domingo, 20 de outubro de 2019

Festa de São Benedito da igreja do Rosário


Diário de Campo
Festa de São Benedito da igreja do Rosário 
Rejayne Benedita Bastos e Wesley Luna
Dentre os muitos festejos que fazem parte da cultura popular do Mato Grosso, a festa de São Benedito se destaca, por sua ampla difusão e pelo impacto que tem sobre a população de Cuiabá.
            Os preparativos para a festa de São Benedito começam muitos meses antes da festa propriamente dita e mobilizam muita gente. Tudo começa com as reuniões preparatórias, a escolha dos festeiros e dos organizadores.
            O que se pode observar do ponto de vista organizacional da festa é que os recursos utilizados para o evento, e, sua maioria, são doados por patrocinadores de vários ramos comerciais e até mesmo por devotos.
          O que se verá a seguir é a tradicional festa do povo cuiabano em manter viva a fé em São Benedito, que apesar de não ser o padroeiro da cidade muitos fiéis atribuem a ele esse título.
FESTA DE SÃO BENEDITO
A festa de São Benedito teve início no dia 28 de junho numa quinta-feira e se estendeu até o dia 01/07, observamos ao longo da primeira noite que havia poucos participantes presentes, apesar da programação efervescente, com atrações musicais de shows regionais para animar e agitar os que ali se encontravam.
Durante a pesquisa conversamos com várias pessoas, dentre elas, podemos destacar a Shirlei de 40 anos. Ao nos aproximar ela acabou nos confidenciando sua insatisfação com os organizadores da festa, pois estes proibiram que os frequentadores circulassem com outra marca de bebida que não fosse da marca da patrocinadora oficial da festa, no caso a marca “burguesa”, tendo até mesmo seguranças que impediam que as pessoas circulassem livremente onde a festa estava sendo realizada. Shirlei como os demais moradores que moram ao lado da igreja, naquelas casas geminadas, aproveitaram a festa com duração de 4 dias para ganhar dinheiro.
Encontramos a Isabel, 46 anos, professora de língua portuguesa, nascida, criada e moradora da região juntou a família para vender alimentos e bebidas durante a festa. Se mostrou surpresa com a organização da festa, pois foi realizada uma reunião e feito um acordo entre os moradores e os organizadores do evento permitindo a venda de bebidas e alimentos pelos próprios moradores que possuem suas casas anexas a igreja. Durante a festa as pessoas que compraram alimentos/bebidas com os moradores, não podiam circular livremente pela festa, sendo barradas pelos seguranças.

Foto 1: Izabel, nascida e criada nos arredores da paróquia, estava com uma barraca anexa a festa de São Benedito, foto de Rejayne Bastos.


                                  

Algo que nos chamou a atenção que a Isabel é filha de D. Ana Alexandrina de 72 anos, professora aposentada, uma das moradoras mais antigas do bairro, mora na mesma casa em que nasceu, sendo que o parto foi feito por uma parteira, nos relata. Ao entrar na sua casa através do convite da sua filha, a encontramos deitada no sofá devido ao cansaço físico, pois estava trabalhando durante o dia na cozinha da igreja auxiliando no preparo da comida. De acordo com a D. Ana, a festa de São Benedito é antiga e acontecia em vários bairros da região, era oferecido gratuitamente aos participantes frutas, lanches. As festas antigas de que guarda na lembrança ocorria na casa de Bembem na rua Comandante Costa, situada no centro de Cuiabá.
Foto 2: D. Ana Alexandrina, devota de São Benedito, nascida e criada nos arredores da paróquia de São Benedito    e    voluntária na festa. Foto de Rejayne Bastos
D. Ana nos disse que há 03 anos a abertura da festa de São Benedito ocorre com um baile de gala, que custa 100,00 reais por pessoa, realizado neste ano pelo Buffet Leila Malouf. Nesse ano não pode comparecer, mas esteve presente em anos anteriores. Ela nos disse que São Benedito tem muitos devotos.
A paróquia de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito é responsável por 23 comunidades católicas espalhadas ao redor de Cuiabá, dentre elas conversamos com a Jaqueline, 31 anos, servidora pública, que está trabalhando pela sua comunidade denominada de São Pedro, que se localizada no bairro Alvorada. A paróquia abriu espaço para que algumas das 23 comunidades, vende-se um prato de comida diferente do já tradicional Maria Izabel que seria vendido pela paróquia. Jaqueline nos disse que é uma delícia juntar todas as pessoas da comunidade, gosta muito de trabalhar e todo dinheiro arrecado com a venda do espetinho (prato escolhido pela sua comunidade) será revertido para a comunidade São Pedro. Todos que estavam em sua barraca são voluntários, trabalham por amor e fé. Desde os 15 anos começou a participar da festa de São Benedito. Ao contrário do que ocorre com a paróquia, a sua comunidade não promove nenhuma ação social fora da igreja.

Encontramos um casal que foram escolhidos para serem Rei e Rainha da festa de n. Sra do Rosário, o senhor João Félix, 76 anos, festeiro desse ano, é o rei de N. Sra do Rosário, apesar de não ser cuiabano participa da festa desde que “nasceu”. Na festa de 2014 foi rei de São Benedito. Faz parte da paróquia de São Benedito desde que aqui chegou no ano de 1949, sendo oriundo do Rio Grande do Norte. Nos disse que S. Benedito é inquilino de N. Sra. do Rosário. A família toda participa da festa, já morou próximo da paróquia e atualmente mora na região do CPA. Toda terça às 5:00 da manhã participa da missa. De acordo com o seu João para ser rei tem que ser da comunidade. O dinheiro arrecado com a festa irá auxiliar na manutenção de obras sociais mantidas pela paróquia. As obras citadas são: 03 creches, totalizando 485 crianças atendidas; 1 sítio no município de N Sra. do Livramento para tratar dependentes químicos.
Foto 4: Seu João Félix, rei de N. Sra. do Rosário e a rainha de N. Sra. do Rosário, Teresa Rosário, que leva esse nome em homenagem a N. Sra. do Rosário. foto Rejayne Bastos
Já a senhora Teresa Rosário, 62 anos, está muito feliz com a festa, pois este ano é a primeira vez que será rainha de N. Sra do Rosário. Em 1996 foi rainha de promessa de S. Benedito. Nascida e criada na paróquia, para ela é a maior emoção em ser rainha da festa. No dia 23/11/17 foi revelada a ela de que seria rainha da festa de N. Sra do Rosário. Nasceu no dia 06/10/1956, um dia antes da comemoração do dia de N. Sra do Rosário 07/10. Nasceu em Cuiabá, foi embora e retornou, mãe de 04 filhos, só a filha mais velha é católica e não pôde estar com a mãe nesses dias de festa, pois mora em outro estado.
Ao longo da pesquisa deparamos com Neiva, 65 anos (foto abaixo), aposentada como analista de trânsito, nascida e criada na comunidade. Toda família participa das atividades da paróquia, mãe de 02 filhos, o marido é coordenador de ministros, enquanto ela é coordenadora geral da comunidade de N. Sra do Carmo, sendo esta, localizada dentro da paróquia de N Sra do Rosário e São Benedito. Neiva acha “maravilhoso ser útil, se doar para a igreja”, trabalha como voluntária e frequenta desde que nasceu. Ela também nos disse que há inscrição para pagar a promessa de São Benedito, como Ele é um santo popular há muita procura dos fiéis.
Foto 5: Neiva, devota e trabalhadora da paróquia de são Benedito. Rejayne Bastos.
Esses foram alguns dos relatos que obtivemos dentre outras, não qual não mencionamos neste artigo, ocorrido ao logo do período da festa.
 A festa de São Benedito que ocorre na igreja de N. Sra do Rosário e São Benedito, teve vários patrocinadores, dentre eles podemos destacar a marca de cerveja burguesa, única marca comercializada na festa, talvez por isso tenha dado atrito entre os moradores que comercializaram seus produtos nas suas barracas fora do evento. Observando, vemos que a festa no primeiro dia estava com poucas pessoas, porém por ser o primeiro dia, quinta-feira, a população iria trabalhar no dia seguinte, estávamos ansiosos em participar do segundo dia. Encontramos cadeiras vazias próximo do palco, como observado na figura 6.  As mesas tinham a marca da cerveja burguesa, onde as famílias se reuniam para saborear as deliciosas comidas típicas da região, essas mesas estavam próximas das barracas de comida. Ao redor do palco pude observar pessoas mais jovens, mas mesmo assim uma minoria, que estavam aproveitando um show de pagode.
Foto 6: Cadeiras vazias encostadas na parede da casa da frente. Foto Rejayne Bastos
  
Foto 7: Frequentadores em frente ao palco curtindo show de pagode. Foto de Rejayne Bastos

Já no segundo dia de festa conversamos com a senhora Eunice, 61 anos, desempregada. Mora em Várzea Grande, frequenta a festa de São Benedito quase todo ano, acha a festa “ótima”, “ama rezar para São Benedito”. Como toda devota do santo costuma frequentar a missa na terça feira às 19:00 horas. Para ela aumentou o movimento de pessoas “cuiabanas” na festa. A fé permanece e atrai pessoas. Conhece a história de São Benedito porque aprendeu nos livros.
A dona Maria Auxiliadora, 66 anos, aposentada, mora ao lado da igreja. Nascida e criada frequentando a igreja de São Benedito, participa da festa com a filha, neto. Fé a São Benedito motiva frequentar a festa. Todos os dias da festa frequenta a missa às 05:00 da manhã. Frequenta a missa todos os dias. Nunca tentou ser rainha da festa, ajuda a festa com doação. Outros anos ajudou no preparo da comida. Ela recorda que antigamente era tudo de graça na sua juventude. “As pessoas levavam para casa bolo de arroz, de queijo, francisquito, pastel”. A organização da festa para ela é um ponto positivo.
Outra pessoa encantadora é a senhora Betinha, 84 anos, aposentada, 25 filhos adotivos, mas gerou apenas 02 filhos, 1 deles morreu. Criou os filhos na casa onde foi criada. Nasceu na Santa Casa. Para ela a festa de São Benedito já foi boa. Antigamente era festa. Mudou “a falta de educação”. Antigamente ia a festa com a família, os filhos cresceram e fazem o que bem entendem com suas vidas. 
Nas lembranças de D. Betinha, a festa tinha novena (reza, terço) e terminava a 00:00. Atualmente frequenta durante a festa, missas que são realizadas as 05:00 da manhã. Fora a festa costuma frequentar a missa toda terça-feira, se não vai à missa no horário das 05:00 vai às 19:00. Ela não gostou das transformações que ocorreram na festa. A festa antigamente era muito boa, o arroz para fazer o bolo de arroz era socado no pilão. Se lembra que para a festa de São Benedito os fazendeiros doavam o boi, se recorda que passava a semana inteira fazendo bolo. Vai à missa descalça, na procissão também vai descalça. Os filhos não frequentam a festa.
Dona Benedita Costa Ferreira, 67 anos, aposentada. Nascida e criada no porto. Há 50 anos mora no bairro Baú e há 50 anos frequenta a festa. Antigamente era festa pequena na casa de D. Bembém. “Depois que a festa passou a ser na igreja trouxe mais pessoas”. “O povo é mais devoto e participa mais”. Toda terça às 05:00 da manhã participa da missa na igreja de N. Sra.  do Rosário e São Benedito. Mãe de 03 filhos eles frequentam as missas na paróquia.
Gosta de tudo, acha que há 35 anos (fez uma data aproximada com o nascimento do filho) a festa passou a ser na igreja. Antes da festa ser na igreja tudo era de graça: o chá cô bolo, o almoço. Depois que a festa passou a ser na igreja e cobrado, houve mais organização. Nas festas antigas tinha comida para todo mundo. A fé a São Benedito a motiva frequentar a festa. Nunca se candidatou a ser festeira porque a festa é muito grande. Já trabalhou muito como voluntária, hoje ajuda participando da festa.
Um rapaz que encontramos, foi Bruno Neves, 30 anos estava acompanhado da sua esposa Maria Andreia de 22 anos, e o filho Enrico Abraão de 1 ano e 02 meses. Depois que o filho nasceu passou a frequentar a festa com o objetivo de preservar a cultura e quer que o filho cresça nesse ambiente. Não frequenta as missas na igreja. Ele reclamou que faltou mesa e cadeira para a família, que só conseguiram o lugar depois que estavam terminando de jantar.
Outra jovem que podemos encontrar e conversar é a Franciele, 28 anos, trabalha no RH de empresa. Diz ela que a comida é a que mais atrai a sua vinda na festa de São Benedito, gosta de curtir os shows. Desde criança frequenta com os amigos mais velhos, se recorda que a mãe frequentava a festa. Geralmente participa no máximo 2 vezes dos 04 dias de festa. A comida como dito anteriormente a motiva frequentar a festa. A segurança para ela aumentou. Frequenta a festa com a irmã e a sogra.
A dona Ana Leopoldina, 59 anos, trabalha na creche como TDI. Frequenta todo ano a procissão. É o primeiro ano que frequenta a festa. Veio com a filha e o neto. O que a motiva a frequentar a procissão é a fé no santo. Gosta de tudo, é cuiabana, cresceu frequentando a missa toda terça às 05:00 da manhã com a avó, enquanto morava perto e era criança, depois que cresceu só vem na procissão.
         Tivemos a oportunidade de conversar com os voluntários da festa, dentre eles destacamos a D. Ana Barcelo, 66 anos, aposentada, moradora do bairro Areão. Além de frequentadora da festa estava trabalhando na cozinha. Ficou responsável pela farofa de banana, no dizer dela é “responsável pelo que precisa”. Devoção a motiva trabalhar, recebeu muitas graças de São Benedito. Ele intercedeu por Ela junto a Deus. Espera por muitas horas pela festa, “é muito gratificante trabalhar”, por isso “se doa”, “participa”. Ela e o marido participam e ajudam a cortar a carne 1 mês antes.
           Uma outra colaboradora é a senhora Jane, 59 anos, aposentada, não só frequenta a festa de São Benedito como também trabalha na organização. Como é nutricionista aposentada ficou responsável pela coordenação da cozinha. Desde o ano de 1994 passou a participar da festa efetivamente. Morava no Campo Durique, atual Câmara Municipal de Cuiabá. Sente muita satisfação, agradecimento em participar pelas graças alcançadas. No ano de 2011 teve problema de saúde na medula e ficou mais devota. Em festas anteriores trabalhava como atendente. Desde 2008 passou a trabalhar na organização. Em 2010 foi “alferes de bandeira” (não sei o que significa, perguntarei ao padre quando tiver oportunidade de conversar com ele. Me informaram que para falar com o padre é só com hora marcada), 2012 foi festeira de promessa, 2014 rainha da festa de São Benedito. Para Ela é “gratificante trabalhar”. “A responsabilidade é a maior dificuldade”.
         Outra colaboradora importantíssima não só pela sua colaboração mais pela sua idade a senhora e Irmã (como gosta de ser chamada) Marlene, 76 anos, ajuda na festa de São Benedito desde 2005. Acredita muito em São Benedito e faz o que faz “por prazer”, “gosta da cozinha”. “Tem prazer em estar no meio das cozinheiras”, tem uma auxiliar devido a limitações devido à idade e por ter passado por várias cirurgias, sua auxiliar é a Antônia Xavier (não consegui registro fotográfico da irmã porque ela não quis tirar a foto mas consegui da sua auxiliar). Ambas ficaram responsável pelo preparo do “tutu de feijão”, no 3º dia de festa foi preparado por elas 30 kg de feijão. De acordo com a irmã, no 1º dia sobrou muito feijão. Ela novamente afirmou que trabalha por devoção e prazer, se sente feliz em estar no meio delas, das cozinheiras. É irmã desde os 20 anos. No dia 16 de junho fará 50 anos que ela se tornou irmã. Ela é do Pará, mas a família e da cidade de Imperatriz (MA), mora em Cuiabá desde menina.
             A diante encontramos mais uma jovem, Patrícia, 30 anos, contadora, frequenta a festa há 05 anos. Moradora do Tijucal. Para ela além da festa “ser religiosa” é também “familiar”, “não tem briga”, e a sua participação é uma forma de “colaborar com a igreja”. Gosta e participa mais da “festa’. Quando questionada sobre o fato da festa ter uma única opção de bebida alcóolica, disse que “concorda” até porque a marca em questão está “patrocinando a festa”. Ela estava acompanhada do Rodrigo, 33 anos, engenheiro civil, ele me disse que veio à festa por causa da “Maria Izabel”. Quando indagado de o porquê sair do Tijucal (bairro distante) para a festa, ele comentou que “estava onde a festa estava”, a distância para ele não fazia a menor diferença. Mas o que realmente o motivou a estar na festa de São Benedito, foi a própria “festa”.
          Já para o senhor Israel de Moraes, 60 anos, fiscal de transporte. Trabalha na festa de São Benedito há 50 anos. Conforme ele nos disse, “foi a D. Bembem que morava na Barão de Melgaço que começou a festa”. O Israel estava na barraca da família Malouf, o prato que a família servia era espetinho. Devido ao movimento paramos de entrevistá-lo e não o procuramos mais. Ele estava muito ocupado, então preferimos não o incomodar.
        Durante a festa no dia 30, nos encontramos com a Jane, a nutricionista e responsável pela organização da cozinha, ela nos disse que nesse dia foram feitas 30 panelas de comida. Cada panela serve 130 pratos “com chorinho”, sem “o chorinho” serve de 150 a 160 pratos. “Chorinho” é um termo utilizado quando a pessoa que compra o prato pede para colocar mais comida e quem está servindo coloca mais conforme o gosto do freguês. Não sei se essa expressão “chorinho” é uma legítima expressão cuiabana ou utilizada por outras culturas espalhadas pelo país, com significados variados.
          A senhora Catarina, 47 anos, do lar, viúva. Ela é mãe do Paulo Fernando que é um dos festeiros da festa, ele tem 25 anos e é o mais jovem dentre os festeiros. De acordo com a Catarina ele começou a se envolver com a igreja de São Benedito cantando no coral. Ano passado o seu filho foi eleito “capitão de mastro” (também não sei o que isso significa, perguntarei ao próprio Paulo quando me encontrar com ele. No último dia de festa fui mais cedo para a igreja para falar também com ele. Como ele ajudou na cozinha o dia todo, teve que dar uma pausa e foi para casa para tomar banho e descansar, pois, como era um dos festeiros precisava se preparar para a procissão). Fiquei esperando por ele nas proximidades da cozinha e ele apareceu, expliquei a ele que tinha conhecido e conversado com a sua mãe no dia anterior, e Ela me disse que Ele era um dos festeiros, e por isso eu gostaria de conversar com ele. Ele me passou o seu telefone e ligarei para marcar uma entrevista, pois devido ao meu cansaço físico tive que ir para casa sem conversar com ele e com o organizador geral da festa.
       Conversando com a Catarina ela me disse que nasceu numa família católica, mas a sua religião é a Umbanda, as vezes ela frequenta as missas. Acabou nos confidenciando que vários cozinheiros que trabalham na festa são umbandistas. Nos disse também que a igreja do Rosário e São Benedito é uma das poucas igrejas que permitem essa troca de experiência com a Umbanda. Nós (eu e o Wesley) nos convidamos para conhecer o terreiro em que ela frequenta, que está localizado na Av. Beira Rio. Ela nos explicou onde está localizado e iremos fazer uma visita, até porque é a primeira pessoa que conheço que fala abertamente que é da Umbanda. Estou “morrendo” de curiosidade para saber como é, o que eles fazem. Eu sou espírita e acredito que não vou me deparar com muitas surpresas, apesar de saber que há muitas diferenças. A umbanda pelo pouco que sei (e tenho obrigação de saber mais pelo que me foi apresentado pela Catarina, e também por ir visitar o terreiro assim que combinarmos: eu, a Catarina e o meu parceiro de pesquisa, Wesley) é uma religião de matriz africana trazida e preservada pelos negros que foram forçados a abandonar suas raízes, para satisfazer interesses de europeus “preguiçosos”, que eram avessos ao trabalho. Me refiro aos europeus de forma pejorativa, pois foi isso que me foi apresentado nos livros de história do Brasil e do Mato Grosso ao estudar para o último concurso público para o órgão da SEDUC. Nunca tinha lido nada parecido antes na escola e nem em lugar nenhum.
       Preciso explicar como conheci a Catarina. Nós estavamos dando umas voltas sem torno da festa e paramos exatamente próximo onde Ela se encontrava (ela estava parada quase numa esquina, é a última rua que dá acesso aos fundos da igreja e onde se encontrava as barracas de comida, Catarina esperava outro filho que a acompanhava), começamos uma conversa e queríamos saber quantas ruas davam acesso a igreja, eu me confundi e a Catarina achou que tivéssemos perdidos. Dissemos que não estávamos perdidos explicando o que estávamos fazendo ali. Foi uma excelente oportunidade de conversarmos, e trocarmos experiências, tanto sobre o filho dela que é o festeiro mais jovem, como também de nos revelar que há muitos umbandistas participando e trabalhando na festa do santo em questão. Eu a considero com toda certeza a “personagem” (não gosto desse substantivo, pois remete a algo que não é real) dentre os participantes da festa, como a mais importante, por ter nos revelado o que revelou. Fiquei surpresa e grata com a oportunidade.
       Continuamos a andar e encontramos a Gláucia, 41 anos, cabeleireira. Ela é uma das moradoras que mora ao redor da igreja. É moradora há mais de 20 anos, a sua casa está localizada na rua Praça do Rosário, é a primeira rua subindo a igreja e próximo onde ficou localizado o palco. Se incomoda com os fogos durante a missa que é realiza de madrugada. Todo ano aproveita a oportunidade da festa para vender algo, este ano optou por vender milho verde cozido, sempre vende tudo, ano passado ela vendeu cachorro quente. A sua casa é patrimônio histórico, primeiramente ela alugou a casa e depois acabou comprando. Apesar de ser católica ela não frequenta as missas. Para ela a única coisa que a igreja dá para os fiéis é a vela (pelo que pudemos observar a única coisa que a igreja deu foi a porta vela feito de papelão e um leque também de papelão por causa do calor). Ela nos disse que “não sentiu vontade de trabalhar na organização, acha injusto a igreja vender tudo muito caro, até porque tudo o que a igreja vende é fruto de doação”. Mas o que nos impressionou foi sua moradia, por se em frente a  igreja e no centro de Cuiabá, estrutura antiga, patrimônio histórico da região, ela disse que não pode fazer nenhuma intervenção no imóvel sem ao menos que notifique a prefeitura local, pedindo autorização, apesar de a casa aparentar estar bem preservada.
          Por fim chega o último dia de festa, dia primeiro de Julho, Rejayne            conseguiu ir à missa as 05:00 da manhã - cheguei a tempo de assistir a entrada dos festeiros. Não consegui entender quantos são, mas ao conversar com o padre através de hora marcada saberei. A entrada dos festeiros foi animada, e contava com a ajuda de uma banda que tocava marchinha. As músicas da missa são cantadas com alegria, achei bem animada e senti vontade de dançar e “dancei” quando tocaram a música de São Benedito que é bem animada. Pude observar uma mulher jovem com uma criança de colo, achei o público bem heterogêneo. Não se via apenas idosos, havia jovens.
         Conversei (rejayne) com o Getúlio Ribeiro da Silva, 55 anos, trabalha no ramo financeiro. Acordou às 04:00 da manhã para ir à missa. Todo ano participa, é frequentador da comunidade São Judas Tadeu (a igreja fica subindo a Cel. Escolástico), foi capitão de mastro na festa da igreja que frequenta. Na missa foi sozinho, mas a família também participa, foi apenas naquele dia. No dia que conversamos, ele ia ajudar na barraca da igreja São Judas Tadeu, vão vender Maria Izabel. Não é só a anfitriã da festa que pode vender pratos típicos, como a famosa Maria Izabel. No dia anterior a sua comunidade vendeu espetinho. Há 04 anos que ele participa da festa, morador do bairro Areão.
         Durante a tarde deste dia conversei com o Renato, 23 anos, estudante de serviço social. Desde 2012 trabalha na festa na função de caixa, atua como voluntário. É do município de Santo Antônio do Leverger, a família toda é oriunda de Santo Antônio. Veio para Cuiabá para estudar e trabalhar. Se tornou voluntário da festa convidado por um amigo que foi festeiro. Fora os dias de festa costuma ir à missa na quarta às 05:00 da manhã. Os pais sempre frequentavam a festa. Credita a intercessão de São Benedito a cura de um câncer de útero na sua mãe. A mãe é cozinheira e já recebeu convites para cozinhar em SP, costuma cozinhar em eventos, casamentos. Ele tem 15 irmãos, todos de parto normal, a mãe tem 63 anos e o pai 65. O pai participa da santa missa, da procissão enquanto a mãe ajuda na cozinha. Há 16 anos a sua mãe participa da festa ajudando na cozinha.
              Acordou às 04:20 da manhã para ir à missa das 05:00, foi para a missa de “uber”, com a irmã. Dos 17 membros da família apenas 03 ajudam na festa: Ele, a mãe e o irmão que é formado em gastronomia. Sempre frequentou desde criança a festa, participa da missa, da procissão (desde que passou a trabalhar no caixa não pode participar da procissão). Percebeu que “através da devoção ao santo a graça acontece. O que mais admira na festa é a participação fervorosa dos fiéis, e o testemunho das graças alcançadas”. “Sente falta das atrações culturais, tradicionais como a apresentação de cururu e siriri que não tem mais”. (Nesse ano a festa contou com a apresentação do grupo de dança flor ribeirinha, gostaria muito de ter assistido, mas devido ao meu cansaço e do meu colega decidimos ir embora sem assistir à atração cultural que faz esse resgate da cultura cuiabana). Foi para casa após a missa e retornou as 10:20 para a abertura do caixa que reabriu às 11:00 para a venda do almoço.
      Outro senhor que encontro descansando após o trabalho na cozinha, é o senhor Nilson, 56 anos, aposentado. Coordenador da cozinha. Devoto de São Benedito desde criança. Mora no bairro Duque de Caxias. Saiu da cozinha no dia anterior à 00:00. Vinha a festa antigamente com os avós. A festa para ele mudou muito. Cada rei faz a festa ao seu gosto. Muda muito a festa de 1 ano para o outro. Não há cansaço para ele, às 2:30 da manhã já está na cozinha para preparar o café da manhã para quem trabalha. Acabando a festa de São Benedito vem a festa de N. Sra. do Carmo, e depois a festa de N. Sra. do Rosário. Ficou a festa no mês de junho por causa das crianças que entravam de férias. A data de nascimento de São Benedito é em outubro 05/10, e de sua morte no dia 04/04. A festa antigamente para ele, as pessoas eram mais unidas e ajudavam mais, elas se conheciam e frequentavam a casa um das outras.
          No último dia de festa foi reservado 2000 kg de carne para a paçoca e 4000 kg para a Maria Izabel. Para ele a função do festeiro é trabalhar e angariar dinheiro para a igreja. O Sr. Nilson já foi 5 vezes festeiro de São Benedito, a última vez foi em 2006, já foi rei de N. Sra. do Rosário, juiz, e capitão de mastro em 2004 e 2006. Começa a trabalhar 1 ano antes, vai de agosto até o último dia da festa que é em julho. Acha “bonita a procissão, a saída de bandeira e antigamente no último da saída de bandeira era feriado, pois ia muita gente”. São 45 dias de visita da bandeira. Atua há 05 anos como coordenador da bandeira, são 2 bandeiras de São Benedito, sendo que uma sai de manhã e a outra a tarde. Nos contou que antigamente um festeiro que foi apelidado de “João Balão” dividiu a festa entre ricos e pobres, pois para os ricos foi servido um legítimo “chá cô bolo” no clube Dom Bosco, enquanto para os pobres foi servido bolachinhas no bairro Lixeira na década de 70.
        A festa, como foi falado em falas anteriores era realizada na casa de D. Bembem, e houve um consenso entre a irmandade de S Benedito para trazer a festa para a igreja. Quando criança frequentava a festa de S. Benedito na casa de D. Bembem, e nos disse que a D. Bembem não fazia festa, ela alugava a sua casa e quem fazia a festa era os festeiros, os fazendeiros, os comerciantes, os fiéis. Quando Ele houve falar que festa boa era a que ocorria na casa de D. Bembem, para ele não passa de uma falácia.
       Encontramos no úttimo dia da festa antes da procissão o Niuam Ribeiro, 33 anos, vice-prefeito de Cuiabá, é o rei da festa de São Benedito pela primeira vez. A função do rei é simbólica, tanto ele quanto a rainha doam a sua imagem para a festa, ambos têm de levar a bandeira para os órgãos públicos e instituições. Para ele fica a responsabilidade de organizar a festa e manter viva a tradição. Sente orgulho em ser rei e o escolheram porque querem renovar os fiéis da igreja, e claro, manter viva a chama da fé. O convidaram para trazer a juventude para a igreja. Se sente honrado pela oportunidade em fazer a vontade de S. Benedito e do Espírito Santo. Toda terça após a missa tem o chá cô bolo, tudo comprado, o dinheiro arrecadado mantém a igreja e os projetos sociais da paróquia. O que ele inovou no seu reinado foi o “happy hour” na quinta-feira antes do jantar, para agregar a juventude. Segundo ele, deixou sua personalidade no reinado, pois respeita o grupo, as opiniões, e para ele as pessoas que fazem a festa acontecer é quem está na cozinha há 30 anos. Usou suas mídias sociais para divulgar a festa.
     Outro membro da organização da festa é o João Pedro, coordenador de arrecadação. A marca de cerveja burguesa ofereceu para patrocinar a festa pelo segundo ano seguido, e claro ela tem participação nos lucros. A paróquia convidou 3 marcas e a melhor proposta ganha, a menor percentagem no lucro ganha. Não pode entrar na festa a marca de cerveja que não seja da burguesa, os seguranças só estavam barrando cerveja que não fosse da marca burguesa.
         A procissão era para ter começado às 17:00 horas no domingo. Houve um pequeno atraso pelo fato dos fiéis se concentrarem na rua São Benedito, onde a imagem, os festeiros, e os anjinhos iriam passar. A procissão começou com o sino tocando e após ocorreu uma queima de fogos. Há várias pessoas descalças na procissão. É um público bem heterogêneo, vemos crianças, jovens, adultos, idosos, mas há muitas crianças em carrinhos de bebê sendo empurradas, acredito pelos pais, na maioria das vezes são mulheres e crianças. Presenciei crianças segurando velas. Há muita gente na procissão. Não sei calcular quantas pessoas tinham, cheguei a procurar um policial para ele estimar o público e ele me disse que não sabia.
      Durante a procissão conversamos com o Renato, Ilda e Enzo de 05 anos, que desde que nasceu participa da festa e vai com a família. Fomos conversando com as pessoas durante a caminhada, e observando tudo que ali tinha, os caminhantes, as pessoas nas casas e comércios ao longo da procissão, tinha uma casa que estava toda enfeitada, de frente para a avenida esperando a imagem do santo passar.
          Durante fomos conversando com Meire, 62 anos, pedagoga, é o segundo ano que participa da procissão, vai “para agradecer a tudo que possui”, “agradecida a Deus e a São Benedito”. Cuida da mãe que se recupera de um AVC. Não falta a procissão, já teve graças alcançadas. Devota do santo desde criança.
        Já para a senhora Edilaine, 35 anos, empresária, estava com a filha Priscila de 07 anos. Devota do santo há 06 anos. Frequenta a procissão em agradecimento pela saúde dos pais, os 02 tiveram câncer. O 1º a ter a doença foi o pai com câncer na próstata e depois a mãe com câncer de mama. Os pais já eram devotos antes de receberem a graça. Atribui a graça alcançada a S. Benedito, Divino Pai Eterno, e a N. Sra. Aparecida. Tanto Edilaine quanto Priscila acompanharam a procissão descalças.
     Celina Alves Correia, encontrei essa Sra. muito nervosa pelo fato de seguranças impedirem que os fiéis chegassem perto da imagem de S. Benedito. Assim que a procissão retornou para a festa, tanto os festeiros quanto a imagem do santo se deslocaram para o palco, e para chegar até o palco tinha uma barreira de seguranças impedindo que os fiéis se aproximassem da imagem, que só foi dissolvida quando os festeiros retiraram todas as rosas que enfeitava a imagem do santo e após o padre dar a benção final. Celina nos disse que “São Benedito é do povo”, “dos humildes”, colocaram seguranças para impedir de chegar perto do santo”. Devota de São Benedito, acompanha esmola, a bandeira. “Colocar segurança é para impedir de o povo chegar perto”. Devota do santo desde que nasceu. Mora no porto, não vem a missa às 05:00 da manhã por causa do horário e pela falta de segurança, para ela “é perigoso andar muito cedo”. De acordo com ela na casa de D. Bembem “a festa era pro povo”, troca os festeiros e vai mudando.
      As pessoas que circulam no último dia de festa são das mais diferentes formas e tipos. Vejo muitos jovens, adultos com crianças, e há também idosos.     A música que está tocando é rasqueado do trio Henrique, Pescuma e Claudinho, vejo as pessoas se divertindo.
        Onde os moradores do lado direito da igreja montaram suas tendas, totalizaram 19 barracas, e é a única opção de atração para criança como pula -pula e um escorregador inflável gigante.
     Uma Sra. que não quis se identificar disse que deveria ter mais pontos de vendas (são apenas 2 contêineres). Disse que as pessoas que estão sentadas deveriam ser mais sensíveis com os idosos, cadeirantes. Há pessoas sentadas nas mesas e ela viu uma mesa com duas cadeiras vazias, pediu uma das cadeiras e a pessoa que estava sentada não deu o lugar para ela sentar, que estava com um prato nas mãos querendo se alimentar.  Ficou chateada com a situação e se sentou ao meu lado num “murete” na lateral quase nos fundos da igreja.

          




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