como o pessoal poderia receber a gente, e se
estariam dispostos a conceder entrevistas. Apesar de saber um pouco sobre o
estilo de “vida” deles, nunca vi nem conheci de perto o tamanho da causa, e a
força que ela tem.
Fomos para a batalha de ônibus, chegamos lá e ficamos
assistindo um pouco na roda. A roda é composta por a plateia, e dentro ficam os
mc’s, jurados e apresentador. A batalha é composta de regras, tempo para
atacar, direito de resposta, e tudo isso em 2 rounds, se o público pede mais 1,
vai para 3. Os mc’s passam seu tempo rimando cronometrado, entre 10 e 15
segundos, passando disso o apresentador faz um gesto com a mão e eles precisam
imediatamente parar. Quando o ataque e contra-ataque acontece, os jurados votam
e decidem quem começa o próximo round, se já for o último, o mc que o jurado
decidiu é classificado para a próxima fase. Mas claro que o público vota, e
como ocorre essa votação do público? Bom, o apresentador diz em voz alta:
“atenção para a votação, pessoal. Quem gostou mais da rima de A grita e levanta
a mão” nisso ele conta todas as mãos que foram levantadas e pede pra abaixar.
Logo em seguida: “Quem gostou mais da rima do B, favor gritar e levantar a
mão”, e repete o processo. Quem estiver com mais pessoas e com o jurado a
favor, ganha a fase.
Tá bom, entendi, mas como são construídas essas rimas? Bom,
cada mc fala e rima da maneira que achar melhor, entrevistando um dos
“fundadores” da batalha da Alencastro fiz a seguinte pergunta: “Tem algum tipo
de regra para o mc que for rimar, saber que não pode falar certo tipo de
coisa?” E descobri que sim! A batalha, em geral, não permite nenhum tipo de
discriminação, seja ela qual for. O machismo, a homofobia, e muito menos o
racismo. A própria plateia cobre o mc de vaias, o que leva automaticamente a
eliminação da fase.
Falando em discriminação, falamos em tudo que envolve um
individuo ou uma sociedade a ser excluída, e isso acontece de varias formas, em
vários lugares, de todas as maneiras, e não seria diferente numa batalha de
rap. De todas, repito, todas as pessoas entrevistadas ali naquela quinta feira,
nos disseram exatamente a mesma coisa: “A policia é racista” ou “A batalha tem
estereótipos horríveis”, mas por que isso? Bom, a batalha de rap acontece
geralmente em praças; praça da Alencastro, praça do pedra 90, praça da Bispo, e
em muitos outros lugares do Brasil. Acontece entre 19:30 da noite e vai até
21:00/21:30, não é um horário fixo, mas é o horário que a maioria delas, ou
quase todas, iniciam, esse horário a policia geralmente ronda a praça inteira,
para, olha, observa. Para eles, todas as pessoas que estão ali são vagabundas,
são jovens que estão perturbando a paz da vizinhança e usando drogas, quando na
verdade, são jovens em uma faixa etária de 16 a 25 anos, são adultos, pais de
família também que buscam ali um meio de entretenimento, ou até de refugio contra
uma sociedade levantada em prol de conservadorismo. Falamos com algumas pessoas
que nos disseram de um ocorrido, onde alguém que até hoje não se sabe quem,
jogou uma garrafa numa viatura da policia que estava estacionada, logo a praça
estava cheia de policiais, rotam, policias locais, e começaram a invadir o
movimento, jogando bomba de gás e atirando com bala de borracha. Um policial
subiu em um lugar e separou homens de mulheres, e tudo que a gente mais ouviu
foi: “eles queriam revistar as pessoas. E pegaram principalmente todos os
negros que estavam no local, e a humilhação foi nítida. Jogaram as coisas de
mulheres e homens no chão, revistando, mandando pegar e ir embora”. A partir
desse ocorrido, nos disseram que o público na batalha caiu drasticamente: “Então,
a policia é racista. Teve uma vez que ocorreu que eles foram bem agressivos, e
a gente nota que em outros lugares, caros, com pessoas finas, não acontece esse
tipo de abordagem, as vezes eles nem vão, mas aqui por ser um espaço
basicamente de pessoas negras, pessoas mais novas, eles se acham no direito de
vir aqui e tentar fazer com que isso aqui acabe, um dos motivos pelo qual o
pessoal ta aqui, creio eu, é por que na praça onde acontecia a batalha eles não
se sentem a vontade de estar lá, e as pessoas estão evitando ir nos espaços
para não serem agredidos por policiais, Cuiabá está fazendo um processo de
“higienização”, retirando tanto quanto moradores de rua quanto festas e
movimentos em praças”. –Eduarda E Paula.
“Geralmente é policia, enquadro. Muita gente vazou, mas tem
muita gente que ainda está aqui ou vem de fora, assim como eu, para fortalecer
o evento. Mas antigamente era muito maior, ninguém quer sair de casa pra ser
enquadrado pela policia” – Ingrid, 20 anos, Sinop.
Analisando todas as entrevistas, dando a eles lugar de fala,
eu pude observar que além de indignados com toda essa sociedade, eles também
buscam lugares de fala, eles buscam ali uma espécie de refugio. É como ter um
dia cansativo, cheio de problemas e frustrações e conseguir achar em algo um
alivio, distração e modo de lutar por o que acredita. Claro, nem todas as
pessoas são revolucionárias assim, algumas estão ali apenas para beber sua
cerveja e ir para casa, e eles querem ter essa liberdade de escolha, de poder
ir e vir sem serem abordados por que não estão fazendo outra atividade.
A batalha é uma roda cultural, criada por jovens, negros,
minorias, pessoas de todas as idades, estilo, gênero musical, que buscam mudar
alguma coisa através do rap, ou não, é isso que temos que saber, as vezes a
pessoa só está ali por que se sente bem em estar, e tudo bem.
Encontramos pessoas de todos os tipos, pessoas param para
olhar, assistem um pouco com seus filhos, dão risada das tiradas das rimas
feitas pelos mc’s, a famosa “gastação” que é quando um mc brinca com outro
indicando alguma “zueira” sobre a camiseta que ele está, sobre algum tipo de
coisa, e eles ficam se “gastando”, no final os mc’s se cumprimentam e até
sorriem um do outro, por saber que não passa de brincadeira.
Expressões usadas na roda por a plateia são diversas: “Mata
ele!” no sentido de: Acabe com ele na rima. O apresentador grita “Dois mc’s no
bang o que que ces quer ver?” e a plateia responde: “SANGUE!”, no sentido de
querer uma rima boa de ambos os lado.
O ambiente lá era descontraído, as pessoas sorriam, se
divertiam, sem drogas nenhumas e nem cometendo nenhum tipo de crime, usar
qualquer tipo de droga na roda é proibido, por que como o Pedro disse: “Po
cara, isso suja o movimento, tá ligado?”. Eles usam gírias de todas as formas,
mas sempre mostrando que da pra entender, deixando claro do que as coisas se
tratam.
Falamos sobre a dificuldade que os mc’s que se dedicam a
música enfrentam, e de todas as respostas, a que mais me tocou foi do Evandro,
de São Paulo, que tem uma gravadora caseira, ele tem um grupo de mc’s, e ele
diz que a maior dificuldade enfrentada é o racismo, o grupo é composto por
pessoas negras. Evandro disse que o que eles falam soa como mimimi, e que se
for um branco falando ele vai ser escutado. Diz que o rap veio dos negros, mas
são os brancos que levam crédito sobre isso. “o rap branco vende mais. As
pessoas consumem mais o rap branco. E acaba que a gente não consegue
patrocionio por que um branco já ta la”.
As pessoas que estão lá geralmente vão de transporte público,
são de outros bairros, e frequentam a Alencastro por ser uma das grandes
batalhas de Cuiabá, onde acontece muitos eventos como seletivas pra estadual,
nacional, aniversário da batalha. A luz de lá era bem fraca e o ambiente meio
escuro, por ser uma praça escura. Muitas estatuas no local, a roda se reuniu
embaixo de uma, algumas pessoas ficaram sentadas, mas a maioria em pé, e quando
outras estavam muito distantes o apresentador chamava elas pra votar e assistir
de perto, pediam silencio quando a plateia estavam em conversa paralela, para
assim prestarem atenção nas rimas e não votar errado.
Se eu pudesse descrever essa quinta feira, eu diria que foi
uma das melhores. Onde pude ver pessoas acreditando e lutando por algo, não
deixando que a policia estrague o role, estão ali todas as quintas, aos
sábados, e a semana inteira. Se vestindo da maneira que desejam, falando e
agindo como jovens, rindo de dois caras dentro de uma roda trocando rimas,
levantando a mão e aplaudindo quando algum mc contra-ataca alguém que foi
preconceituoso. Vi mães com seus filhos no colo, namorados abraçados, eu
enxerguei a batalha de uma forma como eu nunca tinha visto antes, quando eu só
ia pra assistir. Eu assisti também, assisti a proporção disso tudo, assisti o
poder que esses jovens tem, assisti de perto um pouco de uma revolução que
acontece a semana inteira em vários lugares, no Brasil todo.
Assisti o medo, quando a policia passava devagar pelo local,
medo de que aquilo fosse acabado. Pude ver de perto pessoas passando e olhando
torto, achando que ali se concentravam pessoas sem ter o que fazer, “drogados”,
quando ninguém estava consumindo nada.
A batalha de rap é cultura. São abordados temas sociais,
gênero, homofobia, e tudo é baseado em respeito. Respeito por pessoas que estão
todo dia, respeito por pessoas que vão uma vez no ano, respeito por o ser
humano em geral. Eu vi gays, vi mulheres negras, brancas, crianças, jovens, pré
adolescentes, e todos apenas em pé assistindo as rimas votando no melhor mc. Quem ganha sai de lá
com uma folha onde tem o nome de todos os que ganharam, e são patrocinados por
uma barraca de cachorro quente na frente, onde o vencedor tem direito a um.
As coisas não são o que parecem, e pessoalmente é triste
saber que todos esses estereótipos e perseguição são voltados sem uma
construção de fato verdadeira. É também admirável ver a energia e força que
eles tem de estar ali semanalmente, depois de tantas abordagens e humilhações. “Todo
lugar tem venda de droga, infelizmente na batalha também tem. Mas não é
relacionado a batalha. Com ou sem batalha eles vão fazer isso. Não me falaram
que policia reprime. Eu vi.”
“É importante a gente tá aqui, somando com esse espaço. Os
espaços em Cuiabá são bem elitizados, aqui não, são pessoas pobres, negras, e
eles estão aqui falando da realidade deles” – Paula.
A batalha é uma roda cultural, com temas importantes, rimas
boas, e mc’s que querem crescer e poder fazer rap nacional. Um se espelha no
outro, um cresce e ajuda o outro. Patrocinio ainda é difícil, mas sempre que da
eles tiram do bolso deles para fazer acontecer. O que mais me motivou a querer
fazer esse trabalho foi exatamente isso, a humildade. São todos por todos. E
todos pela rima. Sem maldade, sem preconceitos, sem drogas na roda. É apenas
rima.
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