sábado, 19 de outubro de 2019

UM DIA DE BOTECO: OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE DO ZAPATTA SNOKEER BAR


UM DIA DE BOTECO: OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE DO ZAPATTA SNOKEER BAR
Rafael Albertoni Mazeto – Graduando em Ciências Sociais
Silvanete Reis da Silva – Graduanda em Ciências Sociais


APRESENTAÇÃO

O texto a seguir trata de uma observação participante referente ao estabelecimento comercial do ramo de alimentos, bebidas e diversão chamado “Zapatta Snooker Bar”.
A escolha desse estabelecimento como objeto de análise se mostrou apropriada pelo fato de que é um ambiente que acabamos frequentando-o repetidas vezes como clientes, e que quando posto como objeto de estudo acabou-se por percebê-lo e conhecê-lo de outra maneira como normalmente o víamos.
Para elaboração da análise realizamos duas visitas ao estabelecimento, uma no dia vinte e seis de setembro, uma quarta-feira, e outra no dia dois de outubro, terça-feira. Esses dois dias frequentando e observando mostraram a distinta dinâmica que acontece no estabelecimento.
A metodologia utilizada foi a observação participante juntamente com entrevistas não estruturadas com frequentadores, trabalhadores e proprietários do estabelecimento.

UM DIA DE BOTECO


Era uma quarta-feira, 26 de setembro de 2018, 21:00hs. Então já sabe né, dia em que certa “magia” toma conta das pessoas e faz com que elas fiquem vidradas em uma televisão ou mídia semelhante. Isso mesmo! Quarta é dia de jogo de futebol, a “paixão do brasileiro”.
Saímos do campus da UFMT em Cuiabá pelo acesso da rua um, e a isso já faço uma referência, esse acesso é considerado também como a “saída dos fundos”, normalmente entendida assim pela parcela da comunidade acadêmica que vai para a universidade de ônibus ou de automóvel, carro ou moto. Já para a parcela que chega a universidade a pé, de bicicleta e, principalmente, para os que moram nas imediações e fazem uso frequente de tal acesso, ele passa a ser considerada uma das principais entradas e saídas do Campus.
Resolvemos praticar nossa observação participante tendo como objeto a dinâmica do empreendimento chamado de Zappata Snooker Bar, que é um bar, ou boteco, que fica ao lado da universidade, na Rua Um, e tem como seu público alvo os frequentadores da mesma, estudantes, professores, técnicos, etc.



O Zapatta é um estabelecimento que existe naquele local há vários anos, porém nas duas visitas feitas ao local, não conseguimos relatos concretos a respeito do tempo de sua existência, mas os que relataram afirmaram que já existe há mais de dez anos, e segundo o sócio-gerente atual, o estabelecimento foi aberto por um Senhor chamado Aroldo.
O nome Zapata faz referência ao México, isso fica evidente quando se percebe que toda decoração e adereços vistos no ambiente fazem referência à cultura daquele país. Não bastasse isso, as paredes internas são pintadas de verde e a marca de cerveja vendida possui toda sua estética visual de marketing na cor vermelha, logo, o contraste das mesas vermelhas, com as paredes verdes e luminárias criam um clima de bandeira mexicana.
Deduzimos ainda, que o nome Zapatta brinde o revolucionário Emilio Zapata Salazar, considerado um herói mexicano, que comandou a revolução de 1910 contra a ditadura de Porfírio Díaz.



Na primeira visita do dia vinte seis de setembro, quarta-feira, dia de jogo, percebemos que o bar estava praticamente cheio, arriscamos dizer que setenta e cinco por cento da sua capacidade estava ocupada, porém uma enorme quantidade de mesas e cadeiras aguardavam amontadas e desajeitadas na calçada, como quem espera que muito mais clientes aparecessem. Na segunda visita no dia dois de outubro, terça-feira, o movimento do estabelecimento estava mais calmo, diria que o público ocupava metade da capacidade, talvez um pouco menos. Uma das coisas que chamou atenção e que estava por igual nas duas visitas foi alta ocupação das mesas de sinuca, que por sua vez, a sinuca, apareceu nas falas dos entrevistados como um dos principais motivos pelo qual frequentam o estabelecimento.



No primeiro dia de observação acabamos não entrevistando os clientes por uma questão de bom senso, como a grande maioria assistia ao jogo vidrados no telão, afinal era um clássico, Flamengo e Corinthians, as equipes que atualmente possuem as duas maiores torcidas do futebol brasileiro, enquanto a outra parcela de clientes divertia-se jogando sinuca, portanto, nesse primeiro dia acabamos por conversar mais com alguns dos funcionários do estabelecimento do que com clientes.
Ainda no primeiro dia de visitas pudemos descobrir que trabalham no estabelecimento seis pessoas, sendo um sócio-gerente, que é responsável pelas funções do caixa e pelo trabalho do bar, quatro garçons e duas pessoas na cozinha. Desses três são homens e três são mulheres.
No momento do jogo, percebemos que aquele normal clima de bate papo dos botecos fica meio que suspenso, e quando acontecem são sempre em torno e sobre o jogo, percebe-se até um clima de tensão no ar, não fosse o Rock ‘n Roll que continuava a tocar, diríamos até que um silêncio parece tomar conta do ambiente. E de repente, tá lá, gol, os corintianos se levantam para festejar, pulam, se abraçam, provocam os outros, gritam, comemoram, enquanto os outros que aparentemente eram flamenguistas passam as mãos pelos rostos com semblantes de desaprovação. Uma típica cena dos torcedores brasileiros e dos movimentos de grupo!
Na segunda visita ao estabelecimento, nos apresentamos para o sócio-gerente do mesmo que chama-se Paulo, explicamos sobre objetivo da nossa pesquisa e interesse em trabalhar a observação participante e entrevista no ambiente do estabelecimento e ainda tirar algumas fotos. O mesmo consentiu e iniciamos a entrevista com ele.
Paulo de 38 anos, é o sócio-gerente do lugar, está no negócio há dois anos, disse que o bar tem mais de dez anos de existência e sabe que o primeiro proprietário foi um senhor chamado Aroldo. Reconhece que seu público alvo são os universitários, principalmente da UFMT, e que os dias em que o estabelecimento tem mais movimento de clientes é quarta e sexta, o primeiro devido à transmissão do jogo e o segundo pela música ao vivo. Explicou sobre terem uma limitação de variedades de cerveja ofertada, pois aceitaram a parceria de uma determinada indústria de cerveja, que possui um portfólio menor de produtos, mas que mesmo diminuindo as opções de oferta, se diz satisfeito com a parceria, pois a forma com que o parceiro o atende, bonifica e o assiste compensam tais limitações de oferta de produtos. Citou também que percebe que ex-universitários mantém o vínculo com o estabelecimento, pois continuam frequentar mesmo após terminarem seus cursos na universidade. Não prolonguei muito a conversa, pois o Paulo, mesmo sendo-sócio gerente, também é o caixa e o barman ao mesmo tempo.
Após entrevista com o “sócio-gerente-barman-caixa” parei na primeira mesa e abordei dois rapazes que estavam conversando enquanto davam um tempo entre uma partida de sinuca e outra. Fiquei meio constrangido de “incomoda-los”, atrapalhar o papo dos dois, mas tinha um trabalho a realizar, tomei coragem e os abordei. Informei sobre o trabalho que estávamos realizando e se topavam em serem entrevistados. André 34 anos e Gabriel 25, não são mais universitários, mas quando o eram frequentavam outras instituições de ensino, mas acabavam frequentando o Zapatta semanalmente. Disseram que quando querem botar o papo em dia e se encontrar, tomar uma gelada e jogar uma sinuca marcam para ser ali mesmo. A entrevista com André foi interessante, pois antes mesmo de eu começar a indagá-lo, ele demonstrou que já me conhecia, “você não é marido da Marina?”;”Você não trabalha no TJ?”. Respondi as indagações dele, que me disse ele que havia estudado com minha esposa no ginásio, no colégio Patronato, e que me via sempre no TJ, lugar que na verdade eu só frequentava para ir almoçar. O interessante desse diálogo é que o vínculo que se estabeleceu entre entrevistador e entrevistado facilitou o bate-papo que se propunha. De maneira bastante amistosa a conversa fluiu e consegui as respostas para as perguntas indagadas.



Continuando a sequência de entrevista, caminhei em direção ao outro lado do salão, onde tinham outros dois rapazes também aparentemente dando um tempo entre uma partida de sinuca e outra, nesse caso as bolas já estavam arrumadas na mesa como o prenúncio de que a partida já ia começar. Mais uma vez, meio sem jeito, com receio em importunar os outros, interrompendo aquele momento de lazer, e nesse caso, fiquei ainda mais receoso, pois percebi que além de conversarem eles beliscavam uma batatinha que já parecia estar fria há tempo. Engoli a vergonha novamente e fiz toda abordagem explicativa do trabalho e comecei as indagações. Eram Luiz Hugo 33 anos e Renã, também da mesma idade, um estudou na ufmt, o outro morava na região, frequentam o Zapatta há cerca de 10 anos, disseram que antigamente mantinham uma frequência semanal, agora quinzenal ou mensal. Revelaram que vão lá sempre para encontrarem os amigos, jogar sinuca e bater papo, e não para badalar, ou azarar, contaram ainda, que entendem esses momentos no Zapatta como uma experiência de manter os laços afetivo que se formaram com esses amigos, sendo a sinuca um dispositivo importante como motivo para esses encontros. Fui indagado para qual curso que era o trabalho, respondi, e o entrevistado Hugo logo foi revelando que era da área da comunicação, jornalista, e quis ampliar o diálogo, começou a citar autores importantes da sociologia, como Gilberto Freire, Sergio Buarque, mas que tinha lido mesmo era Darcy Ribeiro em o Povo Brasileiro. Acabamos falando sobre política, pois o mesmo revelou que é assessor de comunicação de um candidato ao senado e no fim do papo, pediu voto para o mesmo. Disse que não podia, pois o candidato era a favor de uma Lei que defendia o trabalho escravo, ele então alegou que seu suplente era um sujeito implicado com o desenvolvimento turístico do estado e que eu deveria lhe dar uma chance! Agradeci a entrevista o bate papo e disse que pensaria a respeito do voto, mas não votarei no nele.



A entrevista seguinte foi com a Nicolle de 25 anos, estudante de Engenharia Sanitária da UFMT, mora nas proximidades do Zapatta, disse que frequenta o local semanalmente, que ele disputa sua preferência com outro bar chamado “Arcanjinho” (outro estabelecimento semelhante), alegou que o preço é um fator importante na escolha dos estabelecimentos dado que é universitária e a grana é curta, disse que gosta da sinuca, mas não joga muito bem. Revelou ainda que o principal motivo de preferir o Zapatta é a possiblidade de fumar nas mesas da calçada, dado que é uma consumidora de tabaco. Disse que usualmente come ali, que considera um bar bastante democrático, seja pela diversidade dos frequentadores como também pelo preço.


Terminada a entrevista com a Nicole, o assunto por ela levantado de qual dos bares era o melhor, “Zapatta” ou “Arcanjinho”, a discussão continuou na conversa da mesa na qual estávamos nós com mais quatro pessoas, sendo analisado os botecos por categorias como: atendimento, cerveja mais gelada, preço, música, e possibilidade de fumar. Não se chegou a um veredito de qual era o melhor, cada um teve pontos positivos e negativos, permanecendo em empate técnico.
Após aquela discussão e acreditando que os elementos colhidos eram suficientes pelo menos para a elaboração de uma breve descrição do local, objetivo do trabalho em questão, e revelar que muitas vezes olhamos os espaços ao nosso redor, mas não vemos de fato, quase que parecendo como se fosse a primeira vez que tínhamos pisado ali, ou mesmo passando a perceber as relações se apresentam e não se percebe não fosse a observação participante.
Encerramos a atividade, nossas anotações, fechei o caderno de campo pedi uma caipiroska, acendi um charuto, e passamos a discutir teorias sociais o processo eleitoral de 2018.











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