Diário de Campo
Casa Rio
Nicolas Alexandre Amorim dos Santos
Era numa tarde como qualquer outra, mas que a
utilizamos para nos preparar para irmos em uma festa. Havia, além de mim, mais
quatro pessoas, integrantes do grupo que iria realizar a atividade de
antropologia. Com uma estrepolia dos mórbidos dias e do lânguido estado que
percorre fases de minha vida e de meu ser, o meu todo apresentou-se-me como que
dessemelhante diante daquela atividade antropológica, de conhecer o diferente
desenvolvendo alteridade.
Da tarde veio o momento crepuscular do dia. Quando
todos estavam prontos, decidimos pegar um Uber, isso é, pegar uma carona com um
motorista que, por meio da tecnologia de seu celular, recebe uma chamada de
pessoas que estão próximas dele e que ele se despõe para levar a um determinado
lugar. Uma espécie de motorista particular, a maneira de um táxi, mas com suas
devidas peculiaridades. Enfim pegamos e chegamos demasiado cedo na festa e no
caminho íamos escutando um pagode de uma rádio local e fui discutindo sobre
música com uma das pessoas do grupo de estudantes que estava ao meu lado. O
assunto foi mudando e mais próximos do local da festa estávamos, na Casa Rio,
do bairro cuiabano Beira Rio.
Enfim chegamos e ouvi alguns comentários sobre
possibilidades de chuvas e fomos interagindo enquanto nós aguardávamos as
pessoas da festa nos receberem na portaria. Comentários eram proferidos para
que não houvesse tanto silêncio e eu até recitei algumas canções, devido ao
assunto sobre música, surgir subitamente. Eis que então, entramo-nos todos ao
recinto. Era um espaço bem grande, de um aspecto colonial, “provavelmente”,
pensei, “escravos já haviam vivido por aqui”. Algumas luzes estavam sendo
testadas juntamente com o som, nós estávamos conhecendo o ermo de todo o
casarão que em pouco tempo haveria de ser preenchido, o que de fato aconteceu,
consumando as nossas expectativas.
Os responsáveis pela festa nos receberam, estavam se
distraindo um pouco, antes da festa começar, assistindo no sentido de ver, pois
a sua assistência já se dava por acabada, portanto estavam acompanhando um
programa de televisão. Em meio a uma enorme e turbulenta cidade, tudo pode
acontecer e está acontecendo, assim como na minha mente e na vida. Tudo muito
rápido, subitamente rápido, mas ao mesmo tempo, lento, estranha e
inexplicavelmente lenta.
Fizemos uma pequena entrevista sobre a visão dos
organizadores, a respeito daquilo que se é organizado por eles mesmos. No
começo, houve um certo receio, mas depois, se abriram mais. Vendo que estava
tudo tranquilo, não havendo nada a se preocupar, agiram todos, então,
amigavelmente. Ficamos sabendo da história do casarão e a minha suspeita,
relativa a escravidão e o local, estava certa. Findada a entrevista, eles foram
para uma reunião e ficamos à vontade para esperarmos a festa.
Não demorou para surgir um engorgitamento de uma fila,
devido ao fato de, até um certo horário a entrada ser gratuita, o que
posteriormente o soube. Foram aos poucos chegando gente e ajeitaram-se em um
determinado canto. Alguns estavam com um semblante revelador de um cansaço,
seja pelo trabalho onde haveria de estar, de alguma uma aula realizadora de uma
certa pusilanimidade ou do percurso realizado para ali estarem, mas todos de
acordo estavam, que ali, era lugar para esquecer o cotidiano, deixar de lado
aquele todo corriqueiro construtor de cansaço. Ali poderiam ser o que bem são
ou querem ser, mas algo o impede que o seja fora dali. Haveriam de relaxar,
entregarem-se a catarse e beijarem quem há de concordar, de aceitar o beijo,
havendo respeito, obviamente.
Havia um público variado de pessoas divergentes umas
das outras, mas a predominância era de um público denominado “alternativo”, por
possuir uma ecléticidade particular e possuir um estilo mais excêntrico. Haviam
os que tinha suas próprias bebidas, meu grupo mesmo havia pedido sanduíches ali
dentro. Estavam à vontade, tranquilos curtindo o que já dizia Horácio: “Carpe
Diem”, o que quer dizer, “Cultives o Dia” e, estavam aos poucos, deleitando-se
do que o momento lhes proporcionara.
Ia então,
aumentando o número de pessoas, pessoas essas de diversos grupos sociais, mas
haviam uma certa predominância de um público LGBTQ, pois as festas na Casa Rio,
atendem mais tal público. Vendo as pessoas, a cultura carregada nelas, a
cultura que se criava ali, poderia entender boas coisas da sociedade e
miscigenação desse mundo globalizado, além de ter momentos reminiscentes de
como em épocas passadas as festas eram e, há vários exemplos de uma região do
mundo para outro, de uma comunidade para outra, como desde os Romanos até as
Raves do século XXI. Eis que me surge uma reflexão: “A profundidade sempre está
escondida no todo, andando sorrateiramente, olhando os cantos e recantos da
realidade, de soslaio. Deixando os olhos e mentes curiosas, demasiadamente
agitadas. Qual a criança, repleta de candura e ávida a receber um docinho”.
A festa foi-se fluindo, encontrei conhecidos, os
integrantes e eu, fizemos algumas perguntas para as pessoas, que acharam um
tanto insólito alguém lhes interrogarem. Houve algumas reclamações a respeito
do público heterossexual que, presunçosamente, acham-se no direito de importunar
as pessoas para um beijo ou algo do tipo, havendo, lastimavelmente, vários
relatos de assédio.
Ficamos depois, livres para desfrutarmos da
experiência de estar ali como aquelas pessoas, não mais como alguém que está
analisando e interrogando, apenas nos deixamos levar pelas músicas, as pessoas
e o ambiente. Deixamos fluir, experienciamos a catarse até por volta das 4
horas da madrugada e fomos, eu e mais uma integrante, dormir na casa do
namorado de um outro. Vimos muito de uma outra parte da realidade, das pessoas,
da busca do deleite, da falta de preocupações com o vindouro e findado. Havia
diversão e tranquilidade.
Regressado, no outro dia para minha casa, ao relembrar
de tudo o que sucedera, conclui a experiencia refletindo sobre as pessoas e
suas histórias, o cotidiano de cada um, surgindo então, um pensamento: Se há
tantas coisas com as quais sucede a alguém, imaginemos, então, a um aglomerado!
O que dizer, assim, da história da humanidade? A vida é um amontoado de
histórias e experiências das mais diversas, para todas as preferências, desde a
mais boba e inocente até a tragédia. Cada uma diferente com algumas
semelhanças, de uma complexidade incomensurável. A história da famigerada
humanidade, é talvez, a dos conhecimentos advindos de experiências, todas
limitando-se a uma determinada circunstância com que épocas vindouras lhes
darão suas devidas qualidades e defeitos. Assim como os indivíduos dão aos
outros seus atributos respectivos a imagem de que cada um tem, sobre cada um.
Às vezes, penso que, analisando-me, sou tudo aquilo
que não queria e nem deveria ser. Hodiernamente somos tudo quilo que no futuro
possamos arrependermo-nos ou não, ou seja, uma incerteza. A admiração ou o
desprezo, só os dias e épocas vindouras que irá fazer com que nós cheguemo-nos
em uma ou outra conclusão. No entanto, o passado formou-nos, moldou o ser que somos,
pois o desprezo mudou o rumo que então seguíamos. Não obstante, o presente é o
que irá ser o mesmo passado que determina o futuro, portanto, uma serie de
análises, reflexões e ações do meu eu atual, é o que mo possibilitará fazer
viver melhor. O que todos são, está em mudança, mas ainda há um “eu” ou uma
parte do ser que não é instável, mas o contrário. Todos somos a nossa
realidade!
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