Diário de Campo
Festa de São Benedito da igreja do Rosário
Rejayne Benedita Bastos e Wesley Luna
Dentre os muitos festejos que
fazem parte da cultura popular do Mato Grosso, a festa de São Benedito se
destaca, por sua ampla difusão e pelo impacto que tem sobre a população de
Cuiabá.
Os preparativos para a
festa de São Benedito começam muitos meses antes da festa propriamente dita e
mobilizam muita gente. Tudo começa com as reuniões preparatórias, a escolha dos
festeiros e dos organizadores.
O que se pode observar
do ponto de vista organizacional da festa é que os recursos utilizados para o
evento, e, sua maioria, são doados por patrocinadores de vários ramos
comerciais e até mesmo por devotos.
O que se verá a seguir é
a tradicional festa do povo cuiabano em manter viva a fé em São Benedito, que
apesar de não ser o padroeiro da cidade muitos fiéis atribuem a ele esse
título.
FESTA DE SÃO BENEDITO
A festa de São
Benedito teve início no dia 28 de junho numa quinta-feira e se estendeu até o
dia 01/07, observamos ao longo da primeira noite que havia poucos participantes
presentes, apesar da programação efervescente, com atrações musicais de shows regionais
para animar e agitar os que ali se encontravam.
Durante a
pesquisa conversamos com várias pessoas, dentre elas, podemos destacar a
Shirlei de 40 anos. Ao nos aproximar ela acabou nos confidenciando sua
insatisfação com os organizadores da festa, pois estes proibiram que os frequentadores
circulassem com outra marca de bebida que não fosse da marca da patrocinadora
oficial da festa, no caso a marca “burguesa”, tendo até mesmo seguranças que
impediam que as pessoas circulassem livremente onde a festa estava sendo
realizada. Shirlei como os demais moradores que moram ao lado da igreja,
naquelas casas geminadas, aproveitaram a festa com duração de 4 dias para
ganhar dinheiro.
Encontramos a Isabel, 46 anos, professora
de língua portuguesa, nascida, criada e moradora da região juntou a família
para vender alimentos e bebidas durante a festa. Se mostrou surpresa com a
organização da festa, pois foi realizada uma reunião e feito um acordo entre os
moradores e os organizadores do evento permitindo a venda de bebidas e
alimentos pelos próprios moradores que possuem suas casas anexas a igreja.
Durante a festa as pessoas que compraram alimentos/bebidas com os moradores,
não podiam circular livremente pela festa, sendo barradas pelos seguranças.
Foto 1: Izabel, nascida e criada nos
arredores da paróquia, estava com uma barraca anexa a festa de São Benedito, foto de Rejayne Bastos.
Algo que nos chamou a atenção que a Isabel
é filha de D. Ana Alexandrina de 72 anos, professora aposentada, uma das
moradoras mais antigas do bairro, mora na mesma casa em que nasceu, sendo que o
parto foi feito por uma parteira, nos relata. Ao entrar na sua casa através do
convite da sua filha, a encontramos deitada no sofá devido ao cansaço físico,
pois estava trabalhando durante o dia na cozinha da igreja auxiliando no
preparo da comida. De acordo com a D. Ana, a festa de São Benedito é antiga e
acontecia em vários bairros da região, era oferecido gratuitamente aos
participantes frutas, lanches. As festas antigas de que guarda na lembrança
ocorria na casa de Bembem na rua Comandante Costa, situada no centro de Cuiabá.
Foto 2: D. Ana
Alexandrina, devota de São Benedito, nascida e criada nos arredores da paróquia de São Benedito e
voluntária na festa. Foto de Rejayne Bastos
D. Ana nos disse que há 03 anos a abertura
da festa de São Benedito ocorre com um baile de gala, que custa 100,00 reais
por pessoa, realizado neste ano pelo Buffet Leila Malouf. Nesse ano não pode
comparecer, mas esteve presente em anos anteriores. Ela nos disse que São
Benedito tem muitos devotos.
A paróquia de Nossa Senhora do Rosário e
São Benedito é responsável por 23 comunidades católicas espalhadas ao redor de
Cuiabá, dentre elas conversamos com a Jaqueline, 31 anos, servidora pública,
que está trabalhando pela sua comunidade denominada de São Pedro, que se
localizada no bairro Alvorada. A paróquia abriu espaço para que algumas das 23
comunidades, vende-se um prato de comida diferente do já tradicional Maria
Izabel que seria vendido pela paróquia. Jaqueline nos disse que é uma delícia
juntar todas as pessoas da comunidade, gosta muito de trabalhar e todo dinheiro
arrecado com a venda do espetinho (prato escolhido pela sua comunidade) será revertido
para a comunidade São Pedro. Todos que estavam em sua barraca são voluntários,
trabalham por amor e fé. Desde os 15 anos começou a participar da festa de São
Benedito. Ao contrário do que ocorre com a paróquia, a sua comunidade não
promove nenhuma ação social fora da igreja.
Encontramos um casal que foram escolhidos para serem Rei e
Rainha da festa de n. Sra do Rosário, o senhor João Félix, 76 anos, festeiro
desse ano, é o rei de N. Sra do Rosário, apesar de não ser cuiabano participa
da festa desde que “nasceu”. Na festa de 2014 foi rei de São Benedito. Faz
parte da paróquia de São Benedito desde que aqui chegou no ano de 1949, sendo
oriundo do Rio Grande do Norte. Nos disse que S. Benedito é inquilino de N.
Sra. do Rosário. A família toda participa da festa, já morou próximo da
paróquia e atualmente mora na região do CPA. Toda terça às 5:00 da manhã
participa da missa. De acordo com o seu João para ser rei tem que ser da
comunidade. O dinheiro arrecado com a festa irá auxiliar na manutenção de obras
sociais mantidas pela paróquia. As obras citadas são: 03 creches, totalizando
485 crianças atendidas; 1 sítio no município de N Sra. do Livramento
para tratar dependentes químicos.
Foto 4: Seu João Félix,
rei de N. Sra. do Rosário e a rainha de N. Sra. do Rosário, Teresa Rosário, que
leva esse nome em homenagem a N. Sra. do Rosário. foto Rejayne Bastos
Já a senhora Teresa Rosário, 62 anos, está
muito feliz com a festa, pois este ano é a primeira vez que será rainha de N.
Sra do Rosário. Em 1996 foi rainha de promessa de S. Benedito. Nascida e criada
na paróquia, para ela é a maior emoção em ser rainha da festa. No dia 23/11/17
foi revelada a ela de que seria rainha da festa de N. Sra do Rosário. Nasceu no
dia 06/10/1956, um dia antes da comemoração do dia de N. Sra do Rosário 07/10.
Nasceu em Cuiabá, foi embora e retornou, mãe de 04 filhos, só a filha mais
velha é católica e não pôde estar com a mãe nesses dias de festa, pois mora em
outro estado.
Ao longo da pesquisa deparamos com Neiva,
65 anos (foto abaixo), aposentada como analista de trânsito, nascida e criada
na comunidade. Toda família participa das atividades da paróquia, mãe de 02
filhos, o marido é coordenador de ministros, enquanto ela é coordenadora geral
da comunidade de N. Sra do Carmo, sendo esta, localizada dentro da paróquia de
N Sra do Rosário e São Benedito. Neiva acha “maravilhoso ser útil, se doar para
a igreja”, trabalha como voluntária e frequenta desde que nasceu. Ela também
nos disse que há inscrição para pagar a promessa de São Benedito, como Ele é um
santo popular há muita procura dos fiéis.
Foto
5: Neiva, devota e trabalhadora da paróquia de são Benedito. Rejayne Bastos.
Esses foram alguns dos
relatos que obtivemos dentre outras, não qual não mencionamos neste artigo,
ocorrido ao logo do período da festa.
A festa de São Benedito que ocorre na igreja de
N. Sra do Rosário e São Benedito, teve vários patrocinadores, dentre eles
podemos destacar a marca de cerveja burguesa, única marca comercializada na
festa, talvez por isso tenha dado atrito entre os moradores que comercializaram
seus produtos nas suas barracas fora do evento. Observando, vemos que a festa
no primeiro dia estava com poucas pessoas, porém por ser o primeiro dia,
quinta-feira, a população iria trabalhar no dia seguinte, estávamos ansiosos em
participar do segundo dia. Encontramos cadeiras vazias próximo do palco, como
observado na figura 6. As mesas tinham a
marca da cerveja burguesa, onde as famílias se reuniam para saborear as
deliciosas comidas típicas da região, essas mesas estavam próximas das barracas
de comida. Ao redor do palco pude observar pessoas mais jovens, mas mesmo assim
uma minoria, que estavam aproveitando um show de pagode.
Foto 6: Cadeiras vazias
encostadas na parede da casa da frente. Foto Rejayne Bastos
Foto 7: Frequentadores em frente ao palco
curtindo show de pagode. Foto de Rejayne Bastos
Já no
segundo dia de festa conversamos com a senhora Eunice, 61 anos, desempregada.
Mora em Várzea Grande, frequenta a festa de São Benedito quase todo ano, acha a
festa “ótima”, “ama rezar para São Benedito”. Como toda devota do santo costuma
frequentar a missa na terça feira às 19:00 horas. Para ela aumentou o movimento
de pessoas “cuiabanas” na festa. A fé permanece e atrai pessoas. Conhece a
história de São Benedito porque aprendeu nos livros.
A dona
Maria Auxiliadora, 66 anos, aposentada, mora ao lado da igreja. Nascida e
criada frequentando a igreja de São Benedito, participa da festa com a filha,
neto. Fé a São Benedito motiva frequentar a festa. Todos os dias da festa
frequenta a missa às 05:00 da manhã. Frequenta a missa todos os dias. Nunca
tentou ser rainha da festa, ajuda a festa com doação. Outros anos ajudou no
preparo da comida. Ela recorda que antigamente era tudo de graça na sua
juventude. “As pessoas levavam para casa bolo de arroz, de queijo,
francisquito, pastel”. A organização da festa para ela é um ponto positivo.
Outra
pessoa encantadora é a senhora Betinha, 84 anos, aposentada, 25 filhos
adotivos, mas gerou apenas 02 filhos, 1 deles morreu. Criou os filhos na casa
onde foi criada. Nasceu na Santa Casa. Para ela a festa de São Benedito já foi
boa. Antigamente era festa. Mudou “a falta de educação”. Antigamente ia a festa
com a família, os filhos cresceram e fazem o que bem entendem com suas
vidas.
Nas
lembranças de D. Betinha, a festa tinha novena (reza, terço) e terminava a
00:00. Atualmente frequenta durante a festa, missas que são realizadas as 05:00
da manhã. Fora a festa costuma frequentar a missa toda terça-feira, se não vai
à missa no horário das 05:00 vai às 19:00. Ela não gostou das transformações
que ocorreram na festa. A festa antigamente era muito boa, o arroz para fazer o
bolo de arroz era socado no pilão. Se lembra que para a festa de São Benedito
os fazendeiros doavam o boi, se recorda que passava a semana inteira fazendo
bolo. Vai à missa descalça, na procissão também vai descalça. Os filhos não
frequentam a festa.
Dona Benedita
Costa Ferreira, 67 anos, aposentada. Nascida e criada no porto. Há 50 anos mora
no bairro Baú e há 50 anos frequenta a festa. Antigamente era festa pequena na
casa de D. Bembém. “Depois que a festa passou a ser na igreja trouxe mais
pessoas”. “O povo é mais devoto e participa mais”. Toda terça às 05:00 da manhã
participa da missa na igreja de N. Sra.
do Rosário e São Benedito. Mãe de 03 filhos eles frequentam as missas na
paróquia.
Gosta
de tudo, acha que há 35 anos (fez uma data aproximada com o nascimento do
filho) a festa passou a ser na igreja. Antes da festa ser na igreja tudo era de
graça: o chá cô bolo, o almoço. Depois que a festa passou a ser na igreja e
cobrado, houve mais organização. Nas festas antigas tinha comida para todo
mundo. A fé a São Benedito a motiva frequentar a festa. Nunca se candidatou a
ser festeira porque a festa é muito grande. Já trabalhou muito como voluntária,
hoje ajuda participando da festa.
Um
rapaz que encontramos, foi Bruno Neves, 30 anos estava acompanhado da sua
esposa Maria Andreia de 22 anos, e o filho Enrico Abraão de 1 ano e 02 meses.
Depois que o filho nasceu passou a frequentar a festa com o objetivo de
preservar a cultura e quer que o filho cresça nesse ambiente. Não frequenta as
missas na igreja. Ele reclamou que faltou mesa e cadeira para a família, que só
conseguiram o lugar depois que estavam terminando de jantar.
Outra
jovem que podemos encontrar e conversar é a Franciele, 28 anos, trabalha no RH
de empresa. Diz ela que a comida é a que mais atrai a sua vinda na festa de São
Benedito, gosta de curtir os shows. Desde criança frequenta com os amigos mais
velhos, se recorda que a mãe frequentava a festa. Geralmente participa no
máximo 2 vezes dos 04 dias de festa. A comida como dito anteriormente a motiva
frequentar a festa. A segurança para ela aumentou. Frequenta a festa com a irmã
e a sogra.
A dona
Ana Leopoldina, 59 anos, trabalha na creche como TDI. Frequenta todo ano a
procissão. É o primeiro ano que frequenta a festa. Veio com a filha e o neto. O
que a motiva a frequentar a procissão é a fé no santo. Gosta de tudo, é
cuiabana, cresceu frequentando a missa toda terça às 05:00 da manhã com a avó,
enquanto morava perto e era criança, depois que cresceu só vem na procissão.
Tivemos a oportunidade de conversar
com os voluntários da festa, dentre eles destacamos a D. Ana Barcelo, 66 anos,
aposentada, moradora do bairro Areão. Além de frequentadora da festa estava
trabalhando na cozinha. Ficou responsável pela farofa de banana, no dizer dela
é “responsável pelo que precisa”. Devoção a motiva trabalhar, recebeu muitas
graças de São Benedito. Ele intercedeu por Ela junto a Deus. Espera por muitas
horas pela festa, “é muito gratificante trabalhar”, por isso “se doa”,
“participa”. Ela e o marido participam e ajudam a cortar a carne 1 mês antes.
Uma outra colaboradora é a senhora
Jane, 59 anos, aposentada, não só frequenta a festa de São Benedito como também
trabalha na organização. Como é nutricionista aposentada ficou responsável pela
coordenação da cozinha. Desde o ano de 1994 passou a participar da festa
efetivamente. Morava no Campo Durique, atual Câmara Municipal de Cuiabá. Sente
muita satisfação, agradecimento em participar pelas graças alcançadas. No ano
de 2011 teve problema de saúde na medula e ficou mais devota. Em festas
anteriores trabalhava como atendente. Desde 2008 passou a trabalhar na
organização. Em 2010 foi “alferes de bandeira” (não sei o que significa,
perguntarei ao padre quando tiver oportunidade de conversar com ele. Me
informaram que para falar com o padre é só com hora marcada), 2012 foi festeira
de promessa, 2014 rainha da festa de São Benedito. Para Ela é “gratificante
trabalhar”. “A responsabilidade é a maior dificuldade”.
Outra colaboradora importantíssima não
só pela sua colaboração mais pela sua idade a senhora e Irmã (como gosta de ser
chamada) Marlene, 76 anos, ajuda na festa de São Benedito desde 2005. Acredita
muito em São Benedito e faz o que faz “por prazer”, “gosta da cozinha”. “Tem
prazer em estar no meio das cozinheiras”, tem uma auxiliar devido a limitações
devido à idade e por ter passado por várias cirurgias, sua auxiliar é a Antônia
Xavier (não consegui registro fotográfico da irmã porque ela não quis tirar a
foto mas consegui da sua auxiliar). Ambas ficaram responsável pelo preparo do
“tutu de feijão”, no 3º dia de festa foi preparado por elas 30 kg de feijão. De
acordo com a irmã, no 1º dia sobrou muito feijão. Ela novamente afirmou que
trabalha por devoção e prazer, se sente feliz em estar no meio delas, das
cozinheiras. É irmã desde os 20 anos. No dia 16 de junho fará 50 anos que ela
se tornou irmã. Ela é do Pará, mas a família e da cidade de Imperatriz (MA),
mora em Cuiabá desde menina.
A diante encontramos mais uma
jovem, Patrícia, 30 anos, contadora, frequenta a festa há 05 anos. Moradora do
Tijucal. Para ela além da festa “ser religiosa” é também “familiar”, “não tem
briga”, e a sua participação é uma forma de “colaborar com a igreja”. Gosta e
participa mais da “festa’. Quando questionada sobre o fato da festa ter uma
única opção de bebida alcóolica, disse que “concorda” até porque a marca em
questão está “patrocinando a festa”. Ela estava acompanhada do Rodrigo, 33
anos, engenheiro civil, ele me disse que veio à festa por causa da “Maria
Izabel”. Quando indagado de o porquê sair do Tijucal (bairro distante) para a
festa, ele comentou que “estava onde a festa estava”, a distância para ele não
fazia a menor diferença. Mas o que realmente o motivou a estar na festa de São
Benedito, foi a própria “festa”.
Já para o senhor Israel de Moraes, 60
anos, fiscal de transporte. Trabalha na festa de São Benedito há 50 anos.
Conforme ele nos disse, “foi a D. Bembem que morava na Barão de Melgaço que
começou a festa”. O Israel estava na barraca da família Malouf, o prato que a
família servia era espetinho. Devido ao movimento paramos de entrevistá-lo e
não o procuramos mais. Ele estava muito ocupado, então preferimos não o
incomodar.
Durante a festa no dia 30, nos
encontramos com a Jane, a nutricionista e responsável pela organização da
cozinha, ela nos disse que nesse dia foram feitas 30 panelas de comida. Cada
panela serve 130 pratos “com chorinho”, sem “o chorinho” serve de 150 a 160
pratos. “Chorinho” é um termo utilizado quando a pessoa que compra o prato pede
para colocar mais comida e quem está servindo coloca mais conforme o gosto do
freguês. Não sei se essa expressão “chorinho” é uma legítima expressão cuiabana
ou utilizada por outras culturas espalhadas pelo país, com significados
variados.
A senhora Catarina, 47 anos, do lar,
viúva. Ela é mãe do Paulo Fernando que é um dos festeiros da festa, ele tem 25
anos e é o mais jovem dentre os festeiros. De acordo com a Catarina ele começou
a se envolver com a igreja de São Benedito cantando no coral. Ano passado o seu
filho foi eleito “capitão de mastro” (também não sei o que isso significa,
perguntarei ao próprio Paulo quando me encontrar com ele. No último dia de
festa fui mais cedo para a igreja para falar também com ele. Como ele ajudou na
cozinha o dia todo, teve que dar uma pausa e foi para casa para tomar banho e
descansar, pois, como era um dos festeiros precisava se preparar para a
procissão). Fiquei esperando por ele nas proximidades da cozinha e ele
apareceu, expliquei a ele que tinha conhecido e conversado com a sua mãe no dia
anterior, e Ela me disse que Ele era um dos festeiros, e por isso eu gostaria
de conversar com ele. Ele me passou o seu telefone e ligarei para marcar uma
entrevista, pois devido ao meu cansaço físico tive que ir para casa sem
conversar com ele e com o organizador geral da festa.
Conversando com a Catarina ela me disse
que nasceu numa família católica, mas a sua religião é a Umbanda, as vezes ela
frequenta as missas. Acabou nos confidenciando que vários cozinheiros que
trabalham na festa são umbandistas. Nos disse também que a igreja do Rosário e
São Benedito é uma das poucas igrejas que permitem essa troca de experiência
com a Umbanda. Nós (eu e o Wesley) nos convidamos para conhecer o terreiro em
que ela frequenta, que está localizado na Av. Beira Rio. Ela nos explicou onde
está localizado e iremos fazer uma visita, até porque é a primeira pessoa que
conheço que fala abertamente que é da Umbanda. Estou “morrendo” de curiosidade
para saber como é, o que eles fazem. Eu sou espírita e acredito que não vou me
deparar com muitas surpresas, apesar de saber que há muitas diferenças. A
umbanda pelo pouco que sei (e tenho obrigação de saber mais pelo que me foi
apresentado pela Catarina, e também por ir visitar o terreiro assim que
combinarmos: eu, a Catarina e o meu parceiro de pesquisa, Wesley) é uma
religião de matriz africana trazida e preservada pelos negros que foram
forçados a abandonar suas raízes, para satisfazer interesses de europeus
“preguiçosos”, que eram avessos ao trabalho. Me refiro aos europeus de forma
pejorativa, pois foi isso que me foi apresentado nos livros de história do
Brasil e do Mato Grosso ao estudar para o último concurso público para o órgão
da SEDUC. Nunca tinha lido nada parecido antes na escola e nem em lugar nenhum.
Preciso explicar como conheci a
Catarina. Nós estavamos dando umas voltas sem torno da festa e paramos
exatamente próximo onde Ela se encontrava (ela estava parada quase numa
esquina, é a última rua que dá acesso aos fundos da igreja e onde se encontrava
as barracas de comida, Catarina esperava outro filho que a acompanhava),
começamos uma conversa e queríamos saber quantas ruas davam acesso a igreja, eu
me confundi e a Catarina achou que tivéssemos perdidos. Dissemos que não
estávamos perdidos explicando o que estávamos fazendo ali. Foi uma excelente
oportunidade de conversarmos, e trocarmos experiências, tanto sobre o filho
dela que é o festeiro mais jovem, como também de nos revelar que há muitos
umbandistas participando e trabalhando na festa do santo em questão. Eu a
considero com toda certeza a “personagem” (não gosto desse substantivo, pois
remete a algo que não é real) dentre os participantes da festa, como a mais
importante, por ter nos revelado o que revelou. Fiquei surpresa e grata com a
oportunidade.
Continuamos a andar e encontramos a
Gláucia, 41 anos, cabeleireira. Ela é uma das moradoras que mora ao redor da
igreja. É moradora há mais de 20 anos, a sua casa está localizada na rua Praça
do Rosário, é a primeira rua subindo a igreja e próximo onde ficou localizado o
palco. Se incomoda com os fogos durante a missa que é realiza de madrugada.
Todo ano aproveita a oportunidade da festa para vender algo, este ano optou por
vender milho verde cozido, sempre vende tudo, ano passado ela vendeu cachorro
quente. A sua casa é patrimônio histórico, primeiramente ela alugou a casa e
depois acabou comprando. Apesar de ser católica ela não frequenta as missas.
Para ela a única coisa que a igreja dá para os fiéis é a vela (pelo que pudemos
observar a única coisa que a igreja deu foi a porta vela feito de papelão e um
leque também de papelão por causa do calor). Ela nos disse que “não sentiu
vontade de trabalhar na organização, acha injusto a igreja vender tudo muito
caro, até porque tudo o que a igreja vende é fruto de doação”. Mas o que nos
impressionou foi sua moradia, por se em frente a igreja e no centro de Cuiabá, estrutura
antiga, patrimônio histórico da região, ela disse que não pode fazer nenhuma
intervenção no imóvel sem ao menos que notifique a prefeitura local, pedindo
autorização, apesar de a casa aparentar estar bem preservada.
Por fim chega o último dia de festa,
dia primeiro de Julho, Rejayne
conseguiu ir à missa as 05:00 da manhã - cheguei a tempo de assistir a
entrada dos festeiros. Não consegui entender quantos são, mas ao conversar com
o padre através de hora marcada saberei. A entrada dos festeiros foi animada, e
contava com a ajuda de uma banda que tocava marchinha. As músicas da missa são
cantadas com alegria, achei bem animada e senti vontade de dançar e “dancei”
quando tocaram a música de São Benedito que é bem animada. Pude observar uma
mulher jovem com uma criança de colo, achei o público bem heterogêneo. Não se
via apenas idosos, havia jovens.
Conversei (rejayne) com
o Getúlio Ribeiro da Silva, 55 anos, trabalha no ramo financeiro. Acordou às
04:00 da manhã para ir à missa. Todo ano participa, é frequentador da
comunidade São Judas Tadeu (a igreja fica subindo a Cel. Escolástico), foi
capitão de mastro na festa da igreja que frequenta. Na missa foi sozinho, mas a
família também participa, foi apenas naquele dia. No dia que conversamos, ele
ia ajudar na barraca da igreja São Judas Tadeu, vão vender Maria Izabel. Não é
só a anfitriã da festa que pode vender pratos típicos, como a famosa Maria
Izabel. No dia anterior a sua comunidade vendeu espetinho. Há 04 anos que ele
participa da festa, morador do bairro Areão.
Durante a tarde deste dia conversei
com o Renato, 23 anos, estudante de serviço social. Desde 2012 trabalha na
festa na função de caixa, atua como voluntário. É do município de Santo Antônio
do Leverger, a família toda é oriunda de Santo Antônio. Veio para Cuiabá para
estudar e trabalhar. Se tornou voluntário da festa convidado por um amigo que
foi festeiro. Fora os dias de festa costuma ir à missa na quarta às 05:00 da
manhã. Os pais sempre frequentavam a festa. Credita a intercessão de São
Benedito a cura de um câncer de útero na sua mãe. A mãe é cozinheira e já
recebeu convites para cozinhar em SP, costuma cozinhar em eventos, casamentos.
Ele tem 15 irmãos, todos de parto normal, a mãe tem 63 anos e o pai 65. O pai
participa da santa missa, da procissão enquanto a mãe ajuda na cozinha. Há 16
anos a sua mãe participa da festa ajudando na cozinha.
Acordou às 04:20 da manhã para ir
à missa das 05:00, foi para a missa de “uber”, com a irmã. Dos 17 membros da
família apenas 03 ajudam na festa: Ele, a mãe e o irmão que é formado em
gastronomia. Sempre frequentou desde criança a festa, participa da missa, da
procissão (desde que passou a trabalhar no caixa não pode participar da
procissão). Percebeu que “através da devoção ao santo a graça acontece. O que
mais admira na festa é a participação fervorosa dos fiéis, e o testemunho das
graças alcançadas”. “Sente falta das atrações culturais, tradicionais como a
apresentação de cururu e siriri que não tem mais”. (Nesse ano a festa contou
com a apresentação do grupo de dança flor ribeirinha, gostaria muito de ter
assistido, mas devido ao meu cansaço e do meu colega decidimos ir embora sem
assistir à atração cultural que faz esse resgate da cultura cuiabana). Foi para
casa após a missa e retornou as 10:20 para a abertura do caixa que reabriu às
11:00 para a venda do almoço.
Outro senhor que encontro descansando
após o trabalho na cozinha, é o senhor Nilson, 56 anos, aposentado. Coordenador
da cozinha. Devoto de São Benedito desde criança. Mora no bairro Duque de
Caxias. Saiu da cozinha no dia anterior à 00:00. Vinha a festa antigamente com
os avós. A festa para ele mudou muito. Cada rei faz a festa ao seu gosto. Muda
muito a festa de 1 ano para o outro. Não há cansaço para ele, às 2:30 da manhã
já está na cozinha para preparar o café da manhã para quem trabalha. Acabando a
festa de São Benedito vem a festa de N. Sra. do Carmo, e depois a festa de N.
Sra. do Rosário. Ficou a festa no mês de junho por causa das crianças que
entravam de férias. A data de nascimento de São Benedito é em outubro 05/10, e
de sua morte no dia 04/04. A festa antigamente para ele, as pessoas eram mais
unidas e ajudavam mais, elas se conheciam e frequentavam a casa um das outras.
No último dia de festa foi reservado
2000 kg de carne para a paçoca e 4000 kg para a Maria Izabel. Para ele a função
do festeiro é trabalhar e angariar dinheiro para a igreja. O Sr. Nilson já foi
5 vezes festeiro de São Benedito, a última vez foi em 2006, já foi rei de N.
Sra. do Rosário, juiz, e capitão de mastro em 2004 e 2006. Começa a trabalhar 1
ano antes, vai de agosto até o último dia da festa que é em julho. Acha “bonita
a procissão, a saída de bandeira e antigamente no último da saída de bandeira
era feriado, pois ia muita gente”. São 45 dias de visita da bandeira. Atua há
05 anos como coordenador da bandeira, são 2 bandeiras de São Benedito, sendo
que uma sai de manhã e a outra a tarde. Nos contou que antigamente um festeiro
que foi apelidado de “João Balão” dividiu a festa entre ricos e pobres, pois
para os ricos foi servido um legítimo “chá cô bolo” no clube Dom Bosco,
enquanto para os pobres foi servido bolachinhas no bairro Lixeira na década de
70.
A festa, como foi falado em falas
anteriores era realizada na casa de D. Bembem, e houve um consenso entre a
irmandade de S Benedito para trazer a festa para a igreja. Quando criança
frequentava a festa de S. Benedito na casa de D. Bembem, e nos disse que a D.
Bembem não fazia festa, ela alugava a sua casa e quem fazia a festa era os
festeiros, os fazendeiros, os comerciantes, os fiéis. Quando Ele houve falar
que festa boa era a que ocorria na casa de D. Bembem, para ele não passa de uma
falácia.
Encontramos no úttimo dia da festa antes
da procissão o Niuam Ribeiro, 33 anos, vice-prefeito de Cuiabá, é o rei da
festa de São Benedito pela primeira vez. A função do rei é simbólica, tanto ele
quanto a rainha doam a sua imagem para a festa, ambos têm de levar a bandeira
para os órgãos públicos e instituições. Para ele fica a responsabilidade de
organizar a festa e manter viva a tradição. Sente orgulho em ser rei e o
escolheram porque querem renovar os fiéis da igreja, e claro, manter viva a
chama da fé. O convidaram para trazer a juventude para a igreja. Se sente
honrado pela oportunidade em fazer a vontade de S. Benedito e do Espírito
Santo. Toda terça após a missa tem o chá cô bolo, tudo comprado, o dinheiro
arrecadado mantém a igreja e os projetos sociais da paróquia. O que ele inovou
no seu reinado foi o “happy hour” na quinta-feira antes do jantar, para agregar
a juventude. Segundo ele, deixou sua personalidade no reinado, pois respeita o
grupo, as opiniões, e para ele as pessoas que fazem a festa acontecer é quem
está na cozinha há 30 anos. Usou suas mídias sociais para divulgar a festa.
Outro membro da organização da festa é o
João Pedro, coordenador de arrecadação. A marca de cerveja burguesa ofereceu
para patrocinar a festa pelo segundo ano seguido, e claro ela tem participação
nos lucros. A paróquia convidou 3 marcas e a melhor proposta ganha, a menor
percentagem no lucro ganha. Não pode entrar na festa a marca de cerveja que não
seja da burguesa, os seguranças só estavam barrando cerveja que não fosse da
marca burguesa.
A procissão era para ter começado às
17:00 horas no domingo. Houve um pequeno atraso pelo fato dos fiéis se
concentrarem na rua São Benedito, onde a imagem, os festeiros, e os anjinhos
iriam passar. A procissão começou com o sino tocando e após ocorreu uma queima
de fogos. Há várias pessoas descalças na procissão. É um público bem
heterogêneo, vemos crianças, jovens, adultos, idosos, mas há muitas crianças em
carrinhos de bebê sendo empurradas, acredito pelos pais, na maioria das vezes
são mulheres e crianças. Presenciei crianças segurando velas. Há muita gente na
procissão. Não sei calcular quantas pessoas tinham, cheguei a procurar um
policial para ele estimar o público e ele me disse que não sabia.
Durante a procissão conversamos com o Renato,
Ilda e Enzo de 05 anos, que desde que nasceu participa da festa e vai com a
família. Fomos conversando com as pessoas durante a caminhada, e observando
tudo que ali tinha, os caminhantes, as pessoas nas casas e comércios ao longo
da procissão, tinha uma casa que estava toda enfeitada, de frente para a
avenida esperando a imagem do santo passar.
Durante fomos conversando com Meire,
62 anos, pedagoga, é o segundo ano que participa da procissão, vai “para
agradecer a tudo que possui”, “agradecida a Deus e a São Benedito”. Cuida da
mãe que se recupera de um AVC. Não falta a procissão, já teve graças
alcançadas. Devota do santo desde criança.
Já para a senhora Edilaine, 35 anos,
empresária, estava com a filha Priscila de 07 anos. Devota do santo há 06 anos.
Frequenta a procissão em agradecimento pela saúde dos pais, os 02 tiveram
câncer. O 1º a ter a doença foi o pai com câncer na próstata e depois a mãe com
câncer de mama. Os pais já eram devotos antes de receberem a graça. Atribui a
graça alcançada a S. Benedito, Divino Pai Eterno, e a N. Sra. Aparecida. Tanto
Edilaine quanto Priscila acompanharam a procissão descalças.
Celina Alves Correia, encontrei essa Sra.
muito nervosa pelo fato de seguranças impedirem que os fiéis chegassem perto da
imagem de S. Benedito. Assim que a procissão retornou para a festa, tanto os
festeiros quanto a imagem do santo se deslocaram para o palco, e para chegar
até o palco tinha uma barreira de seguranças impedindo que os fiéis se
aproximassem da imagem, que só foi dissolvida quando os festeiros retiraram
todas as rosas que enfeitava a imagem do santo e após o padre dar a benção
final. Celina nos disse que “São Benedito é do povo”, “dos humildes”, colocaram
seguranças para impedir de chegar perto do santo”. Devota de São Benedito,
acompanha esmola, a bandeira. “Colocar segurança é para impedir de o povo
chegar perto”. Devota do santo desde que nasceu. Mora no porto, não vem a missa
às 05:00 da manhã por causa do horário e pela falta de segurança, para ela “é
perigoso andar muito cedo”. De acordo com ela na casa de D. Bembem “a festa era
pro povo”, troca os festeiros e vai mudando.
As pessoas que circulam no último dia de
festa são das mais diferentes formas e tipos. Vejo muitos jovens, adultos com
crianças, e há também idosos. A música
que está tocando é rasqueado do trio Henrique, Pescuma e Claudinho, vejo as
pessoas se divertindo.
Onde os moradores do lado direito da
igreja montaram suas tendas, totalizaram 19 barracas, e é a única opção de
atração para criança como pula -pula e um escorregador inflável gigante.
Uma Sra. que não quis se identificar disse
que deveria ter mais pontos de vendas (são apenas 2 contêineres). Disse que as
pessoas que estão sentadas deveriam ser mais sensíveis com os idosos,
cadeirantes. Há pessoas sentadas nas mesas e ela viu uma mesa com duas cadeiras
vazias, pediu uma das cadeiras e a pessoa que estava sentada não deu o lugar
para ela sentar, que estava com um prato nas mãos querendo se alimentar. Ficou chateada com a situação e se sentou ao
meu lado num “murete” na lateral quase nos fundos da igreja.







Nenhum comentário:
Postar um comentário