sábado, 19 de outubro de 2019

Forró em Cuiabá


ANA BEATRIZ DOMINGUES DA ROCHA REIS







DIÁRIO DE CAMPO:
Forró em Cuiabá
















Cuiabá - MT
2018
Pesquisar sobre forró em Cuiabá me aproxima da minha própria condição de migrante nestas paragens: forró vem da região de Luiz Gonzaga e eu, do interior do estado de São Paulo. Migrante como nós foi o meu contato e progressivo afeto - agora já enraizado - com o forró. A primeira aproximação significativa que tivemos foi em 2011, quando em viagem para São Paulo (capital) e tendo feito amigos da cidade de Belém-PA, eles estavam animados para conhecer o forró de São Paulo, em uma das casas mais famosas na época, O Canto da Ema.
Sem nenhuma idéia de como se procedia uma dança em par, fui com eles e me surpreendi com o valor irrisório para um show do Dominguinhos. O local estava bastante cheio e podia notar o quanto as pessoas que estavam lá frequentavam mesmo para dançar forró: as pessoas que dançavam ocupavam o meio do salão e as que não, aguardavam ao redor dele um convite para a próxima música. Meus amigos tentaram me ensinar alguns passos, mas não fui tão bem-sucedida. Mesmo assim, não tinha dimensão, ainda, do quanto viria a valorizar essa experiência. Voltei lá outras duas vezes em outras viagens, antes de aprender a dançar de fato.
No segundo semestre de 2017 fiz uma mobilidade acadêmica para a UFSC, em Florianópolis. Soube que havia um curso de extensão de forró, ministrado por alunos e docentes da Educação Física. Decidi me matricular, também como forma de maior integração na cidade. Com o passar das aulas, que ocorriam duas vezes na semana, e aproximação com os colegas da turma, passamos a combinar saídas noturnas para praticar extra classe. Fomos então descobrindo muitas casas noturnas com programação, de modo que quase todo dia da semana poderia encontrar uma noitada de forró pela cidade. Inclusive, o forró é um movimento forte entre os jovens em Florianópolis, há muitas escolas de dança que oferecem cursos de forró e o pessoal das escolas são figuras carimbadas nas noitadas.
De volta a Cuiabá no final do mesmo ano, como nunca havia escutado falar sobre forró na cidade, achava que ficaria em “abstinência” depois de uma experimentação tão ativa. Foi então que uma amiga me mandou a divulgação de uma programação de forró via rede social, do restaurante O Bode Chic, o qual nunca havia escutado falar.




O Bode Chic - Culinária Nordestina

17/08/2018

Quase tudo tem um tom de casa. À primeira vista não difere de uma casa “familiar” com um amplo alpendre sombreado por muitas árvores e também, bem ao centro, por um caramanchão metálico com ramagens espalhadas por ele todo. Logo que se cruza o portão de entrada, a brita que forra o chão oferece passos tão incertos quanto quando se é visita na casa de alguém pouco íntimo. As cadeiras de vime de assento largo obrigam maior relaxamento para acessar o encosto e as mesas, da altura dos joelhos, até fazem possível descansar as pernas sobre elas. Não estivessem as mesas e cadeiras agrupadas e habitadas por alguns clientes distribuídos de forma aleatória, assim como a iluminação sobre elas, eu tocaria a campainha e esperaria alguém de dentro permitir que entrasse.
Já instalada em uma mesa bem iluminada, debaixo do caramanchão, observo que na porta de entrada há um entra e sai de garçons que sugere que seja a própria cozinha e que o estabelecimento se encerra por ali, o que é reforçado pela ampla janela de vidro que evidencia a cozinha, à esquerda da porta. Apesar de não haver nenhuma banda no alpendre, ouve-se a música: Forró de Pé de Serra, evidentemente tocada ao vivo. A garçonete dá boas vindas com o sotaque que dá mais veracidade ao conceito do lugar, recebo o cardápio e pergunto de onde vem a música. Assim, ela me acompanha ao quintal: parte coberta e parte a céu aberto e muitas, muitas mesas e cadeiras. Em toda a extensão das paredes há murais bastante coloridos de personagens alegoricamente nordestinas. A banda toca bem ao fundo, em um pequeno, com um espaço a frente, para o público que quiser dançar. Havia algumas pessoas de idades variadas, pouquíssimo suficientes para preencher todo aquele espaço. Menos ainda as que se dispunham a dançar, o que era mais comum entre os casais mais velhos.


21/09/2018

Já tendo conhecido o espaço com intuito recreativo, voltei ao Bode Chic com o objetivo de saber mais sobre o lugar e sobre a banda. Apresentei-me ao garçom (Robson), dizendo que, a partir de uma disciplina de Antropologia,  estava fazendo uma pesquisa sobre forró em Cuiabá e se haveria alguém que eu pudesse entrevistar. Ele me levou até a mesa e me apresentou ao Sr. Assis Gonçalves, vocalista e percussionista da banda Caçulas do Forró, que se apresenta lá todas as sextas.
A princípio, banda toda estava reunida na mesa, mas assim que fui apresentada, o se retiraram da mesa, a não ser o Sr. Assis. Mesmo ele aparentava estar pouco confortável com a situação, não olhava na minha direção e respondia tudo de forma bastante sintética, de modo que o que consegui saber foi o seguinte: natural da cidade de Belém do Brejo do Cruz da Paraíba, o Sr. Assis Gonçalves (apelidado de “Chicão”) mora há trinta anos em Cuiabá, casou com uma cuiabana e teve filhos aqui. Veio em busca de trabalho, iniciando no mercado informal. Contou-me que há vinte anos atrás havia um Centro Cultural Nordestino que ficava no Coxipó (próximo à Copagás), no qual acontecia baile de forró às sextas de noite, mas que devido a uma troca de diretoria e má gestão do local, ele foi fechado. Hoje, a referência do forró em Cuiabá é o Bode Chic e foi a cobrança da população nordestina de Cuiabá para que houvesse um lugar de cultura nordestina que levou a existência do estabelecimento. A respeito da imigração nordestina, ele disse que há nordestinos de todos os estados da região do nordeste. Boa parte deles moram no bairro CPA e Cidade Alta e que muitos trabalham como feirantes ou no mercado informal. Sobre a banda, informou que ela existe há vinte anos. O repertório é basicamente constituído de Forró de Pé de Serra, o que é definido pela própria constituição da banda: zabumba, triângulo, sanfona e voz.
            Conversando com outro garçom (Edemilson), perguntei sobre a história do Bode Chic. Ele contou que o dono de lá se chama Paulo Bezerra, pernambucano, delegado aposentado, que tinha como sonho dar um pedaço do nordeste de presente para Cuiabá. Ele ainda quer deixar uma praça para a população, com uma grande estátua de Luiz Gonzaga. Edemilson me contou ainda sobre um quarto espaço do restaurante, ao qual ainda não havia prestado muita atenção, a Galeria e Sala de Chá. No piso superior, com acesso por uma escada frontal, é um amplo espaço, repleto de xilogravuras de artistas nordestinos, telhas com pinturas, dentre outros.



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