ANA BEATRIZ DOMINGUES DA ROCHA REIS
DIÁRIO
DE CAMPO:
Forró
em Cuiabá
Cuiabá - MT
2018
Pesquisar sobre forró em Cuiabá me
aproxima da minha própria condição de migrante nestas paragens: forró vem da
região de Luiz Gonzaga e eu, do interior do estado de São Paulo. Migrante como
nós foi o meu contato e progressivo afeto - agora já enraizado - com o forró. A
primeira aproximação significativa que tivemos foi em 2011, quando em viagem
para São Paulo (capital) e tendo feito amigos da cidade de Belém-PA, eles
estavam animados para conhecer o forró de São Paulo, em uma das casas mais
famosas na época, O Canto da Ema.
Sem nenhuma idéia de como se
procedia uma dança em par, fui com eles e me surpreendi com o valor irrisório
para um show do Dominguinhos. O local estava bastante cheio e podia notar o
quanto as pessoas que estavam lá frequentavam mesmo para dançar forró: as
pessoas que dançavam ocupavam o meio do salão e as que não, aguardavam ao redor
dele um convite para a próxima música. Meus amigos tentaram me ensinar alguns
passos, mas não fui tão bem-sucedida. Mesmo assim, não tinha dimensão, ainda,
do quanto viria a valorizar essa experiência. Voltei lá outras duas vezes em
outras viagens, antes de aprender a dançar de fato.
No segundo semestre de 2017 fiz uma
mobilidade acadêmica para a UFSC, em Florianópolis. Soube que havia um curso de
extensão de forró, ministrado por alunos e docentes da Educação Física. Decidi
me matricular, também como forma de maior integração na cidade. Com o passar
das aulas, que ocorriam duas vezes na semana, e aproximação com os colegas da
turma, passamos a combinar saídas noturnas para praticar extra classe. Fomos
então descobrindo muitas casas noturnas com programação, de modo que quase todo
dia da semana poderia encontrar uma noitada de forró pela cidade. Inclusive, o
forró é um movimento forte entre os jovens em Florianópolis, há muitas escolas
de dança que oferecem cursos de forró e o pessoal das escolas são figuras
carimbadas nas noitadas.
De volta a Cuiabá no final do mesmo
ano, como nunca havia escutado falar sobre forró na cidade, achava que ficaria
em “abstinência” depois de uma experimentação tão ativa. Foi então que uma
amiga me mandou a divulgação de uma programação de forró via rede social, do
restaurante O Bode Chic, o qual nunca
havia escutado falar.
O Bode Chic - Culinária Nordestina
17/08/2018
Quase tudo tem um tom de casa. À
primeira vista não difere de uma casa “familiar” com um amplo alpendre
sombreado por muitas árvores e também, bem ao centro, por um caramanchão
metálico com ramagens espalhadas por ele todo. Logo que se cruza o portão de
entrada, a brita que forra o chão oferece passos tão incertos quanto quando se
é visita na casa de alguém pouco íntimo. As cadeiras de vime de assento largo
obrigam maior relaxamento para acessar o encosto e as mesas, da altura dos
joelhos, até fazem possível descansar as pernas sobre elas. Não estivessem as
mesas e cadeiras agrupadas e habitadas por alguns clientes distribuídos de
forma aleatória, assim como a iluminação sobre elas, eu tocaria a campainha e
esperaria alguém de dentro permitir que entrasse.
Já instalada em uma mesa bem
iluminada, debaixo do caramanchão, observo que na porta de entrada há um entra
e sai de garçons que sugere que seja a própria cozinha e que o estabelecimento
se encerra por ali, o que é reforçado pela ampla janela de vidro que evidencia
a cozinha, à esquerda da porta. Apesar de não haver nenhuma banda no alpendre,
ouve-se a música: Forró de Pé de Serra, evidentemente tocada ao vivo. A
garçonete dá boas vindas com o sotaque que dá mais veracidade ao conceito do
lugar, recebo o cardápio e pergunto de onde vem a música. Assim, ela me
acompanha ao quintal: parte coberta e parte a céu aberto e muitas, muitas mesas
e cadeiras. Em toda a extensão das paredes há murais bastante coloridos de
personagens alegoricamente nordestinas. A banda toca bem ao fundo, em um
pequeno, com um espaço a frente, para o público que quiser dançar. Havia
algumas pessoas de idades variadas, pouquíssimo suficientes para preencher todo
aquele espaço. Menos ainda as que se dispunham a dançar, o que era mais comum
entre os casais mais velhos.
21/09/2018
Já tendo conhecido o espaço com
intuito recreativo, voltei ao Bode Chic
com o objetivo de saber mais sobre o lugar e sobre a banda. Apresentei-me ao
garçom (Robson), dizendo que, a partir de uma disciplina de Antropologia, estava fazendo uma pesquisa sobre forró em
Cuiabá e se haveria alguém que eu pudesse entrevistar. Ele me levou até a mesa
e me apresentou ao Sr. Assis Gonçalves, vocalista e percussionista da banda
Caçulas do Forró, que se apresenta lá todas as sextas.
A princípio, banda toda estava
reunida na mesa, mas assim que fui apresentada, o se retiraram da mesa, a não
ser o Sr. Assis. Mesmo ele aparentava estar pouco confortável com a situação,
não olhava na minha direção e respondia tudo de forma bastante sintética, de
modo que o que consegui saber foi o seguinte: natural da cidade de Belém do
Brejo do Cruz da Paraíba, o Sr. Assis Gonçalves (apelidado de “Chicão”) mora há
trinta anos em Cuiabá, casou com uma cuiabana e teve filhos aqui. Veio em busca
de trabalho, iniciando no mercado informal. Contou-me que há vinte anos atrás
havia um Centro Cultural Nordestino que ficava no Coxipó (próximo à Copagás),
no qual acontecia baile de forró às sextas de noite, mas que devido a uma troca
de diretoria e má gestão do local, ele foi fechado. Hoje, a referência do forró
em Cuiabá é o Bode Chic e foi a
cobrança da população nordestina de Cuiabá para que houvesse um lugar de
cultura nordestina que levou a existência do estabelecimento. A respeito da
imigração nordestina, ele disse que há nordestinos de todos os estados da
região do nordeste. Boa parte deles moram no bairro CPA e Cidade Alta e que
muitos trabalham como feirantes ou no mercado informal. Sobre a banda, informou
que ela existe há vinte anos. O repertório é basicamente constituído de Forró
de Pé de Serra, o que é definido pela própria constituição da banda: zabumba, triângulo,
sanfona e voz.
Conversando
com outro garçom (Edemilson), perguntei sobre a história do Bode Chic. Ele contou que o dono de lá
se chama Paulo Bezerra, pernambucano, delegado aposentado, que tinha como sonho
dar um pedaço do nordeste de presente para Cuiabá. Ele ainda quer deixar uma
praça para a população, com uma grande estátua de Luiz Gonzaga. Edemilson me
contou ainda sobre um quarto espaço do restaurante, ao qual ainda não havia
prestado muita atenção, a Galeria e Sala de Chá. No piso superior, com acesso
por uma escada frontal, é um amplo espaço, repleto de xilogravuras de artistas
nordestinos, telhas com pinturas, dentre outros.
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